Rosana Paulino, Adriana Varejão e a curadora Diane Lima falam do projeto do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza
A curadora do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, Diane Lima, e as duas artistas selecionadas selecionadas para ocupar o espaço na 61ª edição da mostra italiana, Rosana Paulino e Adriana Varejão, apresentaram o projeto curatorial "Comigo ninguém pode", elaborado em conjunto pelo trio.
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Pegando emprestado o título de um desenho da série "Senhora das plantas", de Rosana, o projeto parte das camadas que envolvem a planta popularmente conhecida como comigo-ninguém-pode, que, por sua toxicidade, passou a ser vista como um símbolo de força e resitência, além de sua representação para as religiões de matriz africana, para proteção espiritual e afastamento de inveja e mau-olhado.
Tradicionalmente, o Pavilhão do Brasil em Veneza é assinado pelo curador da edição anterior da Bienal de São Paulo: na 36ª mostra paulistana, Diane integrou a equipe curatorial formada com a portuguesa Grada Kilomba, o espanhol Manuel Borja-Villel e o brasileiro Hélio Menezes. Com expografia desenvolvida por Daniela Thomas, a produção de mais de três décadas das duas artistas será vista em diálogo pelo público, a partir de temas trabalhados ao longo de suas carreiras, como a questão colonial, fissuras históricas, reparação e a relação com a natureza.
— A proposta do Pavilhão parte de uma energia, de um sentimento. O título propõe uma ação, que tem a ver com um processo de metamorfose, que está presente na obra da Rosana, e que ecoa ao longo da construção de obras que a Adriana vai apresentar — explica Diane. — São dois mundo que vão coabitar no espaço, com uma atenção redobrada a história colonial brasileira, com elemenos presentes na prática das duas. E, por outro lado, o espaço traz metamorfose com a espirtitualidade e natureza, presente como forma de espiritualidade e resistência.
Rosana destaca a criação coletiva como um dos principais pontos do projeto:
— Todo o processo foi feito muito a três. Foram muitas conversas que guiaram a construção de trabalhos novos ou de remontagens que estamos apresentando. Além do diálogo entre nós tem a conversa entre as obras e coma estrutura do pavilhão, que trouxe desafios técnicos.
Adriana Varejão ressalta como os temas históricos e da memória estarão presentes no pavilhão, entrelaçando as longas pesquisas das duas artistas.
— Quando montei a exposição a minha exposição em Lisboa (“Entre os vossos dentes”, em conjunto com obras de Paula Rego), uma das salas tinham o título "Faca amolada", e os portugueses diziam que ninguém lá sabe o que é isso, isso é português arcaico. Eu perguntei a minha filha de 10 anos o que é, e ela respondeu "uma faca afida". As memórias se preservam, mesmo que sua origem se perca — observa Adriana. — "Comigo ninguém pode" traz uma ideia forte de uma memória enraizada, uma metáfora muito bonita do trabalho da Rosana. Isso me afetou muito, porque sempre lidei com um barroco, um estilo que não é ligado à natureza, ele é artificial, tudo é representação. Então usei essa ideia de representação para simular ruínas, mas que se metamorfoseiam em elementos naturais.
