Rússia tomará medidas de caráter militar se Groenlândia for militarizada pelo Ocidente, diz Lavrov

 

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A Rússia afirmou nesta quarta-feira que adotará medidas de caráter “técnico-militar” caso a Groenlândia seja militarizada pelo Ocidente — e indicou que continuará respeitando limites para o desdobramento de seu arsenal nuclear, apesar da recente expiração do tratado Novo START, apenas se os Estados Unidos fizerem o mesmo. As declarações foram feitas pelo ministro das Relações Exteriores russo, Serguéi Lavrov, em discurso no Parlamento no mesmo dia em que membros da Otan planejam lançar uma nova missão para reforçar sua presença no Ártico.

— Evidentemente, se houver uma militarização da Groenlândia e a criação de capacidades militares que tenham como alvo a Rússia, responderemos com as medidas adequadas, incluindo medidas técnico-militares — disse, acrescentando que Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia devem “resolver entre si” as questões envolvendo a ilha.

A Groenlândia, território autônomo da Dinamarca com cerca de 57 mil habitantes, tem estado na mira do governo americano desde que o republicano Donald Trump tomou posse para seu segundo mandato, em 2025. Ao mesmo tempo, a ilha tem sustentado que soberania e integridade territorial são uma “linha vermelha” em qualquer conversa com Washington, e países aliados têm respondido com gestos de apoio à Dinamarca e à Groenlândia. Lavrov, porém, acusou Copenhague de tratar os groenlandeses como “cidadãos de segunda classe”.

As declarações ocorrem após o envio, nas últimas semanas, de pequenos contingentes de tropas europeias à ilha ártica, movimento que se deu depois de Trump afirmar seus desejos de anexação da Groenlândia. O presidente anunciou em janeiro que imporia novas tarifas à Dinamarca e a outros sete países europeus que se opuseram aos seus apelos, mas recuou abruptamente depois de declarar que havia alcançado um “marco” para um acordo com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, para ampliar a influência americana na região.

Na ocasião, Trump também recuou nas ameaças de tomar o território. Antes, havia dito repetidas vezes que, se Washington não assumisse o controle da ilha, Rússia ou China poderiam fazê-lo — acusação que Moscou e Pequim negam categoricamente. Ainda assim, desde a década de 2010, as duas potências exploram a chamada Rota Oceânica Norte, favorecida pelas mudanças climáticas. A Rússia também reforça suas capacidades militares no Ártico, onde posiciona bases a uma curta distância de territórios ocidentais, incluindo os Estados Unidos.

— A Rússia nunca ameaçou ninguém no Ártico. Mas acompanhamos de perto a evolução da situação [...] reforçando a capacidade de combate das Forças Armadas e modernizando as infraestruturas militares — declarou o líder russo, Vladimir Putin, em março de 2025.

Nova missão

Desde o início do ano passado, a Rússia realizou pelo menos 33 manobras militares no Ártico, cerca de metade delas sendo exercícios de treinamento, segundo o grupo de análise Center for Strategic and International Studies, com sede em Washington. Grande parte da atividade militar russa na região está concentrada na Península de Kola, onde Moscou mantém seus submarinos capazes de transportar ogivas nucleares. A Rússia protege esses equipamentos com patrulhas costeiras, navais e aéreas, realizadas a partir do quartel-general da Frota do Norte.

Por outro lado, as forças da Otan também treinam e operam na região. E autoridades devem anunciar ainda nesta quarta-feira uma nova missão para reforçar a presença ártica da aliança. Chamada Arctic Sentry, a iniciativa aumentará o número de tropas na chamada “Tampa do Norte”, que inclui partes da Noruega, Suécia e Finlândia dentro do Círculo Polar Ártico. Espera-se que a Otan amplie as patrulhas marítimas no Mar da Noruega e, em seguida, pelas vias navegáveis entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido, conhecidas como GIUK Gap.

— O Ártico claramente ganhou prioridade para a aliança, e a aliança está respondendo — disse o embaixador dos Estados Unidos na Otan, Matthew Whitaker, a jornalistas na terça-feira.

A área pode servir como campo de testes para novos drones de vigilância, avaliando sua resistência às duras condições climáticas. Especialistas afirmam que a Otan também espera demonstrar ao presidente Trump que a aliança leva a sério a segurança do Ártico sem que os Estados Unidos precisem controlar a Groenlândia como uma primeira linha de defesa — proposta que, no mês passado, ameaçou dividir o grupo.

— O Ártico não esteve realmente na agenda da Otan por muito tempo, mas isso ocorreu porque os aliados árticos assim desejavam — disse Minna Alander, especialista em Ártico e defesa do Stockholm Center for Eastern European Studies. — Não acho que haveria outro motivo neste momento para lançar o Arctic Sentry se não fosse a pressão de Trump pela Groenlândia.

Uma das preocupações entre autoridades militares da Otan é que a Rússia possa enviar um submarino com capacidade nuclear pelo Mar da Noruega até o GIUK Gap para alcançar o Atlântico. Soma-se a isso o fato de que Moscou se envolve no que autoridades descreveram como jogos de “gato e rato” para contrabandear petróleo e sabotar oleodutos e cabos de comunicação submarinos. E a questão da Groenlândia, com Alander ressaltando que o caminho mais curto para que Rússia e China lancem mísseis contra os EUA passa pelo Polo Norte. Trump já afirmou que deseja instalar interceptadores de mísseis na ilha, embora especialistas tenham opiniões distintas sobre se isso acrescentaria algo significativo aos atuais planos de defesa antimísseis dos EUA.

A Otan já ampliou as patrulhas marítimas no Mar da Noruega e no GIUK Gap, onde, segundo um oficial militar da aliança, submarinos e embarcações russas representam o maior risco para a Europa e a América do Norte. Uma força aérea nórdica — com pilotos da Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca — atua de forma conjunta semanalmente. Esses países provavelmente liderarão a nova iniciativa Arctic Sentry, com base em sua vasta experiência na região.

Nesta quarta-feira, é esperado que o secretário de Defesa do Reino Unido, John Healey, anuncie que o número de tropas que o país enviará à região ártica da Noruega dobrará para 2 mil nos próximos três anos. O Reino Unido também contribui para uma força terrestre de pelo menos 4 mil militares liderada pela Suécia e baseada no norte da Finlândia, que inclui França, Islândia e Itália. Essa força estará plenamente operacional nos próximos meses. A Otan mobilizará cerca de 25 mil militares e pessoal de apoio para exercícios previstos para começar em março.

“As demandas por defesa estão aumentando, e a Rússia representa a maior ameaça à segurança do Ártico e do Extremo Norte que vimos desde a Guerra Fria”, disse Healey em nota, prometendo que o Reino Unido desempenhará um “papel vital” no Arctic Sentry.

Armas nucleares

Ainda nesta quarta-feira, Lavrov, o ministro das Relações Exteriores russo, abordou a situação do tratado nuclear Novo START, que expirou em 5 de fevereiro. O acordo, assinado originalmente em 2010, limitava cada país a 1.550 ogivas estratégicas implantadas e previa inspeções mútuas, suspensas desde 2023. Segundo o chanceler, essas restrições “permanecerão em vigor, mas apenas se os EUA não ultrapassarem os limites mencionados”.

Lavrov disse ainda que Moscou agirá de maneira “responsável”, com base em “uma análise da política militar americana”. Desde a expiração do tratado, não há mais nenhum instrumento bilateral em vigor que limite formalmente o desdobramento de armas nucleares pelas duas potências, que detêm os maiores arsenais atômicos do mundo.

O Kremlin informou na semana passada que Moscou e Washington concordaram em manter uma abordagem “responsável” e continuar negociando. Trump, por sua vez, não respondeu à oferta de prorrogação apresentada pela Rússia e defendeu um “novo tratado melhorado e modernizado”, afirmando que o Novo START foi “mal negociado” pela administração de Barack Obama. Os Estados Unidos também manifestaram interesse em incluir a China em eventuais negociações sobre limitação de armas nucleares, algo que Pequim descartou sob o argumento de que seu arsenal é significativamente menor.

(Com AFP e New York Times)