A “rave de gravações” montada pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para produzir conteúdos com candidatos ao Senado durou dois dias, entre terça-feira e quarta-feira.
A operação, que teve roteiros revisados pelo novo marqueteiro Duda Lima, uma fila de postulantes diante das câmeras e até reclamações de quem acabou deixado para depois, ganhou nesta quarta-feira a passagem do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) pela sede jurídica da candidatura, em Brasília. O volume de candidatos tornou impossível concluir toda a produção no primeiro dia e provocou incômodo entre alguns dos que tiveram de permanecer em Brasília. Candidato ao Senado pelo Rio Grande do Norte, Coronel Hélio chegou à capital ainda na terça-feira e afirmou ter sido o primeiro a aparecer para as gravações, mas acabou deixado para a segunda rodada. — Perdi minha passagem, perdi o debate. Cheguei aqui ontem, fui o primeiro — reclamou. Flávio anunciou apoio a 47 postulantes ao Senado pelo país e concentrou aliados de diferentes estados em Brasília para produzir individualmente vídeos que serão distribuídos pelas campanhas durante a corrida eleitoral. Na manhã de terça-feira, o próprio presidenciável brincou com a dimensão da operação e disse haver uma “fila gigante” à espera das câmeras. Nos bastidores, a sucessão de candidatos, roteiros e vídeos ganhou entre integrantes da campanha o apelido de “rave de gravações”. Flávio passou horas diante das câmeras e manteve a mesma roupa em todos os conteúdos, permitindo que as peças sejam divulgadas em diferentes momentos da campanha sem evidenciar que foram produzidas em sequência. A prioridade dada à disputa pelo Senado estava estampada no próprio local. “Senado forte, Brasil forte” foi o slogan espalhado pelo QG das gravações, numa tradução da estratégia de Flávio de associar sua candidatura presidencial à tentativa de eleger uma bancada numerosa de aliados na Casa, que terá 54 de suas 81 cadeiras em disputa neste ano. Duda mexe nos roteiros A maratona também funcionou como uma das primeiras demonstrações práticas do papel de Duda Lima desde que assumiu a comunicação de Flávio. Os postulantes chegaram a Brasília com roteiros preparados por suas próprias equipes, mas os textos passaram por uma revisão da campanha presidencial antes de chegarem às câmeras. Segundo relatos feitos ao GLOBO, Duda fez alterações nos materiais e pediu que fossem incorporados assuntos considerados prioritários para Flávio, entre eles segurança pública, poder de compra e corrupção. A ideia não era produzir dezenas de vídeos idênticos, mas estabelecer uma diretriz nacional capaz de atravessar os conteúdos preparados para diferentes estados. Os assuntos locais foram preservados, enquanto determinados eixos da candidatura presidencial ganharam reforço. A orientação faz parte da tentativa da nova equipe de comunicação de reduzir a dispersão de mensagens e estabelecer temas que possam ser repetidos por Flávio e por seus aliados nos estados. O próprio presidenciável explicou, antes de começar a gravar, que haveria uma linha comum por trás dos conteúdos. — Aqui, obviamente, cada estado tem a sua realidade, mas tem uma linha geral. Cada um vai gravar, eu vou gravar com cada um, com uma orientação da nossa campanha alinhada à deles também, à realidade local — disse. Entre os nomes que passaram pela operação estavam Carlos Jordy e Carlos Portinho, do Rio; Evair de Melo, do Espírito Santo; Reinaldo Azambuja, de Mato Grosso do Sul; Guilherme Derrite, de São Paulo; Márcio Bittar, do Acre; Antonio Nicoletti, de Roraima; Éder Mauro e coronel Hélio, do Pará; Marcelo Queiroga, da Paraíba; Domingos Sávio, de Minas Gerais; e Deltan Dallagnol, do Paraná. A articulação ultrapassa as fronteiras do PL. Derrite, por exemplo, concorre pelo PP, enquanto Dallagnol está no Novo.
Lira passa pelo QG A movimentação desta quarta-feira também teve a presença de Arthur Lira (PP-AL). O ex-presidente da Câmara apareceu na sede da campanha, mas não chegou a conversar nem a gravar com Flávio. Segundo interlocutores, Lira teria ido ao local porque deu carona a um vereador de Maceió, candidato a deputado, que tinha gravações previstas para a campanha de Flávio. Aproveitou a passagem para tentar resolver assuntos relacionados a Alagoas e procurar Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice, mas ele não estava no local. Lira permaneceu por algum tempo no QG e conversou com integrantes da campanha e parlamentares. Flávio estava no andar de cima, dedicado à sequência de gravações, e os dois não chegaram a se encontrar. O deputado deixou depois a sede para cumprir uma audiência.
O Globo