Das 12 faixas do álbum “Roberta Miranda”, lançado em 1986, “Benvinda” soa como uma das mais confessionais.
“Pois sou mulher, e outras dores/ Bem mais fortes, suportei / Me fiz guerreira /Do caminho que eu tracei”, canta, com o romantismo que se estende por todo o disco de estreia e virou marca registrada da paraibana.
É por letras como esta que mergulhar num repertório de mais de 440 músicas gravadas desde então tem sido uma missão árdua, reconhece a cantora.
“Estou no momento mais sensível da vida.
Passa um filme pela cabeça”, diz, enquanto prepara uma turnê para celebrar quatro décadas de carreira.
“Cada canção tem uma história real.
É muito visceral.
Não consigo fazer música por encomenda.
Quando componho, conto sobre mim.”
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Aos 69 anos, Roberta dá partida às comemorações pela trajetória profissional com um show no Vivo Rio, no próximo dia 19, descrito como uma prévia da turnê.
De antemão, avisa já ter encomendado à produção pelo menos dois momentos audiovisuais arrebatadores para o público se emocionar.
Não que ela precise se ancorar em algo do tipo.
A cada apresentação, sobe ao palco munida da história que a trouxe até aqui, cujos detalhes expôs no livro “Um lugar todinho meu” (ed.
A Página), num processo catártico.
“Levei muitos anos para contá-la.
Eram gavetas fechadas e, quando você as destampa, a vida vira um inferno.
Fiz 28 anos de análise para isso e só hoje começo a respirar aliviada.”
Única filha mulher de um casal de funcionários públicos e com três irmãos mais velhos, a cantora tem os primeiros anos de vida marcados por memórias turbulentas.
Parte dessas lembranças envolve o pai alcoolista, que passava as noites de Natal atirando para o alto com ela ainda criança no colo.
Há também as agressões cometidas por um irmão.
Ele não admitia que Roberta se relacionasse com meninas nem fosse cantora, embora a mãe reconhecesse o talento desde cedo.
“Ela dizia que, com 9 meses, eu já cantarolava e batia palma no ritmo certo”, conta.
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Para fugir do caos, Roberta saiu de casa aos 14 anos e chegou a pedir dinheiro na rua e comer pães encontrados no lixo.
Também cantou numa boate em Campo Grande (MS), onde foi estuprada por um dos clientes mais perversos e engravidou.
Cinco meses depois, o criminoso voltou à casa e tentou estuprá-la novamente.
Desta vez, Roberta se defendeu desferindo golpes com uma cadeira de ferro contra o rapaz.
“Ele, então, me deu um chute na barriga.
Eu me deitei e me lembro de urrar de dor.
Quando deu seis horas da manhã, uma amiga buscou ajuda com um farmacêutico, e ele disse que eu havia perdido o bebê.”
A despeito das situações adversas, a cantora fez questão de não sucumbir.
Jurou para si mesma que as humilhações não se repetiriam com ela nem com pessoas próximas.
“Poderia ter me tornado a maior serial killer do mundo”, afirma.
“Mas, mesmo com todos os problemas, meus pais me ensinaram valores morais e como há caminhos certos e errados na vida.
O meu olhar foi para a música.
Foi a estrada encontrada para mostrar a eles (a família) o que se tornaria aquilo que jogaram no lixo.”
Cantora alcançou notoriedade no sertanejo num época em que ainda havia poucas mulheres na cena
Isabeli Milani
A resposta foi dada via ondas do rádio, programas de auditório e milhões de discos vendidos.
Autor do livro “Cowboys do asfalto: Música sertaneja e modernização brasileira” (ed.
Civilização Brasileira), Gustavo Alonso destaca o fato de ela ter conquistado notoriedade “pau a pau” com nomes masculinos entre as décadas de 1980 e 1990, quando as mulheres tinham espaço restrito no gênero.
“E faz isso sendo uma compositora reverenciada.
‘Majestade, o sabiá’ foi gravada por nomes como Jair Rodrigues e Chitãozinho & Xororó”, ilustra.
“Do mesmo jeito, construiu uma carreira solo numa cena dominada por duplas.”
Seguiu, assim, como referência para gerações posteriores.
Do sertanejo ao pop, já cantou com nomes como Marília Mendonça (1995-2021), Luísa Sonza e Ana Cañas, de quem recebeu o convite para gravar “Amiga, se liga”, do álbum “Vida real” (2025).
“Artistas como Roberta abriram portas para cantarmos nossas músicas e fazermos shows grandes como hoje”, reconhece Ana.
“Além disso, é uma inspiração para todas as mulheres, por ser livre e bem-resolvida.”
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O sucesso tampouco se restringe ao ofício.
Solteira e bissexual, Roberta diz receber cantadas de “lindas e lindos” pelo Instagram.
“Se abrir a caixinha (nos Stories) é uma chuva.
Dizem: ‘Me dá sua boca?’; ‘Você quer ser minha?’...
Outro dia recebi um nude”, diverte-se.
“Tenho um lado sedutor e carinhoso.
Sou uma pessoa de atitude, protetora.
Muitas mulheres casadas se apaixonaram e largaram os companheiros para ficar comigo.”
Ela também conta ter sido casada por um longo período com uma mulher que considera um grande amor e cuja separação levou três anos para superar.
“Mas hoje estou preparada para um novo romance”, avisa, com a animação de quem tem uma “libido terrível”.
“Não faz um mês que passei quase uma noite inteira fazendo amor.
Com a chegada da menopausa, não senti nada.
Sou libra com libra.
Paixão pura e sexual até o fio do cabelo.”
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