Rocío San Miguel e Enrique Márquez estão na lista de presos políticos libertados pela Venezuela, segundo mídia internacional; veja outros nomes

 

Fonte:


Surgem os primeiros nomes de presos políticos que podem ser libertados pelo regime chavista, segundo informações divulgadas pela mídia internacional. Entre eles estão a advogada Rocío San Miguel, principal especialista venezuelana em temas militares e diretora da ONG Controle Cidadão, e o ex-candidato à Presidência Enrique Márquez, ambos considerados detentos de alto perfil durante o governo de Nicolás Maduro. Também circulam relatos sobre a possível libertação de Juan Pablo Guanipa, ex-primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional, e do jornalista Roland Carreño.

Entenda: Venezuela anuncia libertação de presos políticos como ‘gesto de paz unilateral’

Regime pós-Maduro: Familiares de presos políticos vivem dias de angústia e incerteza na Venezuela

Uma fonte diplomática do Brasil em Caracas afirmou ao GLOBO que ainda não há confirmação oficial dos nomes, embora as redes de notícias mencionem San Miguel — presa em fevereiro de 2024 sob acusação de envolvimento em uma suposta tentativa de golpe — e Márquez, detido em janeiro de 2025 sem acusação formal conhecida. Comentam-se ainda os nomes de Perkins Rocha, advogado de Maria Corina Machado, e Rafael Tudares, genro de Edmundo González Urrutia, entre os possíveis libertados.

Segundo o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, as solturas começaram “a partir deste exato momento”, sem que tenha sido informado o total de beneficiados. Trata-se das primeiras libertações sob o governo interino de Delcy Rodríguez, que assumiu temporariamente após a operação militar dos Estados Unidos, em 3 de janeiro, que resultou na captura do presidente deposto Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Ambos estão detidos em Nova York, onde respondem a diversos processos judiciais, incluindo acusações de narcotráfico.

De acordo com Jorge Rodríguez, a decisão foi tomada “para a convivência pacífica” e não envolveu negociação com outras partes. O chefe do Parlamento, no entanto, agradeceu a intermediação do ex-presidente do governo da Espanha José Luis Rodríguez Zapatero, do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e do governo do Catar, que, segundo ele, atenderam prontamente a um pedido da presidente interina. Ainda não está clara a participação desses governos na decisão.

— É um gesto unilateral do governo bolivariano — afirmou, em declarações à imprensa no Palácio Legislativo, em Caracas. — Considerem este gesto do governo bolivariano, com sua ampla intenção de buscar a paz, como a contribuição que todos devemos dar para garantir que nossa república continue sua vida pacífica.

Pessoas que conhecem San Miguel — muitas das quais trabalharam com a ativista e defensora dos direitos humanos — afirmaram ao GLOBO em 2024, sob a condição de anonimato, que sua detenção é um recado de Maduro a outras ONGs e lideranças da sociedade civil, em plena negociação para a realização de eleições presidenciais este ano. Ela tem uma trajetória reconhecida dentro e fora do país e, apesar de ter questionado o chavismo com seus relatórios, análises e pesquisas sobre o mundo militar, não tem um perfil radical e jamais aceitou aliar-se a políticos de oposição. Sua arma contra Maduro era a informação privilegiada sobre o que acontece dentro dos quartéis venezuelanos.

No início de 2024, o Ministério Público venezuelano comunicou a ordem de detenção de duas mulheres, a jornalista Sebastiana Barraez, e Tamara Suju, também advogada a defensora dos direitos humanos. Ambas rumaram para o exílio na Europa, fugindo das pressões e ameaças permanentes que sofriam dentro de seu país. Barraez e Suju, como San Miguel, têm fontes militares e por isso, principalmente, incomodavam o Palácio de Miraflores. San Miguel, comenta-se em Caracas, tinha consciência de que poderia ser a próxima da lista, e talvez por isso organizou uma viagem para a Espanha, onde mora sua filha, Miranda, que a estava visitando na Venezuela.

San Miguel é formada em Direito na Universidade Central da Venezuela (UCV), onde também fez uma pós-graduação em Direito Internacional, Econômico e de Integração. A defensora dos direitos humanos, que já se envolveu pessoalmente em casos de prisões arbitrárias do governo Maduro, também estudou no Centro William J. Perry de Estudos de Defesa Hemisférica, Think Tank que expressou seu repúdio à detenção de sua ex-aluna.

Ela também é professora de Direitos Humanos da UCV, e considerada a acadêmica que melhor conhece em seu país toda a legislação referente ao mundo militar. Em situações que foram lembradas por pessoas que San Miguel ajudou, entre elas a jornalista Andreina Flores, que vive na França, a advogada enfrentou os militares com seu conhecimento sobre as leis que regem a segurança interna em seu país. Em 2016, a ativista, segundo lembrou Andreina em sua conta na rede social X (ex-Twitter), foi até o local onde a jornalista e outro colega estavam presos e exigiu a liberação de ambos com argumentos implacáveis, de uma pessoa que sabe perfeitamente como desmontar operações militares do chavismo. "O militar de mais alta patente da Direção-Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM) foi cedendo pouco a pouco, e entregou a Rocío tudo o que ela pedia, sem reclamar. Eu a olhava com admiração e agradecimento”, escreveu a jornalista.

Quando Hugo Chávez já era presidente da Venezuela, em 2004, San Miguel trabalhava na Comissão de Fronteiras do Ministério das Relações Exteriores do país. Foi uma das das servidoras que assinou a famosa Lista Tascón, na qual os trabalhadores do Estado apoiaram a destituição de Chávez no referendo para revogar seu mandato, realizado naquele ano. O governo demitiu vários dos servidores que aderiram à Lista Tascón, e San Miguel, junto a outros, recorreu à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. O caso chegou à Corte Interamericana de Direitos Humanos, que em 2018 condenou o Estado venezuelano por violação de direitos civis. Uma vitória de San Miguel que o chavismo nunca digeriu.

Enquanto isso,