Rússia rejeita acusação sobre morte de opositor por envenenamento e chama denúncia europeia de 'infundada'
O Kremlin qualificou como "infundada" a acusação apresentada por cinco países europeus de que o líder opositor Alexei Navalny, morto em uma prisão na Sibéria em 2024, foi assassinado pelo Estado russo, com uso de uma toxina rara, presente em uma rã nativa da América do Sul. A morte do opositor voltou a receber atenção no fim de semana, após a apresentação das conclusões de uma investigação com base em amostras coletadas no corpo de Navalny.
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— Naturalmente, não aceitamos tais acusações. Não estamos de acordo com elas. As consideramos tendenciosas e infundadas — afirmou o principal porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, nesta segunda-feira, durante uma coletiva de imprensa.
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Alemanha, França, Holanda, Reino Unido e Suécia emitiram um comunicado conjunto no sábado, em meio à Conferência de Segurança de Munique, acusando a Rússia de ter assassinado Navalny, que estava sob custódia do sistema prisional russo. Os países afirmaram que uma "análise de amostras" detectou a presença da toxina epibatidina, extraída da pele de rãs-flecha. A conclusão dos europeus foi de que "apenas o Estado russo tinha os meios, o motivo e a oportunidade de utilizar essa toxina letal para atacar Navalny durante seu encarceramento".
A morte de Navalny completou dois anos nesta segunda-feira. Considerado o maior adversário do presidente Vladimir Putin em determinado momento, o ativista sofreu uma dura perseguição por parte de Moscou nos últimos anos. Antes de ser preso e morrer na Sibéria, o opositor chegou a ser envenenado com Novichok, um agente nervoso desenvolvido na antiga União Soviética — o caso foi confirmado durante o tratamento médico que ele recebeu na Alemanha.
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Em um memorial em Moscou para marcar a data de morte do ativista, a mãe de Navalny, Lyudmila Navalnaya, afirmou que se sentiu "vingada" com as revelações apresentadas pelos países europeus e pediu justiça e responsabilização pelo assassinato do filho.
— Isso confirma o que sabíamos desde o início. Sabíamos que nosso filho não morreu simplesmente na prisão, ele foi assassinado — disse Lyudmila a repórteres do lado de fora do cemitério em que o ativista está enterrado em Moscou. — Acho que vai levar algum tempo, mas vamos descobrir quem fez isso. É claro que queremos que isso aconteça em nosso país e que a justiça prevaleça.
Dezenas de pessoas visitaram seu túmulo na manhã de segunda, incluindo diplomatas estrangeiros. Alguns dos presentes usavam máscaras ou lenços cobrindo o rosto.
Mulher deposita flores no túmulo de Alexei Navalny, morto há dois anos em prisão na Sibéria
Hector Retamal/AFP
Arma química
A toxina epibatidina, presente na pele de rãs-flecha, é usada há séculos por povos amazônicos para auxiliar a caça de alguns animais. Etnias como os povos emberá, da Colômbia, extraiam o veneno para embeber dardos, que posteriormente eram disparados a partir de zarabatanas. O veneno é estudado por pesquisadores ocidentais desde os anos 1970, e foi descoberto que o coquetel de substâncias presentes em sua composição tem um efeito similar ao de opióides. Atualmente ela é sintetizada em laboratório.
Algumas pesquisas apontam que apenas um indivíduo adulto de rã-flecha, cujos indivíduos costumam ter entre 2,5 cm e 5 cm, pode ter veneno suficiente para matar dez humanos adultos.
Ainda no sábado, quando acusaram o Estado russo pela morte de Navalny, os países europeus apresentaram também uma denúncia contra a Rússia na Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), afirmando que a descoberta justifica a preocupação com o fato de "a Rússia não ter destruído todas as suas armas químicas". (Com AFP)
