Roberta Ciasca, a chef carioca do único restaurante do Rio comandado por uma mulher presente em todas as edições do Guia Michelin na cidade
Nem sempre timidez e insegurança andam juntas. Prova viva é a discreta e bem-sucedida Roberta Ciasca, chef à frente da cozinha de três casarões de Botafogo. Nos últimos meses, a carioca comemorou 50 anos de vida, 20 anos de Miam Miam e a permanência do selo Bib Gourmand, do Guia Michelin, na sua casa mais longeva entre as três de Botafogo. O restaurante aniversariante é o único do Rio, chefiado por uma mulher, presente em todas as edições do mais respeitado guia gastronômico do mundo. Brota, que também tem o selo, e o Libô, no mesmo bairro, se somam à fila de negócios com boas receitas, de prato e finanças.
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Num Rio em que “restaurateurs” protagonizam escândalos ou se veem na berlinda, nos burburinhos, o trabalho da discreta ex-bailarina fala por si. A clientela é composta de frequentadores assíduos, daqueles que se sentem mesmo em casa. Vez ou outra, chega um e-mail ou comentário de rede social de alguém querendo saber o porquê da mudança numa receita ou da saída de um quitute do cardápio. Ela responde. A troca com os que visitam as casas é tão natural quanto a de quando tudo começou, lá atrás, no Miam Miam.
— Cada vez acho esse contato com o público fiel mais importante. Mais até do que mídia social — sustenta. — Às vezes, o prato volta e eu mando lá: “Voltooou!”
O charmosinho point de comfort food da Rua General Góis Monteiro 34 era o espaço onde a publicitária, aos 20 e poucos anos, explorava a cozinha para preparar os pratos de seu bufê recém-criado, o Roberta Ciasca, e para testar as receitas que serviria aos amigos das artes visuais e da música. Antes de inaugurar ali o primeiro restaurante, Roberta usou a cozinha do lugar — antiga casa de sua avó — e sublocou o restante do imóvel de 1890 com “IPTU superalto” para conhecidos. Integraram o grupo de inquilinos, por exemplo, Batman Zavareze, reconhecido artista visual, e Kassin, produtor musical de discos de Caetano Veloso, Erasmo Carlos, Jorge Mautner, também da turma boa de garfo que trabalhava por ali.
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Andre Rodrigues/Divulgação
— Na época, estava na moda a costeleta de cordeiro. A galera amava (risos). Uns pagavam pelo prato do dia; outros pagavam tudo no fim do mês. Era uma fase que não abria para os passantes, só para eles. Eu tinha um namorado que era DJ, uma amiga que era curadora do MAM — lembra a chef formada na Le Cordon Bleu, em Paris, que conseguia equilibrar as contas também com serviços extras para um tradicional bufê carioca.
Ninho de amor
Dani Fortes, artista plástica e amiga de infância, com quem já dividiu casa e aulas de balé, acompanha cada passo. A capacidade de criar e de se multiplicar, ela crê, vem de casa. As características ganham tempero com a sensibilidade e determinação da amiga.
— Digo que a música da Roberta é “Wanna Be Startin' Somethin’”, do Michael Jackson, porque ela está sempre criando algo novo. E sua família preservava o hábito de sentar em volta da mesa. As refeições tinham sempre algo novo. Até o comum era diferente. Às vezes, eu chegava e pedia à mãe dela: “Me dá um prato de arroz?” Até hoje pergunto à Tia Cibele qual é o segredo, e ela diz: “é o amor”.
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O sentimento também foi a semente da criação do Miam Miam, que em 2006 decolou. Roberta teve como sócios, por 15 anos, Danni Camilo e Steph Quinquis. O tempo foi passando, e o restaurante começou a fazer parte da vida de moradores da cidade, conquistou os artistas de novela, a crítica. Na cena gastronômica, também ganhou papéis de protagonismo. No Rio, foi um dos primeiros de fora do nicho árabe a adotar o “mate da casa”. Atualmente, o cardápio em celebração pelos 20 anos resgata xodós do passado: croquetes de frango ao curry e chutney de banana com coco, bolinhas de carne com molho de mostarda, rolinhos de rosbife com rúcula, parmesão. Em 2026, os sócios são Renata Gebara e Thiago Libonati, também parceiros da chef no bar de vinhos Libô.
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Superação de desafios
Durante um bate-papo com a reportagem em sua casa na Urca, Zona Sul do Rio, a vizinha de Roberto Carlos e de mais artistas da música afirma que a calma que muitos atribuem a ela para tocar um negócio visto como arriscado, o da gastronomia, veio com a experiência e a superação dos desafios do mercado. Um deles, à época pós-pandemia, quando muitos funcionários optaram por mudar de área e de ares.
— Na época de bufê, me diziam “ai, Roberta, você é tão calma fazendo eventos”. Eu pensava: “Se ficar nervosa, vou dar com a cabeça na parede”. Porque produção envolve uma sucessão de coisas que podem dar errado. Mas eu tive uma fase mais atacada em restaurante, quando comecei a chefiar equipe. O Miam Miam acabou ficando muito famoso no início, vivia cheio de gente. Eu me cobrava muito. Agora, nada me abala — diz a mãe de uma menina de 10 e de outra de 14 anos, e chefe de quase 80 funcionários.
Na rotina dos restaurantes, Roberta não é só chef executiva; faz o comercial, operacional, eventos — estes cada vez mais importantes para o faturamento. Semanas atrás, ela brincou na internet que a relação com os sócios envolve se amar em escala 7x7, já que trabalham duro e em funções variadas.
— Há pouco tempo, concentrei a organização dos eventos. O Libô só abre à noite. Então, cuido da parte de vender almoço para o corporativo de dia, o Miam Miam faz mini wedding — explica. — O chef executivo teoricamente não faria essas coisas. Como eu gosto muito de criar, estou sempre ali também (com os outros chefs). Isso faz falta.
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Guito Moreto
Equilibrar pratos em eventos ou na cozinha são especialidades da casa, mas a receita desanda se alguém chama a discreta Roberta para desfilar pelo salão:
— Não lido bem com clientes desconhecidos. Fico sem saber o que falar, se me pedem recomendação eu sugiro o cardápio inteiro e a pessoa fica me olhando (risos).
O Rio tem dezenas de chefs, cozinheiros e donos de bar que trocam figurinhas presencialmente ou pelo WhatsApp. Um dos grupos on-line se chama “Cozinha de resistência” e tem participantes como Rafa Costa e Silva, do premiado Lasai; Roberta; e Matheus Duarte, dono da confeitaria Afagá, da Tijuca, que vai de vento em popa. Vêm de lá os convites dos amigos para novos empreendimentos que abrem.
— Estou doida para conhecer o Bar Xavier, da Tijuca, o Afagá... O carioca, apesar do tamanho pequeno do Rio, tem pouco a cultura de se locomover para ir a restaurantes. Eu sou empreendedora de Botafogo desde o dia 1. Sei exatamente onde meus clientes fiéis moram e de onde eles vêm. Sei quem se desloca. A cidade nunca esteve tão aquecida de coisas abrindo. Vale a gente explorar outras partes — aconselha Roberta.
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