Romulo Fróes lança nesta quarta de cinzas álbum que repassa sua separação, mas é como 'declaração de amor'

 

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Foi no carnaval de 2023 que Romulo Fróes detectou os primeiros sinais de que seu casamento estava perigando. Pouco depois, recebeu uma melodia de Ná Ozzetti e escreveu a letra de “Um estandarte pra mim”, com referências aos dias de festa passados no Recife e em Olinda. Propositalmente, lança hoje, uma Quarta-Feira de Cinzas, “Boneca russa”, que chama de “seu álbum de separação”.

— É nesse dia porque o álbum está impregnado de uma história de carnaval. Quarta de Cinzas tem o tom chato de “acabou, vou voltar a trabalhar”, mas também de renascimento. É o famoso renascer das cinzas — explica o cantor e compositor paulistano de 54 anos.

O casamento com a produtora cultural e compositora Alice Coutinho acabou em janeiro de 2024. Três das 13 músicas do álbum foram compostas antes: “Um estandarte pra mim”, “Vaso ruim” — que já apontava para o fim da união — e “Olga”. Esta leva o nome da filha do casal e foi concluída pelos dois no dia em que ela nasceu, há dez anos.

— Como esse disco é, no fundo, uma declaração de amor, a nossa canção para Olga tem, enfim, um lugar. Até para reforçar que não é um disco ressentido — destaca Romulo, que incluiu na faixa áudios de Olga com 4 anos dizendo coisas assim: “Como é ficar sozinho?”; “São tantas histórias, né? E a gente vai esquecer todas”.

‘Disco de cura’

As outras dez músicas foram criadas em 2024 e 2025, formando o que o artista, que passou a fazer terapia, chama de “disco de cura”. A canção “Boneca russa” deu título ao trabalho por causa da imagem de uma boneca saindo de dentro da outra.

— É como alguém que arranca a pele, e debaixo daquela pele tem outra pele, e debaixo daquele silêncio, outro silêncio, e fica “doendo, doendo”, como diz a letra. Como se estivesse tirando as cascas e, por mais que eu tirasse, no fundo ainda está lá a dor — diz.

Os versos cortantes das letras indicam que tudo ainda dói, mas Romulo prefere relativizar.

— São canções de profunda tristeza, um pouco de raiva. Sou eu tentando contar essa história do meu ponto de vista e tentando entender o ponto de vista da outra pessoa. Se tivesse sido lançado no ano em que eu me separei, seria um testamento, porque eu ainda estaria mergulhado no luto. Dois anos depois, a vida seguiu, prefiro chamar de tributo — define.

O álbum tem uma sonoridade singular. Romulo, que não toca o seu violão, é acompanhado apenas do contrabaixo de Marcelo Cabral. O músico tira diversos sons do instrumento e cria efeitos a partir deles.

— O baixo do Cabral é uma máquina de sons. E eu queria que a dor estivesse no som — afirma. — Acho até que o Cabral me salvou. Poderia ter ficado um disco modorrento e chato, mas em algumas músicas ele botou para frente. Não é o registro óbvio do sofrimento.

Romulo é cercado por artistas de uma geração paulista notável, casos de Juçara Marçal, Rodrigo Campos e Thiago França. Com parte deles produziu, em 2015, o já clássico disco de Elza Soares “A mulher do fim do mundo”, cuja faixa-título é dele e de Alice.

“Boneca russa” é, “de longe”, como assume, o mais pessoal de seus trabalhos — embora “Na goela”, seu álbum com Thiago Rosas (de 2023), tenha tido a pandemia como pano de fundo e, numa das canções, Romulo cite o nome de sua mãe, que morreu de Covid-19.

— Mas era um pessoal coletivo. Do Brasil, do Brasil do Bolsonaro, da pandemia. Esse é pessoal mesmo. Até por isso há um esforço de soar universal. Não pode ter códigos tão pessoais que outra pessoa não acesse. E esse é o modo como eu faço canção. Parto de algo pessoal e tento expandir. Penso em rimas, uso de palavras, e esqueço que é sobre mim — afirma.

Influência de Macalé

Romulo é um criador prolífico. Em 22 anos de carreira, lançou 18 álbuns (um duplo), só com o seu nome ou coletivos, como “Passo torto” e “Passo elétrico”. Todos foram feitos de modo independente, quase sempre lançados pelo selo YB, caso de “Boneca russa”.

— Todo disco tem um enredo, um desejo. Enquanto eu tiver ideia para discos, estou vivo — acredita. — E acho que, por ter convivido com Jards Macalé (de quem coproduziu “Besta fera” em 2019 e que morreu em novembro passado), sempre vou ter ideias. Aos 80 anos ele continuava com tesão, querendo responder a alguma coisa.

Para a reportagem, ele enviou as 13 músicas num arquivo, e não faixa a faixa, como se costuma fazer. Para ele, é uma história, como antigamente eram parte dos discos que os artistas faziam.

— No meu desejo, não teria interrupção nenhuma. Mas, no Spotify, precisa ter um segundo de espaço. A música “A hora mágica” começa com “Agora foi, não vai mais voltar atrás”. É óbvio que tem que ser a primeira música do disco. É uma historinha que tem um apêndice, que é a “Olga”, para dar um alívio e dizer que está tudo bem — explica.

Quando o álbum entrar nas plataformas, Romulo estará com Olga em Ubatuba, no litoral de São Paulo. Na verdade, ele nunca gostou de carnaval.