‘Às vésperas da eleição, bom senso não prevalece’, diz Trajano, CEO do Magalu - QTU Questões do Universo

‘Às vésperas da eleição, bom senso não prevalece’, diz Trajano, CEO do Magalu

Fonte: Bandeira da fonte

O presidente do Magazine Luiza, Frederico Trajano, subiu o tom e fez um discurso emocional e crítico na noite de quinta-feira (27), durante encontro de varejistas no Nubank Arte Lab, em São Paulo.
Na ocasião, ele apresentou fotos de grandes empresários do setor para a plateia, parte delas de varejistas em dificuldades financeiras — inclusive de Samuel Klein, fundador da rede rival Casas Bahia — e disse que, infelizmente, centenas de lojas estão fechando da noite para o dia no país.
Ele ainda criticou a “pressa eleitoreira” do governo na discussão da escala de trabalho 6x1, e disse que a proximidade das eleições “acaba fazendo com que o bom senso não prevaleça”.
Frederico Trajano, CEO do Magalu
Ana Paula Paiva/Valor

Trajano vê alta a chance de o setor varejista perder votações em pautas que envolvem interesse das empresas — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva negociou os temas junto às lideranças do Congresso e do Senado nos últimos dias — às vésperas da eleição presidencial.
Além da mudança da escala 6x1 para a 5x2, outra pauta que afeta as companhias é a migração para lei da Medida Provisória que determinou o fim do imposto de importação de 20%, que impacta diretamente a venda de produtos nacionais no país e os afeta empregos gerados.

“Na verdade, em muitas das votações, a chance de perder é alta hoje, infelizmente, porque, como está aí, a opinião pública e, principalmente, a véspera da eleição acabam fazendo com que o bom senso não prevaleça.
O que prevalece é o que vai dar o voto daqui a um mês.
Mas eu acho que a gente tem que fazer o nosso papel de estar se manifestando e não se calando diante desse momento”, disse ele.

O executivo apresentou na sua fala fotos de empresários que ao longo das décadas construíram esse segmento no país, como Samuel Klein, cuja rede pediu recuperação judicial dia 16 de agosto, e de Abilio Diniz, membro da família fundadora do GPA, cuja empresa aguarda homologação do plano de recuperação extrajudicial.

Ainda citou nomes de Nevaldo Rocha, fundador da Riachuelo/Guararapes, e de João Carlos Paes Mendonça, da rede de supermercados e hipermercados Bompreço.
Disse que essas pessoas e negócios precisam ser mais valorizados pela população brasileira e pelos políticos.
“Mas tem tantas votações que estão para ser feitas que tendem a prejudicar o varejo de uma maneira muito significativa”, afirmou.

“A gente tem notícias de lojas que muita gente sua tanto a camisa para abrir, e da noite para o dia lojas históricas estão fechando, dezenas, centenas de lojas.
E quando você fecha uma loja, não é só a fachada que fecha ou as portas que se fecham.
Você fecha a oportunidade de emprego de dezenas de pessoas, de dezenas de empregadores, você fecha a oportunidade de distribuição de produtos de vários fornecedores que dependem daquela loja.
Então quando você fecha uma fachada, você fecha as portas de uma loja, você fecha muito mais do que só aquela loja, você fecha toda uma cadeia econômica”, disse.

Em seu discurso, Trajano disse que trouxe até fotos do concorrente porque desde que se entende por gente, disse ele, o Magalu concorre com as lojas que o fundador da Casas Bahia, Samuel Klein, montou.

“Então, muita gente fala assim, ‘ah, mas quando fecha uma loja no seu setor, é uma oportunidade para você’.
E eu não consigo pensar assim.
Eu quero que o Brasil ganhe da Argentina, mas eu quero que o Brasil continue jogando com a Argentina.
Isso não tem graça.
Quem é varejista está acostumado a concorrer.
E, por muitas das coisas que a gente tem pedido, pode parecer que o varejo não quer concorrência.
Quando a gente pede para que as compras internacionais sejam taxadas exatamente igual às compras que a gente faz, nós não estamos pedindo para não ter concorrência.
Nós estamos pedindo para ter igualdade de condições.
Porque quem é varejista raiz, igual essas pessoas aqui, cresceu na concorrência.
Cresceram com muitos concorrentes.
Quantos concorrentes o seu Nevaldo [fundador da Riachuelo] não teve? Quantos concorrentes o seu Samuel não teve? Quantos concorrentes o Abilio não teve? A gente nunca teve medo ou preocupação de não ter um concorrente.
Mas a gente sempre concorreu entre si em condições de igualdade.”

Trajano disse as empresas estão sentindo agora uma concorrência no qual o setor tem menos condição de competir “dada pelo nosso próprio governo” a um varejista chinês, “que nem empregar aqui está empregando”, afirmou.

“A gente está pedindo igualdade.
Quando a gente fala que não quer discutir a 6x1 com essa pressa eleitoreira, não é porque a gente é contra a discussão.
A gente só quer tempo de discutir.
Capacidade de colocar o nosso ponto de vista.
Para que correr antes de uma eleição? Sem considerar todos os impactos econômicos que isso pode ter para a cadeia inteira.
Isso eu acho que, de novo, mais uma vez, é a falta da nossa capacidade de mostrar para o Brasil como um todo a importância do varejo e dessas pessoas que fizeram o varejo brasileiro”.

Trajano ainda tocou no tema do avanço dos jogos digitais sobre o orçamento dos famílias.

“Quando a gente fala das bets, parece que a gente não está querendo deixar [crescer] um novo segmento da economia.
Mas que emprego a bet gera? Que valor ela gera para o consumidor? Eu voltei da África agora.
Há um nível de problema de saúde econômica que apostas on-line geraram nos países africanos que vai atingir o Brasil daqui a dois, três anos”, disse.

Para Trajano, o país está discutindo temas que são importantes, mas sem chamar todas as partes da sociedade para um debate sério.

Trajano entende que chegou a hora de o varejo cobrar da sociedade em geral e fazê-la reconhecer que esse setor precisa ser valorizado.
“Porque eu não consigo imaginar uma sociedade e uma economia sem essa força propulsora que é o varejo, e eu tinha que dar uma mensagem mais forte do que eu dei nos últimos anos porque nós estamos às vésperas de algumas votações importantes e acho que a probabilidade de a gente vencê-las não é grande”, disse.

Na verdade, para muitas delas, o executivo vê alta probabilidade de o setor sair perdedor, como a escala de trabalho 6x1 e a transformação em lei da medida provisória que derruba o imposto de importação de 20% para itens que vem de regiões como Ásia.