Rosamaria Murtinho interpreta Iris Apfel, ícone fashion até os 102 anos, e fala sobre etarismo: ‘Sinto na vida pessoal e no trabalho’

 

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“A caracterização está muito boa, não é? Estou a cara dela! Olho no espelho e até me assusto”, comenta Rosamaria Murtinho no palco do Teatro Prio, onde estreia amanhã a peça “Uma vida em cores”, inspirada na trajetória da estilista e ícone da moda americana Iris Apfel (1921-2024), lembrada por seu visual exuberante e pelos posicionamentos ousados. Na trama escrita e dirigida por Cacau Hygino — também autor do monólogo “Através da Iris”, protagonizado por Nathalia Timberg e dirigido por Maria Maya entre 2018 e 2020 —, a designer recebe em sua casa Emily, uma jovem jornalista, que depende da entrevista para conseguir um estágio na revista Vogue.

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Se na montagem anterior, construída em forma de documentário cênico, a carga dramática era o foco, em “Uma vida em cores” Cacau decidiu apresentar a personalidade irreverente da homenageada e apostar em uma comédia dramática.

— É uma peça leve, divertida, para as pessoas conhecerem essa mulher que, aos 100 anos, ainda era capa de revista — diz o autor, que se inspirou em histórias contadas pela própria estilista para escrever a história.

Depois de se encantar por Iris via internet em 2017, Cacau passou meses enviando cartas e telefonando para a designer até conseguir contato com ela, que então o recebeu várias vezes em sua casa.

O autor e diretor Cacau Hygino e a estilista Iris Apfel

Acervo pessoal

Interrompido pela pandemia, o monólogo estrelado por Nathalia estava há anos parado, até que Rosamaria procurou Cacau, com quem já tinha trabalhado nos palcos, em busca de um projeto. Dadas as bençãos da intérprete anterior, a ideia inicial era remontar o solo, mas Rosamaria impôs uma condição: queria contracenar com a neta, Sofia Mendonça, de 21 anos.

— A Iris tinha me contado que uma vez foi uma estagiária na casa dela, que estava tentando ser contratada pela Vogue. Lembrei disso e pensei: “essa é a oportunidade perfeita para a Sofia” — conta Cacau, que aproveitou o novo texto para inserir curiosidades e anedotas sobre a designer que ficaram de fora da montagem anterior.

Autenticidade

Para Rosamaria, interpretar Iris tem sido uma experiência intensa.

— Quando estava estudando para o papel, queria fazer a minha visão sobre a Iris, mas ela se impôs tanto, mas tanto, que eu passei a querer ser a Iris. Fisicamente, fiz de tudo para ficar parecida e isso me deu outra visão dela — conta a atriz, elogiando o trabalho do visagista Alex Palmeira, que trabalhou com o figurinista Adilson Salú.

A transformação externa também refletiu na parte interna. Aos 93 anos, Rosamaria conta que se surpreendeu com a forma com que a estilista encarava a velhice:

— Ela morreu com 102 anos, com uma energia absurda e sendo ela sendo mesma. É uma inspiração.

Na trama, durante a entrevista com a repórter-fã Emily, uma Iris bem-humorada e generosa compartilha histórias inusitadas de sua vida e carreira, como a vez em que estampou uma capa em cima de um elefante na Índia — sem sair de Nova York —, e dá conselhos à jovem. A relação de carinho e admiração entre as mulheres de gerações distintas cresce pouco a pouco no palco — e vai muito além dele.

Sofia Mendonça e Rosamaria Murtinho em cena da peça "Uma vida em cores", sobre Iris Apfel

Guito Moreto/Agência O Globo

— Está sendo muito gostoso. Quando abraço a Emily, estou abraçando minha neta — celebra Rosamaria.

Assim como a jornalista da peça aprende com a estilista veterana, na vida real, Sofia também tem feito deste encontro com a avó no palco uma sala de aula.

— Cresci vendo minha avó e meu avô [Mauro Mendonça] nas peças, na televisão. Eles sempre foram uma inspiração, então absorvo muito enquanto contraceno com ela. Observo a forma que ela anota o texto, a forma que repete uma frase — conta a jovem.

Apaixonada pelo mundo da moda, Sofia usou personagens como a jornalista Andy, do filme “O diabo veste Prada”, como referência. Ela admite que não conhecia a fundo a história de Iris, mas já internalizou várias de suas célebres frases, presentes na peça.

— Para mim, a mais icônica é: “Mais é mais, e menos é chato” — diz.

Etarismo não

Autodenominada uma “estrela geriátrica”, Iris Apfel é lembrada, para além da moda, como um símbolo de vitalidade na terceira idade. Desafiando as expectativas da sociedade, especialmente para as mulheres, a estilista se manteve ativa e influente no meio profissional até os últimos de seus 102 anos de vida, e nunca deixou de lado sua personalidade para caber em padrões.

Na casa dos 90, Rosamaria segue o mesmo caminho. Após fazer uma participação na novela “Dona de mim”, ela acaba de estrear nos cinemas como protagonista de “É tempo de amoras”, de Anahí Borges, e volta aos palcos com “Uma vida em cores”. Tanto nas telonas como no teatro, a atriz dá vida a mulheres que não deixam a idade impedir a realização de seus sonhos — sejam eles mudar o mundo da moda, como Iris, ou reencontrar um amor da juventude, como a Pasqualina do filme.

Cena do filme "É tempo de amoras", com Rosamaria Murtinho

Divulgação

Para a atriz, interpretar essas personagens é uma forma de contribuir com o debate sobre o etarismo.

— Por mais que as pessoas queiram dizer que não existe, o etarismo é inerente à sociedade. Eu sinto na vida pessoal, no trabalho. Essas obras são importantes para ajudar a refletir sobre as consequências desse preconceito na vida de uma pessoa mais velha — observa.

Nas duas histórias, um encontro entre gerações transforma a realidade das protagonistas idosas e também a das personagens mais novas com quem cruzam pelo caminho. Se por um lado o diálogo entre gerações é a saída para repensar a forma como a sociedade enxerga a velhice, também abre margem para que os mais jovens cresçam com a ajuda de quem é mais experiente.

— A Iris dizia que a gente tem que ajudar quem está começando, e a Rosinha também sempre deu oportunidade para pessoas em começo de carreira, que ainda não tinham tanto currículo — conta o visagista Alex Palmeira, apontando mais uma das semelhanças entre o ícone da moda e a atriz brasileira.

Serviço

Onde: Teatro Prio, Jockey Club.

Quando: sex, às 20h. Sáb, às 19h. Dom, às 18h. Até 5 de abril. Estreia sexta (6).

Quanto: a partir de R$ 60 (com 1kg de alimento).

Classificação: livre.