Rope jump: do salto sem padrão ao

Rope jump: do salto sem padrão ao 'aviãozinho' para iniciantes, o jogo de erros na tragédia que matou jovem

Fonte: Bandeira



O presidente da Associação Brasileira de Rope Jump e Pêndulo Humano (ABRJH), Marco Antonio Junior, conhecido como Jota, afirma que o salto que causou a morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues, em Limeira (SP), não cumpriu os padrões mínimos de confiabilidade exigidos na modalidade. Segundo o esportista, "qualquer atividade de aventura no mundo" exige a dupla checagem, o que não ocorreu no incidente no interior paulista, quando a vítima foi lançada de uma altura de 40 metros sem que os três instrutores presentes no momento percebessem a ausência da corda de segurança.

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— O salto não teve padrão nenhum. Um instrutor tem que prender a corda no cliente, e o outro instrutor vai checar se a corda está presa da forma correta. Isso é o duplo cheque. Em qualquer atividade de aventura que você for fazer no mundo, é a primeira lei — explica Jota.

O vídeo do momento da queda gerou repercussão nacional após viralizar nas redes sociais. As imagens mostram a jovem sendo de 21 anos sendo carregada por três instrutores até a plataforma e lançada na modalidade conhecida como “aviãozinho”.

— Na hora que eu vi o vídeo, eu falei: "tá explicado porque aconteceu, não tem padrão mínimo de segurança, três pessoas para fazer a mesma função". Eles pegaram, levantaram e jogaram ela como se fosse um saco de batatas. Não tiveram nenhum tipo de preocupação com a vida da pessoa. Nada. É algo grotesco — diz o profissional.

Para Jota, a gravação e a falta de conferência do equipamento de segurança também demonstram que os instrutores envolvidos no incidente podem sequer ter feito a medição da corda para a liberação do salto. O profissional responsável por fazer a amarração e regular a corda na altura correta é conhecido como "rigger".

— Não é só pôr a pessoa na corda e acreditar que o rigger deixou a corda na altura certa, porque ele também é um ser humano e pode errar. Ele faz a medida dele, mas a obrigação do instrutor é ir até a ponta da plataforma, pegar a corda e fazer a medida também. Eles não fizeram nada. Nada. Na verdade, eles não têm protocolo — afirma Jota.

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Segundo o presidente da ABRJH, a posição "aviãozinho" também não é a mais indicada para saltos com iniciantes. Jota explica que, devido à falta de experiência, os praticantes podem ficar nervosos pela altura e se desequilibrarem, o que acarreta risco de queda para os próprios profissionais envolvidos. Na plataforma em Limeira, por exemplo, que é estreita, "se uma cliente entra em desespero e tentar agarrar um instrutor, caem todos".

— Estava tudo irregular. Aquela corda no chão (que aparece no vídeo), na verdade, não é a corda do salto. Deve ser a sobra da corda que eles usaram para "linha de vida", mas não é a do salto. E isso já está irregular, porque alguém poderia tropeçar nela na beira da ponte — ressalta o profissional.

Presidente da Associação Paulista de Rapel, Gleidson Rodrigues endossa que o incidente foi causado pela quebra de uma série de protocolos. O especialista corrobora que a posição do salto não é recomendada pelas melhores práticas do rope jump.

Esse procedimento introduz "variáveis incontroláveis", segundo ele, como a força do impulso do praticante, que fogem do cálculo de precisão exigido pela atividade. A prática recomendada é que o participante salte por conta própria, de costas ou de frente, depois da conferência final do equipamento, o que ajuda a visibilidade da conexão da corda.

Rodrigues, que tem um projeto de lei para regulamentar o rope jump em São Paulo, afirma que os manuais que a associação de rapel pratica foram completamente ignorados. Assim como Jota, ele menciona a ausência do que definiu como "checagem cruzada", na qual pelo menos duas pessoas deveriam verificar o equipamento e a conexão da corda antes do salto.

Além disso, o briefing de segurança inicial — que orientaria a participante sobre a necessidade de estar conectada antes de se aproximar da borda — não foi realizado:

— Se o briefing tivesse ocorrido, a própria vítima poderia ter identificado a falha — disse.

'Nenhum prestou atenção no que estava fazendo'

Outro detalhe mostrado no vídeo que evidencia o despreparo, conforme Jota, é a postura dos três instrutores envolvidos no salto após o lançamento de Maria Eduarda. Enquanto os dois da frente olham para o lado esquerdo, o homem posicionado mais atrás olha para o lado oposto, o que reforça a ausência de checagem nos procedimentos que envolvem a corda.

— Os dois que jogaram ela, jogam e olham para o lado esquerdo da ponte. Já o que está de pé atrás, olha para o lado direito. Por quê? Os dois que jogaram acharam que ela iria pendular para um lado, mas o que ajudou a levantar achou que ela iria pendular para o outro, já que nenhum deles checou. Nenhum deles prestou a atenção no que estava fazendo, e quando se trata de vidas, a atenção tem que ser 100% — explica Jota.

Criada em abril deste ano, a Associação dedicada ao Rope Jump busca regulamentar a modalidade no Brasil. De acordo com Jota, serão enviados projetos de lei para as Câmaras Municipais de Limeira e São Paulo, ainda nesta semana, que dispõem sobre a prática. O espostista também comanda a Rope Trips das Aventuras Radicais, primeira empresa da América Latina voltada para o rope jump.

A diferença para o Bungee Jump, modalidade mais famosa, é que este possui uma corda que pode ser esticada por até três o próprio tamanho, o que causa um "efeito ioiô". No Rope Jump, por sua vez, as cordas não são elásticas, e o que faz a absorção da queda é o movimento pendular do corpo.

O presidente da ABRJH também defende medidas criminais contra os envolvidos no caso devido à falta de cuidado com a cliente. Os responsáveis pelo lançamento — Luis Felipe Feliciano Egoroff, Vitor de Freitas Gonçalves e Maicon Fernandes Cintra, que atuavam por meio de marcas informais, como “Ih voei” e “Entre cordas” — foram presos em flagrante por homicídio com dolo eventual, acusação mantida após a conversão da prisão em preventiva.

— Se acontecer um acidente, nunca vai gerar uma morte, porque para gerar uma morte tem que ser uma coisa muito grotesca — afirma Jota. — O esporte é assim seguro. Não precisa ficar com medo do esporte por uma empresa — completa.

Atuação sem empresa formal

De acordo com a investigação, não havia uma empresa formalmente constituída e regulamentada por trás da atividade. Para a delegada, os organizadores operavam de forma autônoma e utilizavam as marcas divulgadas nas redes para promover os saltos. Após a repercussão da tragédia, os perfis associados ao grupo deixaram de estar disponíveis na internet.

A defesa dos três investigados sustenta que eles possuem ampla experiência na realização de atividades de aventura e argumenta que esta teria sido a primeira morte registrada em sua trajetória profissional. Em depoimento à polícia, dois deles afirmaram ter sofrido um “apagão” durante os procedimentos de preparação e não souberam explicar em que momento deixaram de prender as cordas.

Maria Eduarda pagou R$ 180 pela experiência e desembolsou outros R$ 150 para que o salto fosse filmado com uma câmera 360 graus. O equipamento, que aparecia nas mãos da jovem momentos antes da queda, ainda não foi localizado pelos investigadores.

— Tem que pesquisar. Não tenha vergonha de perguntar CNPJ, Cadastur, se tem seguro de responsabilidade civil, quem é o responsável da empresa. Hoje em dia o que mais tem são formas de pesquisar. E se não achar nada, pergunta. E outra: se você não achou nada, já é um péssimo indício — diz Jota.

Jovem era formada em Educação Física

Formada em Educação Física e moradora de Jandira, na Grande São Paulo, Maria Eduarda trabalhava em uma academia e costumava compartilhar nas redes sociais registros ligados a esportes, natureza e bem-estar. Horas antes do acidente, publicou uma foto em frente a placas que alertavam para o risco de morte no local. Em uma postagem feita pouco antes do salto, escreveu em tom de brincadeira: “Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte?”. Após sua morte, o perfil da jovem também foi retirado do ar.

A Ponte do Esqueleto, estrutura ferroviária inacabada que hoje pertence à União, acumula histórico recente de acidentes. Em 2024, uma ciclista morreu após cair do viaduto, enquanto outras duas mulheres ficaram gravemente feridas em ocorrências registradas nos meses anteriores. A prefeitura de Limeira e a Secretaria de Patrimônio da União divergem sobre a responsabilidade pela fiscalização e pelo controle de acesso ao local.