Rita Lobo: chamar comida de 'proteína' e 'carbo' abre porta para entrada dos ultraprocessados

 

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Trocar arroz, feijão, carne e salada por “proteína”, “carboidrato” e “gordura” não é apenas uma mudança de vocabulário. Para a chef e apresentadora Rita Lobo, esse fenômeno — cada vez mais comum no discurso sobre alimentação saudável — tem o efeito contrário. Ele esvazia o sentido da comida, reforça desigualdades e abre caminho para a substituição da comida de verdade por produtos ultraprocessados.

O alerta foi feito durante entrevista ao Estúdio CBN, em uma conversa que partiu da crítica ao que Rita chama de nutricionismo: a ideia de olhar para a alimentação apenas pela lente dos nutrientes isolados.

“Quando a gente deixa de falar em arroz, feijão, carne, legumes, e passa a chamar tudo de proteína ou carboidrato, a gente reduz a comida a uma fórmula. Isso abre uma porta para a entrada dos ultraprocessados.”, afirmou.

Segundo ela, esse reducionismo não é neutro. Ao transformar comida em macronutriente, tanto faz se a fonte vem de um prato feito ou de um produto industrializado enriquecido artificialmente. O resultado é um sistema alimentar cada vez mais confuso, em que shakes, barrinhas e iogurtes “proteicos” disputam espaço com refeições completas — muitas vezes com o selo verde e enganoso de "orgânicos".

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Rita também destacou que o problema vai além da nutrição e atinge o modo de vida. A lógica do nutricionismo rompe com o conceito de refeição, que envolve rotina, contexto e sociabilidade. O tradicional prato brasileiro — arroz, feijão, legumes, verduras e alguma proteína — funciona, segundo ela, como uma “fórmula pronta” de equilíbrio alimentar, construída culturalmente e validada pela ciência.

Ao comentar dados recentes sobre obesidade no Brasil e no mundo, a chef relacionou o avanço da doença ao crescimento do consumo de ultraprocessados, mesmo quando esses produtos são “fantasiados” de saudáveis.

“A epidemia de obesidade está diretamente ligada ao aumento do consumo de ultraprocessados. O corpo não reconhece isso como comida, não sacia e vicia. E não é falta de força de vontade, é fisiologia”, disse.

Para Rita Lobo, recuperar a comida de verdade passa também por uma mudança social mais ampla, que inclui divisão de tarefas dentro de casa, menos culpa individual e mais clareza sobre o papel da indústria.

“Comida é comida, ultraprocessado é ultraprocessado, remédio é remédio. Misturar tudo isso interessa a um sistema que lucra com a confusão”, concluiu.