Rodrigo Gonçalves Pimentel explica por que famílias empresárias passaram a repensar a relação entre patrimônio e empresa
Poucas estruturas empresariais têm tanta relevância para a economia brasileira quanto as empresas familiares. Elas movimentam setores estratégicos, geram empregos, atravessam gerações e, em muitos casos, carregam décadas de história construídas diretamente pela figura do fundador. O problema é que boa parte dessas empresas enfrenta uma dificuldade silenciosa quando chega o momento da sucessão: transformar um patrimônio pessoal em uma estrutura capaz de sobreviver ao tempo.
Durante muitos anos, a sucessão empresarial foi tratada quase exclusivamente como uma questão patrimonial. O foco estava em testamentos, divisão de cotas, inventários e reorganizações societárias. Embora esses mecanismos continuem importantes, o mercado começou a perceber que o principal desafio da continuidade empresarial não está apenas na transferência do patrimônio, mas na capacidade de preservar comando, gestão e estabilidade operacional após a saída do fundador.
Essa mudança de percepção acontece em um momento no qual as novas gerações passaram a construir trajetórias diferentes das vividas pelos pais. Muitos herdeiros desenvolveram outras vocações, seguiram carreiras próprias e, em diversos casos, não desejam assumir a responsabilidade de conduzir diretamente os negócios da família. O problema, portanto, não está na falta de interesse dos sucessores, mas na ausência de estruturas preparadas para funcionar sem depender exclusivamente deles.
A nova lógica da sucessão empresarial
O modelo tradicional, baseado na figura central do fundador, começa a dar espaço para estruturas mais profissionalizadas de governança corporativa. Conceitos como holding familiar, conselho de administração, acordo societário e gestão profissionalizada passaram a ocupar papel estratégico dentro das empresas familiares brasileiras, principalmente naquelas que buscam continuidade de longo prazo.
Na prática, esse movimento representa uma mudança importante: separar propriedade de operação. Isso significa que o patrimônio pode continuar pertencendo à família sem que a gestão operacional precise estar obrigatoriamente concentrada nos herdeiros. O sucessor pode atuar como sócio, conselheiro ou integrante da estrutura patrimonial, enquanto a operação permanece sob responsabilidade de profissionais preparados para conduzir a empresa de forma técnica.
Esse processo também reduz conflitos internos e cria maior previsibilidade para o futuro da organização. Empresas excessivamente dependentes da presença do fundador tendem a enfrentar maior vulnerabilidade em momentos de sucessão, reorganização financeira ou expansão. Já estruturas profissionalizadas costumam apresentar maior estabilidade institucional e capacidade de adaptação ao mercado.
Governança e preservação patrimonial
A profissionalização da gestão deixou de ser uma pauta restrita às grandes corporações. Hoje, ela passou a fazer parte das estratégias de preservação patrimonial de empresas familiares de diferentes portes e setores. O objetivo não é afastar a família do patrimônio construído ao longo das décadas, mas criar mecanismos que permitam sua continuidade sem comprometer a operação.
Existe ainda outro movimento importante nesse cenário: muitas famílias empresárias começaram a compreender que perpetuar patrimônio não significa, necessariamente, manter exatamente a mesma estrutura operacional ao longo das gerações. Em alguns casos, operações complexas passam por reorganizações estratégicas para transformar ativos operacionais em estruturas mais previsíveis de renda, reduzindo exposição operacional e aumentando segurança patrimonial.
Esse tipo de reorganização vem ganhando espaço especialmente em setores como agronegócio, indústria, varejo e operações familiares que enfrentam crescimento acelerado ou transição geracional. A lógica por trás desse movimento é relativamente simples: construir estruturas capazes de sobreviver não apenas às oscilações do mercado, mas também às mudanças familiares ao longo do tempo.
O futuro das empresas familiares
A sucessão empresarial deixou de ser apenas uma discussão jurídica e passou a ocupar espaço central dentro da estratégia corporativa das empresas familiares. Mais do que definir quem herdará o patrimônio, o desafio atual está em criar estruturas capazes de garantir continuidade, estabilidade e capacidade de adaptação para as próximas gerações.
No fim, talvez a principal pergunta que muitas famílias empresárias precisem fazer não seja quem ficará com a empresa, mas se a empresa conseguirá continuar funcionando sem depender exclusivamente da presença de uma única pessoa. Porque negócios preparados para atravessar gerações não são construídos apenas sobre patrimônio, mas sobre governança, estrutura e capacidade de continuidade.
Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado (OAB/SP 421.329 | OAB/DF 68.003 | OAB/MS 16.250), empresário e corretor de imóveis (CRECI/MS 11.939). Sócio do Pimentel & Mochi Advogados e gestor da Todeschini MS e RP Imóveis. Foi Secretário de Governo e Presidente da Fundação de Cultura de Campo Grande. Siga no Instagram: @rodrigogpimentell
