Robô de construção troca mão humanoide por furadeira comum

Robô de construção troca mão humanoide por furadeira comum - Foto
Fonte da notícia: Epoca Negócios Epoca Negócios

A startup americana Zinova apresentou nesta semana um sistema batizado de Tool Intelligence (inteligência de ferramentas), criado para que robôs de construção operem ferramentas comuns de canteiro, como furadeiras, parafusadeiras e pinadores pneumáticos, em vez de depender de mãos robóticas complexas com múltiplos dedos.

A empresa, sediada em San Jose, na Califórnia, está ligada à RIC Robotics, companhia por trás do Zyrex, robô de seis metros de altura, e de uma expansão de cerca de 465 metros quadrados de uma loja do Walmart impressa em concreto 3D em aproximadamente uma semana, embora as duas mantenham, segundo comunicado da própria Zinova, prioridades de pesquisa e modelos de negócio distintos. Segundo reportagem da revista Forbes, a aposta da Zinova parte de uma observação prática sobre o próprio canteiro de obras. A maioria das ferramentas elétricas usadas por trabalhadores da construção, de furadeiras a serras circulares e marteletes, segue o mesmo desenho básico, um cabo em formato de pistola com um gatilho. Para acionar esse tipo de equipamento, argumenta a empresa, não é preciso uma mão capaz de reproduzir todos os movimentos da mão humana. Basta um dispositivo que fixe o punho da ferramenta e pressione o gatilho no momento certo. Um gatilho no lugar de cinco dedos Essa escolha contraria o consenso predominante na robótica em 2026, quando boa parte dos investimentos em robôs humanoides se concentra em mãos com cinco dedos, tendões articulados e sensores de pele artificial capazes de imitar o tato humano. O fundador da Zinova, Ziyou Xu, afirma que a garra usada nos robôs da empresa é simples e rígida, sem articulações complexas, com a função apenas de acoplar a ferramenta ao braço robótico.

Para ele, "quase tudo que os humanos construíram foi possível pelo uso qualificado de ferramentas", diz Xu, ressaltando que o objetivo da empresa é preservar essa capacidade em sistemas de inteligência artificial física, permitindo que a forma do robô varie enquanto a habilidade de manejar ferramentas permanece constante. A peça central do sistema é um sensor chamado TEISI, sigla em inglês para Interface de Sensoriamento da Interação entre Ferramenta e Corpo Robótico. Segundo a Zinova, o dispositivo capta força, torque, vibração, resistência e o tipo de contato entre a ferramenta, o robô e o material trabalhado. Essa camada de percepção tenta reproduzir o que um marceneiro experiente sente pelo punho, pelo som e pela resistência de uma broca segundos antes de ela travar. Câmeras não captam esse tipo de sinal, mas o retorno de força permite ao robô ajustar o movimento em tempo real. Em vídeo de demonstração divulgado pela empresa, o executivo-chefe Ryan Cox dá uma ordem verbal a um dos robôs, chamado Ziggy, pedindo a construção de um painel de concreto do tipo tilt-up, técnica em que placas são moldadas na horizontal, curadas no local e depois erguidas com o auxílio de guindastes, usada com frequência em galpões e, cada vez mais, em data centers. O robô prega tábuas de madeira com uma pinadora, faz furos com uma furadeira, instala e amarra vergalhões de reforço e alisa o concreto despejado na fôrma. O painel construído na demonstração mede cerca de 1,8 metro por 1,8 metro, bem menor do que os painéis reais desse tipo de construção, que costumam ter de 6 a 12 metros de comprimento e pesar dezenas de toneladas. Segundo Cox, o formato físico dos robôs da Zinova é secundário, já que a prioridade da empresa é entregar a ferramenta certa no lugar certo, o que, na configuração atual, permite alcançar entre 4,5 e 9 metros de altura sem depender de pernas ou de um formato humanoide completo. Outras empresas já testam robôs para tarefas específicas na construção A Zinova não é a primeira a levar inteligência artificial para o canteiro de obras. A Dusty Robotics automatiza a marcação de plantas em pisos, a Canvas trabalha no acabamento de placas de gesso (drywall) e a Monumental desenvolve robôs para assentamento de tijolos, segundo o levantamento da Forbes. A diferença, segundo a reportagem, é que essas empresas concentram a tecnologia em tarefas específicas e bem definidas, enquanto a Zinova propõe uma camada de inteligência reaproveitável entre diferentes ferramentas, tarefas e corpos de robôs. Ainda segundo a Forbes, o próprio recorte escolhido pela Zinova, ferramentas acionadas por gatilho, ajuda a explicar o avanço. Uma furadeira envolve um problema de controle de força que pode ser monitorado por sensores. Um martelo, ao contrário, depende de um golpe balístico, difícil de calcular e ainda fora do alcance da maioria dos braços robóticos e das mãos mais avançadas em desenvolvimento. Questionado sobre o risco de substituição de trabalhadores, Cox defende que o problema do setor não é excesso de automação, e sim escassez de mão de obra. Segundo ele, para cada trabalhador que entra na construção civil americana, cinco deixam o setor. "Não estamos tirando emprego de ninguém. Estamos tentando prolongar a vida útil desse trabalho", diz o executivo à Forbes, referindo-se ao desgaste físico da rotina de profissionais como os pedreiros. A percepção de escassez de mão de obra não é exclusiva da Zinova. Segundo modelo divulgado pela Associated Builders and Contractors, entidade que representa empregadores do setor nos Estados Unidos, a construção civil americana precisará atrair cerca de 349 mil novos trabalhadores em 2026 apenas para manter o equilíbrio entre oferta e demanda de mão de obra, número que deve subir para 456 mil em 2027. Para o economista-chefe da entidade, Anirban Basu, a falta de profissionais qualificados tende a pressionar os custos de mão de obra no setor caso não seja revertida. Por ora, a Zinova descreve a si mesma como uma empresa de pesquisa em fase inicial, dedicada a validar módulos experimentais de inteligência física, e não como fabricante de robôs prontos para venda comercial. A demonstração divulgada mostrou a construção de um único painel de concreto em escala reduzida, e a empresa não informou datas para testes em canteiros de obra reais.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site Epoca Negócios