Rubio acena a aliados com defesa de 'Europa forte', mas exige apoio à visão de Trump em conferência em Munique
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou neste sábado que Washington deseja ver "uma Europa mais forte" em um esperado discurso durante a Conferência de Segurança de Munique, maior evento anual sobre questões estratégicas em território europeu. Em meio aos atritos recentes com os aliados por uma série de questões — que vai da unidade da Otan à questão da Groenlândia — o chefe da diplomacia do governo Donald Trump enfatizou a "herança europeia" dos EUA, em um discurso que recebeu boa avaliação dos aliados — embora tenha repetido as críticas da Casa Branca sobre a política de imigração "em massa" do continente e abordado o risco de "apagamento da civilização", tema que é bandeira da extrema direita europeia.
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— Não buscamos a separação, mas sim revigorar uma antiga amizade e renovar a maior civilização da história da humanidade. Queremos uma aliança revitalizada e queremos que a Europa seja forte — disse Rubio na manhã deste sábado no principal painel da conferência.
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A sinalização guardou momentos de ambiguidade. Embora o secretário de Estado tenha dito que as duas guerras mundiais do século XX eram um lembrete de que "o destino da Europa e dos EUA está e sempre estará entrelaçado", e tenha defendido que a conexão entre os aliados transatlânticos excede os campos militar e econômico — mencionando estarem ligados "espiritualmente" e "culturalmente" —, a cooperação ainda pareceu condicionada.
— [Washington agirá] guiado por uma visão de um futuro tão orgulhosa, soberana e vital quanto o passado da nossa civilização — disse o diplomata. — E embora estejamos preparados, se necessário, para fazê-lo sozinhos, preferimos e esperamos fazê-lo em conjunto com vocês, nossos amigos na Europa.
O posicionamento, porém, foi recebido com alívio por lideranças europeias, que aguardavam com apreensão a mensagem a ser transmitida por Washington, um ano após o discurso do vice-presidente JD Vance no mesmo palco. A fala, considerada disruptiva, incluiu críticas amplas à Europa, apontando sinais da decadência do continente, e um polêmico apelo à normalização da extrema direita na construção política do continente.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse ter ficado "muito mais tranquila" após ouvir a mensagem passada pelo republicano, enquanto o presidente da conferência, Wolfgang Ischinger, mencionou um "suspiro de alívio" coletivo da plateia com os apontamentos do secretário de Estado. No começo da semana, Ischinger divulgou um relatório, em que classificava a política externa americana como uma "política de demolição" e um risco às estruturas internacionais.
Mesmo integrantes do Partido Democrata que viajaram até Munique, em um esforço da oposição nos EUA de mostrar aos europeus que as posições mais divisivas de Trump não são uma unanimidade no país, afirmaram que o discurso melhorou "o clima" em solo alemão. O deputado Jim Himes, principal representante da sigla na Comissão de Inteligência da Câmara, disse que a fala de Rubio "facilitou o trabalho" com as partes europeias. A ex-presidente da Câmara Nancy Pelosi disse que a fala foi "muito melhor" que o discurso do ano anterior, embora tenha classificado a fala como "um pouco condescendente" com os europeus.
Críticas extensas
Apesar do aceno à cooperação, Rubio criticou as políticas climáticas — que, afirmou, "empobrecem nosso povo" —, a "loucura" do livre comércio que desindustrializou a Europa e os EUA "em benefício de concorrentes e adversários" e as políticas migratórias, cuja abordagem da atual administração dos EUA é similar àquela defendida pela extrema direita europeia. O secretário de Estado, de ascendência cubana, exaltou sua herança espanhola, mas criticou duramente a imigração.
— A imigração em massa é uma crise que está transformando e desestabilizando sociedades em todo o Ocidente — disse Rubio. — Devemos retomar o controle de nossas fronteiras. Não é xenofobia, não é ódio, é um exercício fundamental de soberania.
As críticas endereçadas pelo chefe do Departamento de Estado dos EUA também chegaram à ONU, que segundo ele estaria em declínio, junto das instituições criadas no pós-Segunda Guerra. Rubio criticou as Nações Unidas por não ter detido os conflitos em Gaza e na Ucrânia, o programa nuclear iraniano ou a ameaça representada pelo tráfico internacional de drogas.
— Nós, nos EUA, não temos interesse em sermos zeladores educados e ordeiros do declínio controlado do Ocidente — disse ele.
Embora o discurso tenha provocado alívio, líderes europeus também afirmaram que ele pouco mudou a percepção atual de que há necessidade da reequilibrar as relações com os EUA. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse que seria um erro "entrar na banheira da complacência", e defendeu que a Europa precisa se "sustentar por conta própria". Em fala pouco depois da de Rubio, von der Leyen acompanhou a linha do premier britânico.
— O modo de vida europeu, nossas democracias, os fundamentos democráticos e a confiança de nossos cidadãos, está sendo desafiado de novas maneiras, em tudo, desde territórios a tarifas e regulamentações tecnológicas — disse a líder da UE, em uma referência pouco disfarçada às tensões sobre as regulamentações digitais da Europa e às ameaças de Trump de anexar a Groenlândia. — A Europa precisa se tornar mais independente — não há outra escolha. (Com NYT e AFP)
