Às vésperas da cúpula entre Xi Jinping e Trump, China se opõe à venda de armas dos EUA a Taiwan, ilha que reivindica como sua
A China manifestou, nesta terça-feira, sua oposição à venda de armas dos Estados Unidos a Taiwan, ilha que Pequim reivindica como parte de seu território e não descarta o uso da força para controlá-la. Às vésperas da cúpula de dois dias entre o líder chinês, Xi Jinping, e o presidente dos EUA, Donald Trump, que começa na próxima quinta-feira, Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, afirmou que a reação "é coerente e clara".
Pequim, por sua vez, não esperou o encontro para reiterar sua posição, apesar de Trump afirmar anteriormente que levaria o tema à mesa com Xi, que considera Taiwan "a questão mais importante" na relação entre os países. Trata-se da sétima reunião presencial entre Xi e Trump, que não visita a China desde 2017.
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Também nesta terça, o Ministério das Relações Exteriores de Taiwan prometeu "continuar reforçando a estreita cooperação" com Washington e "desenvolver capacidades eficazes de dissuasão para manter, em conjunto, a paz e a estabilidade do Estreito de Taiwan".
Com base nas chamadas "Seis Garantias" de 1982 — um pilar fundamental da política americana em relação a Taiwan —, os EUA declararam que não "consultariam" a China sobre as vendas de armas à ilha. Em fevereiro, Xi já havia pedido "prudência" neste fornecimento ao presidente americano, durante uma conversa telefônica.
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— O presidente Xi gostaria que não fizéssemos isso — afirmou o republicano na segunda-feira, em referência ao fornecimento de armas. — Este é um dos muitos temas que vamos discutir.
Trump também pareceu minimizar a ideia de que a China tente se apoderar de Taiwan. Para ele, não vai acontecer algo semelhante à invasão russa na Ucrânia.
— Tenho uma relação muito boa com o presidente Xi. Ele sabe que não quero que isso aconteça — acrescentou.
Trump e seus assessores afirmaram que a cúpula em Pequim terá como foco o comércio e o investimento. No entanto, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, e outras autoridades indicaram que também esperam que os dois presidentes discutam Taiwan.
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— A questão de Taiwan está no cerne dos interesses fundamentais da China — disse Lin Jian, outro porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do país, na semana passada, quando questionado se o assunto seria prioridade para Xi na cúpula.
No final do ano passado, o governo Trump aprovou a venda de US$ 11 bilhões (quase R$ 55 bilhões, na cotação atual) em armas para Taiwan, o que gerou condenação por parte de Pequim, que prontamente realizou um exercício militar de dois dias perto da ilha. Outro pacote de venda de armas, no valor aproximado de US$ 14 bilhões, aguarda a aprovação final de Trump, que já vem adiando a decisão há meses.
'Os chineses entendem nossa posição'
Muitos em Taiwan estão apreensivos com o que poderá acontecer depois do encontro entre Trump e Xi. O republicano, durante a entrevista de segunda-feira, ressaltou que os EUA estão "muito, muito longe" de Taiwan, enquanto a China "está a 67 milhas" (pouco mais de 100 km).
Xi parece preparado para dar uma lição a Trump sobre o apoio dos EUA a Taiwan. A posição americana em relação a Taiwan tem se baseado, por décadas, em uma complexa rede de políticas concebidas para apoiar a democracia na ilha, evitando, ao mesmo tempo, tratá-la oficialmente como um país independente, o que enfurece Pequim.
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O líder chinês pode tentar persuadir Trump a declarar que se opõe à independência de Taiwan. Isso poderia ser um revés para o presidente de Taiwan, Lai Ching-te, embora ele tenha afirmado não ter planos de declarar a independência. Apesar da parceria de longa data, sucessivos presidentes dos EUA declararam que “não apoiam” a independência de Taiwan.
Segundo especialistas, o principal objetivo de Xi será persuadir Trump a conter ou, em última instância, reduzir a venda de armas americanas para a ilha.
Muitos em Washington, incluindo membros de ambos os partidos no Congresso, apoiam a venda de armas para Taiwan. Parlamentares taiwaneses aprovaram, na semana passada, um orçamento especial de US$ 25 bilhões (cerca de R$ 120 bilhões) para cobrir os dois grandes pacotes de armas, incluindo o que está em análise, aumentando a pressão sobre o presidente americano. Em uma carta enviada na última sexta-feira, um grupo bipartidário de oito senadores americanos instou Trump a prosseguir com o projeto.
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Também na semana passada, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, que acompanhará Trump a Pequim, descartou as especulações de que a cúpula poderia resultar em uma mudança na política dos EUA em relação a Taiwan.
— Os chineses entendem nossa posição sobre esse assunto. E nós entendemos a deles — disse Rubio em uma coletiva de imprensa na Casa Branca.
(Com AFP e New York Times)
