Roraimense enganado, carioca voluntário: os brasileiros no front em 4 anos de guerra entre Rússia e Ucrânia
De um lado, um roraimense, enganado por uma falsa promessa de emprego na Rússia. Do outro, um carioca, que se alistou voluntariamente no exército ucraniano. Ao completar quatro anos, o conflito do Leste Europeu permanece em um impasse diplomático e territorial sem previsão de fim.
Os brasileiros Marcelo e Cândido são mais dois no front. Pelas estatísticas do Itamaraty, 45 brasileiros desapareceram e 23 morreram desde o início do conflito.
“Oi meus filhos. Aqui é bom dia. O papai tá morrendo de saudade. O papai tá bem.”
O 'bem' de Marcelo Alexandre da Silva Pereira é um alívio frágil. Aos 29 anos, o boa-vistense e pai de quatro filhos trocou o calor de Roraima pelo inverno rigoroso do Leste Europeu. Mas ele não foi em busca de glória militar. Marcelo foi atraído por uma promessa de emprego falsa e acabou empunhando um fuzil sob a bandeira russa.
"Ele me deu notícia, ele falou: 'É, eu participei da guerra já, mas eu tô bem, é, tô só com o pé doendo, machucado'."
O boa-vistense Marcelo Alexandre da Silva Pereira, de 29 anos, foi atraído por uma promessa de emprego falsa e acabou empunhando um fuzil sob a bandeira russa. Na foto, ele aparece com a namorada Gisele Pereira.
Arquivo pessoal
Gisele Pereira, namorada de Marcelo, narra o início de um pesadelo que começou com um convite casual. Um conhecido ofereceu uma vaga de emprego como motorista na Rússia. Passagem paga, moradia inclusa. O bilhete de saída para uma vida melhor.
"O amigo dele falou: você só tem que tirar o passaporte... Quando ele assinou o contrato, ele me mandou a mensagem: 'eu assinei um contrato', só que tava tudo em russo. E ele não entendia nada."
Marcelo embarcou em novembro de 2025 acreditando em um salário de 40 mil reais por um ano de trabalho. No destino, descobriu que o "escritório" era a trincheira. Hoje, ele luta uma guerra que não entende, numa língua que não fala, com o passaporte confiscado pelo exército de Putin.
"Ele só fala por gesto... Teve que pegar em arma. Lá é muita neve e acaba se debilitando, ele não tinha costume com o frio. Ele tá com os pés todo machucado. E para ele tudo é medo de drone... ele quer ver os filhos dele crescer. Eu quase não durmo. Aparecem manchas no meu corpo e somem. Isso é crise de ansiedade."
Enquanto Marcelo tenta, via embaixada em Moscou, um caminho de volta, a angústia de Gisele é medida pelo silêncio. No front, não há sinal de celular.
Do outro lado da linha de tiro, a 500 metros das posições russas, está outro brasileiro. Mas a motivação do carioca Carlos Eduardo Cândido, de 32 anos, é oposta. Ele não foi enganado: se alistou. Comprou a própria passagem e buscou o recrutamento ucraniano por vontade própria.
"Desde que eu cheguei, vivi num batalhão... Você assume o posto e você fica de vigia ali, esperando para ver se alguém vem tentar tomar a sua posição. O russo usa muito grupo suicida. Eles vêm em pequenos grupos tentar se infiltrar... E aí a gente fica na posição lá no bunker."
O carioca Carlos Eduardo Cândido, de 32 anos, se alistou para lutar pela Ucrânia.
Arquivo pessoal
O carioca Carlos Eduardo Cândido, de 32 anos, se alistou para lutar pela Ucrânia.
Arquivo pessoal
Para Cândido, a guerra virou rotina. O salário varia de dois mil e quinhentos reais a valores mais altos, a depender das missões e dos riscos. Há dois anos, ele vive entre a "casa segura" e o som da artilharia que não avisa quando chega.
"Teve momentos que pensei que não iria voltar pra casa. Pensei: chegou minha hora agora... Artilharia caindo pra tudo qualquer lado, você não sabe de onde tá vindo... Já perdeu amigos na guerra? Já, já perdi muitos..."
Hoje, Cândido opera drones — a mesma arma que apavora Marcelo do outro lado. Ele não tem previsão de volta.
Marcelo e Cândido são mais dois no front. Pela estatísticas frias do Itamaraty, 45 brasileiros desapareceram e 23 morreram nesses quatro anos de conflito. O governo brasileiro é enfático: alistar-se em forças estrangeiras é um risco pessoal e o Ministério recomenda que qualquer convite desse tipo seja recusado.
Mas, enquanto o Brasil alerta, o mundo observa o tabuleiro político mudar. Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, a pressão por um acordo cresceu, mas o diálogo ainda não se traduziu em cessar-fogo. A economia russa desacelera após o esforço de guerra; a Ucrânia luta contra a inflação e a destruição.
Para Valdir da Silva Bezerra, mestre em relações internacionais, o impasse é existencial. "Os próximos meses não parecem nos levar a uma conclusão para essa guerra que já vai para quatro anos logo mais", analisa.
O nó é jurídico e territorial. A Rússia exige as terras ricas em recursos do Donbas e o reconhecimento da Crimeia. A Ucrânia, como explica o doutor em relações internacionais Fabrício Vitorino, não pode abrir mão de sua soberania. "A Ucrânia, pela posição jurídica e para manutenção da soberania, não vai abrir mão dos seus territórios. Esse é o impasse legal que impede o cessar-fogo", explica.
Enquanto os diplomatas discutem "marcos jurídicos" e "ativos macroeconômicos" em salas climatizadas, o custo real da guerra é contado em corpos. Relatórios apontam que as baixas de ambos os lados podem chegar a dois milhões de pessoas nos próximos meses.
A Rússia já perdeu mais de 300 mil soldados. A Ucrânia, cerca de meio milhão. No meio dessa matemática de milhões, o conflito se resume a esperas individuais.
De um lado, um carioca opera drones em um bunker, vigiando uma terra que escolheu defender. Do outro, um roraimense de pés machucados pelo gelo conta os dias para rever os filhos. Já para a diplomacia, a guerra é apenas um impasse geográfico.
