Rumos 2026: Guerra no Oriente Médio não muda cenário positivo ao país

 

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O conflito no Oriente Médio deverá aumentar a cautela dos investidores e do Banco Central (BC), mas não tende a alterar de forma relevante o ambiente internacional benigno para economias emergentes — condição que tem permitido ao Brasil atravessar um ano eleitoral decisivo para o ajuste fiscal do país. Esta foi a avaliação expressa por autoridades, economistas, banqueiros e especialistas que participaram ontem do evento “Rumos 2026”, promovido pelo Valor em São Paulo.

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— Se o barril de petróleo ficar oscilando entre US$ 75 e US$ 85, não parece ser um cenário catastrófico ou muito complicado para o Brasil — afirmou o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron.

O ano de 2026 é visto por economistas como um período de transição para a economia brasileira. Apenas no segundo semestre, com a eleição do novo presidente da República, será conhecido o apetite do futuro governo para acelerar o ajuste fiscal e adotar uma nova agenda de reformas que amplie a produtividade e destrave a capacidade de crescimento da próxima década.

— O principal desafio para 2027 é ter uma agenda muito forte para reduzir a dinâmica das despesas obrigatórias. Seja qual for o governo eleito, é preciso começar a discutir logo após as eleições — disse ele.

Sobre supersalários de parte do funcionalismo público, Ceron avalia que o efeito fiscal de se mexer nessas remunerações não é tão expressivo, mas, como o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, em vídeo de abertura do evento, ele mencionou que há uma “questão moralizante” envolvida no tema. E frisou que rever a questão poderia permitir investimentos em outras áreas dos Poderes.

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O forte ingresso de capitais estrangeiros tem contribuído, neste início de ano, para tornar mais suave uma travessia eleitoral que, em ciclos anteriores, foi turbulenta. O dólar caiu 6,6% até a semana passada, e o Ibovespa chegou a ultrapassar os 190 mil pontos. O BC anunciou que vai iniciar em duas semanas um ciclo de corte da Selic, hoje em 15% ao ano.

Esse ambiente tem garantido algum fôlego até que se resolva o desequilíbrio das contas fiscais, estimado em até 4,5 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) — cerca de R$ 576 bilhões —, segundo cálculo apresentado pela diretora de Macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, Solange Srour, em painel sobre o cenário macroeconômico.

Para ela, não seria viável realizar um ajuste dessa magnitude de uma só vez. A experiência internacional, porém, mostra que o gradualismo tende a ser ineficaz, porque leva à fadiga, enquanto correções mais rápidas produzem ganhos de credibilidade.

— O mercado não vai ficar leniente para sempre — afirmou. — Em algum momento haverá uma chacoalhada.

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Ceron pontuou que, do ponto de vista fiscal, a alta da cotação do petróleo aumenta a arrecadação de impostos, royalties e dividendos da Petrobras. Também torna mais atrativo o leilão que antecipa o recebimento de direitos petrolíferos, previsto para arrecadar R$ 30 bilhões neste ano — um dos principais desafios para o cumprimento da meta de superávit primário.

Mas nada disso, reconheceu ele, resolve o problema fiscal estrutural, que envolve a revisão de gastos obrigatórios, incluindo despesas da Previdência e uma unificação de programas sociais.

Pressões inflacionárias

Se a alta do petróleo for limitada, disse Ceron, as pressões inflacionárias tendem a ser menores, já que a recente valorização do real pode atenuar os efeitos sobre os combustíveis. Esse cenário permitiria ao BC seguir com os planos de iniciar o ciclo de corte de juros.

Para ele, os riscos mais sérios ocorreriam caso a cotação do petróleo ultrapassasse de forma sustentada os US$ 100 por barril, o que poderia gerar pressões inflacionárias mais intensas.

Fernando Honorato, diretor de pesquisa econômica do Bradesco, diz que via alguma chance de o Banco Central surpreender com um ciclo mais profundo de cortes de juros neste ano, embora esse não fosse seu cenário principal. Mas essa hipótese se tornou menos provável com o novo conflito no Oriente Médio.

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O CEO do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, lembrou que o fluxo recente de investimentos estrangeiros buscou oportunidades na Bolsa e juros elevados, mais ligados ao curto prazo.

— O trabalho mais importante agora é o de médio e longo prazos — disse. — O tema fiscal é o tema da hora. Qualquer que seja o presidente, precisa atacar. As reformas são urgentes e precisamos avançar mais rápido.

No painel, foi citada uma extensa agenda de reformas urgentes, entre elas, a implementação da Reforma Tributária, a desburocratização aduaneira e a criação de linhas de crédito mais acessíveis.

— O grande desafio é executar o que a gente já conhece — afirmou o CEO da Gerdau, Gustavo Werneck.

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O CEO do Assaí Atacadista, Belmiro Gomes, disse que o debate sobre a jornada 6x1 é legítimo, por ser uma demanda da sociedade, mas talvez agora não seja o melhor momento:

— Obviamente há preocupação, na medida em que temos taxa de desemprego baixa e produtividade baixa. É momento de discutirmos a CLT.

Na abertura do evento, a diretora de redação do Valor, Maria Fernanda Delmas, lembrou que também haverá eleições de meio de mandato nos EUA — um processo crucial para determinar a força do presidente Donald Trump em seguir uma agenda que vem alterando o panorama econômico e geopolítico mundial:

— Não é mais possível adiar o debate sobre questões como a situação fiscal do país, a saúde das instituições, a segurança pública para cidadãos e empresas, a transição climática e os impactos do envelhecimento da população.

O evento teve patrocínio de BTG Pactual, Febraban, FenaSaúde, Gerdau e Philip Morris Brasil; e apoio de Assaí e Embraer.

(Alex Ribeiro, do Valor Econômico)