Ruas 'blinda' comissões que tratam de orçamento na Alerj com ex-secretários de Castro em meio a articulação pré-eleitoral

 

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As mudanças promovidas pelo presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Douglas Ruas (PL), em comissões que tratam do orçamento do estado acirraram os bastidores políticos da Alerj e ampliaram as críticas de deputados da oposição e até de setores da direita. A avaliação nos corredores do Parlamento é que o movimento de Ruas faz parte de uma estratégia para transformar a Casa em vitrine política às vésperas da eleição de 2026, período em que o parlamentar tenta ganhar protagonismo para viabilizar sua pré-candidatura ao governo do estado.

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A principal mudança ocorreu com a instalação, nesta quinta-feira, da Comissão Especial de Fiscalização de Gastos Públicos, criada por Ruas um dia antes. O colegiado será presidido pelo deputado Jair Bittencourt (PL), ex-secretário de Governo da gestão Cláudio Castro, enquanto a relatoria ficará com o deputado Alan Lopes (PL) relatoria ficará com o deputado Alan Lopes, que não possui histórico de atuação na área orçamentária. Na Alerj, o parlamentar integrou comissões como as de Saneamento Ambiental e Conselho de Ética e Decoro Parlamentar.

Nos bastidores da Casa parlamentares afirmam que a escolha de aliados ligados ao antigo núcleo do governo Castro reforça a percepção de que a comissão poderá funcionar como plataforma política num momento em que o orçamento estadual e o ajuste fiscal ganharam centralidade no debate fluminense.

Jair Bittencourt deixou a Secretaria de Governo no fim de março, após permanecer apenas uma semana no cargo. Antes, havia comandado a Secretaria estadual de Desenvolvimento Regional do Interior, Pesca e Agricultura Familiar.

Mudança na comissão de orçamento e finanças da Alerj

Enquanto a nova comissão especial foi criada com discurso voltado ao controle de despesas e equilíbrio fiscal, a Alerj já possui a tradicional Comissão de Orçamento, Finanças, Fiscalização Financeira e Controle, responsável por analisar as contas do estado e projetos como a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O colegiado é presidido pelo deputado Gustavo Tutuca (PP), outro ex-integrante do primeiro escalão de Castro.

Gustavo Tutuca: Secretário de Turismo

Divulgação

Tutuca ocupou a Secretaria estadual de Turismo em dois períodos — entre novembro de 2020 e março de 2022 e novamente de janeiro de 2023 até março deste ano — além de já ter comandado a Secretaria de Ciência e Tecnologia em 2015.

Deputados da Casa afirmam que a montagem das duas comissões acabou concentrando o debate fiscal nas mãos de parlamentares que integraram recentemente o governo estadual. Um dos movimentos que mais geraram reação interna foi a saída do deputado André Corrêa (PSD) da Comissão de Orçamento para a entrada de Tutuca, mudança atribuída diretamente a Ruas por parlamentares ouvidos reservadamente.

O ex-progressista, no entanto, não foi o único a perder o posto na Casa. O deputado Vinícius Cozzolino, que deixou o União Brasil e também foi para o PSD de Paes, perdeu o cargo de titular na Comissão de Orçamento para Bruno Dauaire (União).

Desconforto entre deputados

A criação da nova comissão também provocou desconforto no PSD, do ex-prefeito Eduardo Paes. Segundo relatos de bastidores, integrantes da bancada resistiram inicialmente em indicar um nome para o colegiado justamente pelo receio de que a comissão fosse utilizada como instrumento político. Ao final, o partido decidiu indicar a deputada Célia Jordão, que já integrou o PL antes de migrar para o PSD. A indicação da parlamentar aconteceu como um saída amigável do partido de participar dos debates.

'Ruas é HD vivo do govero'

Nesta quinta-feira, durante o expediente final da sessão plenária, o tema provocou um embate entre parlamentares. O deputado Vitor Júnior afirmou que Ruas seria o “HD vivo” da gestão estadual dos últimos anos, em referência à passagem do presidente da Alerj pela Secretaria estadual das Cidades no governo Castro.

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Márcia Foletto

— Ele (Ruas) é o HD vivo de tudo que aconteceu no estado do Rio de Janeiro nesses últimos três anos. Falar que quer requerimento para apurar o orçamento da Casa? Ele assumiu há três meses. O que ele fez no orçamento da Casa? Nada. Ele fez no orçamento do estado como secretário das Cidades. Ele pode colaborar para a gente entender o que foi o orçamento nos últimos três anos — declarou Vitor Júnior (PDT).

O parlamentar discursava em defesa da abertura de uma CPI para investigar contratos de radares eletrônicos do Detran. Durante a fala, questionou a diferença de valores entre licitações realizadas em 2022 e 2025 para contratação de equipamentos.

A declaração provocou reação imediata do deputado Filippe Poubel, líder do PL na Casa e aliado de Ruas. Poubel acusou Vitor Júnior de incoerência ao se colocar como opositor do antigo governo.

— Vossa Excelência também era deputado do coração do governador Cláudio Castro. Tinha indicação no Detran de Niterói, cargos no Segurança Presente, entre outros — rebateu.

Deputados avaliam que a ofensiva de Ruas ocorre após o fracasso da tentativa de assumir interinamente o governo estadual. Com a saída de Cláudio Castro no fim de março, o Executivo passou a ser comandado pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto, terceiro na linha sucessória. Ruas chegou a recorrer ao Supremo Tribunal Federal para assumir o Palácio Guanabara, mas o pedido foi negado.

Busca por popularidade

Aliados do presidente da Alerj defendiam que a ocupação temporária do governo poderia ampliar sua visibilidade e fortalecer uma eventual candidatura ao Palácio Guanabara. Pesquisas internas do PL indicariam, segundo deputados, que parte significativa do eleitorado fluminense ainda desconhece Ruas. O que acendeu o sinal de alerta sobre ações que pudessem alavancar seu nome no estado.

Embora o cenário sucessório para o Palácio Guanabara ainda esteja em estágio embrionário, a primeira pesquisa Genial/Quaest, divulgada pelo GLOBO em abril de 2026, já desenha o primeiro esboço da disputa. O atual presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), desponta como o principal antagonista de Eduardo Paes (PSD), registrando entre 9% e 11% das intenções de voto.

Apesar de consolidar o posto de "nome da direita" com o aval direto do senador Flávio Bolsonaro, Ruas tem pela frente o desafio de furar a bolha da Região Metropolitana. Atualmente, o parlamentar é um ilustre desconhecido para 71% do eleitorado fluminense.

Da esquera para a direita: o presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), e o governador interino do Rio de Janeiro, Ricardo Couto

Fotos de Marcelo Theobald e Alexandre Cassiano/O Globo

No meio político, também há leitura de que as recentes mudanças promovidas por Ricardo Couto no primeiro escalão do governo atendem não apenas a critérios administrativos, mas à necessidade de reorganizar a máquina estadual antes do prazo eleitoral de 4 de julho. A partir dessa data, a legislação restringe nomeações, exonerações e movimentações de pessoal para evitar uso político da estrutura pública durante a campanha.

Deputados da direita passaram a interpretar as trocas em secretarias estratégicas como uma tentativa de “enxugar” a máquina e reduzir eventual influência de Ruas caso ele venha a assumir o governo nos próximos meses. Ao mesmo tempo, parlamentares observam que o calendário eleitoral começa a pressionar a tramitação de projetos econômicos na Alerj, especialmente a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias, que precisa ser aprovada antes do recesso parlamentar.

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