'Rodízio de monjauro': restaurantes dão descontos para quem usa canetas emagrecedoras
'Quarta do mounjaro'. Seria um dia fixo para aplicar o medicamento? Não. Esse foi o nome que um restaurante em Recife deu para um dia de rodízio dedicado a quem faz uso de canetas emagrecedoras. O estabelecimento passou a oferecer rodízio de petiscos com desconto de 30% pra pessoas que estão nesse tratamento e possuem apetite reduzido.
O dono do La Casa Recife, Felipe Batista, contou que a ideia surgiu em dezembro, durante as festas de fim de ano, diante do apelo dos clientes.
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'A ideia surgiu em dezembro, porque a gente faz um menu pra confraternização de empresas e amigos. E nesse menu, todos da mesa precisam participar. Vieram vários relatos pra gente, de pessoas dizendo: 'Eu tenho uma amiga que está tomando mounjaro e ela perguntou se podia não participar do rodízio, porque pra ela não vale a pena'. Em janeiro, a gente pensou em fazer uma ação voltada pra esses consumidores das canetas.'
Felipe não foi o único dono de restaurante a perceber essa necessidade dos clientes. Com a popularização das canetas, muitos brasileiros passam por uma readaptação alimentar.
Mas quem faz uso de uma medicação para emagrecer pode ir a um rodízio? Pra endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Carolina Porto, os pacientes não precisam se privar de ir, desde que tomem alguns cuidados.
'É compatível fazer o tratamento com essas medicações e frequentar rodízios. A ideia de um tratamento para obesidade não é ter uma restrição da vida social, nem dessas questões culturais. Mas a gente tem que saber que quando essa pessoa vai no rodízio, ela tem que comer devagar, em porções pequenas e parar no primeiro sinal de saciedade. Esses remédios desaceleram o esvaziamento do estômago e reduzem a fome, mas se a gente forçar o volume para valer o preço, pode aumentar o risco de náusea, de azia ou mal-estar.'
A designer Duda Fercè tinha dficuldade de conseguir comer fora de casa depois que começou o tratamento com canetas há sete meses. No máximo, ela conseguia frequentar restaurantes a quilo.
Duda viu nos descontos dados pelos rodízios uma possibilidade de voltar algo de que ela tanto gosta: comida japonesa. E não sente nenhuma culpa nisso:
'O desconto muda um pouco essa percepção pelo fato de você não ficar com tanto peso na consciência. Porque a gente começa a comer menos, mas nem tem todo momento a gente quer deixar de comer as mesmas coisas. A gente tem que ter alguns prazeres de vez em quando. Lógico que tem que seguir uma dieta restrita, proteica, tem toda uma orientação nutricional, mas em alguns momentos sociais a gente precisa ter essas opções.'
Se por um lado quem utiliza caneta deve reaprender a comer fora de casa, os restaurantes precisam também se adaptar e construir menus específicos para esse público, mais restritos, sem perder faturamento.
O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Paulo Solmucci, acredita que essa é uma realidade que veio para ficar e atingir um público cada vez maior.
'Nós estamos bastante convictos que o uso das canetinhas só tende a crescer. A nossa expectativa é que agora em 2026 isso cresça muito, expanda para as classes B e C. Acho que o brasileiro vai comer menos, e os restaurantes vão se adequar a essa realidade. Não necessariamente perdendo o faturamento, mas faturando de outra forma e de uma maneira que eu acho melhor para a saúde financeira dos restaurantes e também clientes.'
Tiago Caldeira, dono do Zen Cozinha Oriental, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, também já notou a mudança. Ele oferece no cardápio o 'Rodízio Mounjaro', com 30% de desconto.
Para o empresário, o público mais preocupado com a saúde e a aparência veio para mudar de forma permanente o setor de restaurantes. No entanto, ele acredita que ainda há espaço para misturar o novo com o tradicional.
'O rodízio traz essa sensação de interação social. São as pessoas sentadas à mesa escolhendo a sua variedade, então não acredito que vá acabar, mas acredito que os restaurantes vão precisar se adaptar. A gente tem o público 'wellness' que vem crescendo, mas a gente segue também tendo o nosso público há muito tempo. Então eu acredito que é uma tendência que não é passageira, mas que vai ter espaço para todo mundo.'
E para quem faz o uso das canetas e frequenta os rodízios, a nutricionista da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, Clarissa Fujiwara, alerta que aplicar a medicação não é o mesmo que receber um passe livre.
'Com uma certa frequência no consultório, existe uma parcela de pacientes que passam a enxergar o uso dessas medicações como uma espécie de passe livre para fazer escolhas alimentares menos conscientes. E é muito importante ter o entendimento de que, embora essas medicações atuem na regulação do apetite, elas isoladamente não mudam sozinhas o comportamento alimentar.'
Embora ir a um rodízio não seja proibido para quem utiliza as canetas, especialistas alertam que os pacientes não devem 'forçar a barra' e comer para além da saciedade só porque tem mais comida no prato. Além de prejudicar o emagrecimento, o risco de passar mal é alto.
