Rua do Bixiga vira point da capital paulista, mas provoca reclamações

 

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A artista visual Rafaela Klinger, de 31 anos, se preparava para curtir a noite na cidade de São Paulo. Era sexta-feira, 30 de janeiro, e ela e as amigas já tinham escolhido uma balada quando viram os stories do cantor de piseiro Rom Santana: show gratuito, na Rua 13 de Maio, no Bixiga, de um artista que vem causando furdunços pela cidade. Mudaram a rota imediatamente, mas ao chegarem ao endereço, se depararam com a rua — que tem atraído multidões — vazia.

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A região da 13 de Maio, na área central, é parte do imaginário da boemia paulistana há décadas. Das onipresentes rodas de samba e da escola Vai-Vai, na vizinhança desde os anos 1970, ao rock, que ganhou força nos anos 1980, e a gêneros como o piseiro, forró e o pagode baiano, que agitam os botecos, a rua permanece como ponto de encontro de diversas culturas. Desde o fim da pandemia, o local foi ficando cada vez mais cheio, atraindo multidões que enchem as calçadas e a rua, lotando bares e mercadinhos que viram a noite.

A guinada não agradou a todos. No dia em que a rua ficou vazia, a prefeitura de São Paulo realizava uma fiscalização na região. Não faltam reclamações sobre o barulho, tanto por parte de moradores quanto de empresários, a exemplo de proprietários de cantinas italianas, tradicionais na área. Outra queixa é o lixo acumulado.

Bar na rua 13 de Maio em prédio ocupado por sem-teto foi fechado

Edilson Dantas

O poder público fiscalizou 32 estabelecimentos e dois foram fechados, entre eles o Sirigoela, o bar de samba mais “fervido” da área. O outro foi o Bar do Jackson, na Rua Conselheiro Carrão.

Furtos em alta

Além das reclamações de ordem urbana, a área tem registrado alta de furtos e roubos. Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que os furtos na 13 de Maio e adjacências tiveram alta de 92% de 2024 para 2025, saltando de 465 para 897 casos. Os roubos subiram 21% no mesmo período: 162 para 197.

A Secretaria de Segurança Pública informou que investiu no policiamento ostensivo da região, com aplicação de R$ 11 milhões para compra de 80 motocicletas. A Polícia Militar, diz a pasta, mantém policiamento preventivo permanente na área.

Com o fechamento do Sirigoela, as atividades do bar foram transferidas para o Candeia, outro reduto de samba, dos mesmos donos e também na 13 de Maio, só que na parte mais alta, onde ficam cantinas italianas, pizzarias e outros estabelecimentos. Ambos são alvos de reclamações.

— Eles continuam passando dos limites de uma boa convivência e vizinhança. Zero noção, falta de responsabilidade e respeito. Quem está errado? Quem chega desrespeitando um movimento que já existe. Eu não sou contra, mas acho que precisa de uma adaptação — diz a gestora cultural Thais Taverna, cuja família é dona há mais de 60 anos da Cantina da Conchetta, que funciona ao lado do Candeia.

Tom Sampaio, um dos sócios do Sirigoela, afirma que antes da interdição do local, o volume do som das bandas foi reduzido, assim como o horário de funcionamento. Ele afirma também que recolhia o lixo deixado pelos frequentadores.

Segundo a prefeitura, o bar foi fechado porque não tinha licença para funcionar. Sampaio afirma que o local tinha uma autorização provisória, e que eles aguardavam a emissão da licença definitiva. Segundo ele, o documento já havia sido aceito em outras inspeções.

Com a interdição do bar, o grande chamariz da região, outras casas ficaram vazias. O cantor Rom Santana, que havia atraído Rafaela e suas amigas para a 13 de Maio, cancelou a apresentação que estava marcada para aquele dia.

— Eu entendo que pelo fato de acumular muita gente vai ficar mais difícil fazer (show) na rua. Quando a gente começou, era mais vazio — diz Rom, que foi revelado na rua do Bixiga.

Em defesa do Candeia, Alexandre Alves, outro sócio do grupo, diz que, após as 23h, a banda sai da calçada e vai para dentro do bar:

— Estamos deixando o estabelecimento fechado, com acesso controlado, sempre preocupados com o volume. Estamos cumprindo as normas.

Presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) da Bela Vista, Silvana Cunha diz que a principal queixa dos moradores da área é o barulho. O Conseg encaminhou à prefeitura em novembro passado uma lista com 14 estabelecimentos que estariam descumprindo a legislação. Dados do SP156, plataforma de solicitações, mostram que as reclamações aumentam ano a ano na área. No distrito da Bela Vista foram 622 por barulho de janeiro a setembro de 2025, alta de 22% em relação ao mesmo período de 2024 e de 39% em relação a 2023.

— O Bixiga sempre foi um território de cultura, de convivência e de vida noturna. Mas o que a gente tem visto nos últimos tempos é um aumento grande e desordenado do público — afirma Silvana.

Coordenadora do coletivo de empresários Viva a 13, a empresária Cristina Oka se queixa da sujeira:

— Fica uma quantidade absurda de lixo na rua. São vários problemas subjacentes que envolvem não só a questão do barulho. Cultura não é sinônimo de ilegalidade.

Em nota, a prefeitura informa que a subprefeitura da Sé realiza serviços de zeladoria diariamente na região. Ressalta que na fiscalização do fim de janeiro, após “alto número de reclamações”, verificou níveis de ruído, regularidade de alvarás, alto volume de resíduos e comércio ambulante. Foram aplicadas três multas e seis apreensões relacionadas ao comércio irregular.