Risco de calor extremo na Copa do Mundo: cerca de 25% dos jogos devem ser disputados em condições preocupantes
Quem está com a escalação garantida para a Copa do Mundo deste ano é o calor intenso, com risco potencial para a saúde jogadores e torcedores. Um estudo internacional apresentado nesta quinta-feira alerta para a possibilidade de temperatura e umidade extremas nos dias de alguns jogos. Entre eles, o segundo jogo do Brasil, contra a Escócia, em 24 de junho; e a própria final do evento, em 19 de julho.
O estudo é do World Weather Attribution (WWA, na sigla em inglês), um consórcio internacional de cientistas, liderado pelo Imperial College London, o Centro de Clima da Cruz Vermelha e o Instituto de Meteorologia da Holanda. O WWA já publicou mais de 120 estudos e é referência em análises climáticas.
A Copa, que vai de 11 de junho a 19 de julho, pega em cheio o verão do Hemisfério Norte, que inicia em 21 de junho. E o verão deste ano segue a tendência de calor observada nas últimas décadas. O risco de calor extremo quase dobrou desde a Copa dos EUA de 1994 devido às mudanças climáticas, informa o WWA.
A análise também mostra que as mudanças climáticas causadas pela ação humana tornaram essas condições significativamente mais prováveis, ultrapassando os limites de desempenho esportivo seguro e da segurança dos torcedores tanto em estádios a céu aberto quanto em eventos de fãs ao ar livre. Os cientistas destacaram a necessidade de medidas de proteção extras contra o calor para jogadores e torcedores. E embora três dos 16 estádios sejam refrigerados, mais de um terço dos jogos de alto risco estão programados em locais muito quentes e sem ar-condicionado, incluindo Miami, Kansas City, Nova York e Filadélfia.
Os cientistas avaliaram a probabilidade de cada um dos 104 jogos da Copa do Mundo FIFA 2026 ocorrerem em condições que excedam diretrizes de segurança estabelecidas pela FIFPRO (Fédération Internationale des Associations de Footballeurs Professionnels), o sindicato mundial dos jogadores de futebol. E compararam o risco com o da Copa de 1994, a última vez que os EUA sediaram o torneio. O diretor médico da FIFPRO, Vincent Gouttebarge, afirmou que os cálculos para estimar a probabilidade de jogos da Copa do Mundo FIFA 2026 serem disputados em condições de alta temperatura estão alinhados com os cálculos da própria FIFPRO, publicados em 2023.
— Essas estimativas justificam a necessidade da implementação de uma série de estratégias de mitigação, para proteger a saúde e o desempenho dos jogadores quando expostos a condições quentes — declarou em entrevista on line.
Chama a atenção que a análise considerou apenas a variabilidade do clima. Porém, com um El Niño (fenômeno climático que eleva a temperatura) previsto para começar possivelmente em junho ou julho, a temperatura poderá ser ainda maior do que a estimada pelo WWA. De acordo com o WWA, 25% de todos os jogos terão probabilidade de ocorrer em condições de 26°C de Temperatura de Globo de Bulbo Úmido (WBGT) ou superior.
Os riscos do calor para os atletas
São condições perigosas para esforço físico intenso, como o do futebol. E também são consideradas o limite para jogos sem pausas extras da FIFPRO. Acima dele, o corpo já não consegue mais se resfriar direito. O suor é o principal mecanismo de resfriamento do corpo humano, que também libera calor por irradiação através da pele. A umidade elevada impede que o excesso de calor contido no suor evapore. E ele fica retido sobre a pele, aumentando ainda mais o desconforto e os riscos para o organismo.
Acima disso, o risco de hipertermia e choque decorrentes do calor dobra. Esse índice considera temperatura, umidade, radiação do sol e vento. Ele é usado por fisiologistas como medida principal da capacidade do corpo de se resfriar. Os 26C de índice equivalem a cerca de 32C com cerca de 85% de umidade ou 35C com 65% de umidade. Essas condições têm sido frequentes no verão do Nordeste e Sudeste dos EUA.
E ao menos cinco jogos são esperados com WBGT de 28°C ou mais (equivalente a 38°C em calor seco ou 30°C em alta umidade). Esse nível é considerado inseguro para jogo pela FIFPRO. E a recomendação costuma ser adiamento ou medidas extras de segurança para a saúde.
Além de Brasil e Escócia e da final da Copa, o WWA destacou dois jogos no dia 16 de junho: França x Senegal e Argentina x Argélia. Além disso, Tunísia x Holanda, em 25 de junho. O WWA salientou que “diretrizes claras e objetivas são essenciais para proteger tanto os jogadores quanto os torcedores se ocorrer calor extremo durante o torneio.”
Chris Mullington, consultor do Imperial College Healthcare NHS Trust, esclareceu que durante a Copa o risco de calor não deve ser avaliado apenas pela temperatura do ar. Um dia de 30°C em condições secas e com vento é muito diferente de um dia de 30°C com alta umidade, sol forte e pouco vento. A alta umidade reduz a evaporação do suor, limitando o principal mecanismo de resfriamento do corpo.
— Acima de 28°C de bulbo úmido, o risco de doenças graves relacionadas ao calor se torna mais preocupante. Não apenas para os jogadores, mas também para as centenas de milhares de torcedores nos estádios e festivais de fãs ao ar livre. O choque por calor é potencialmente fatal, e pessoas mais velhas e aquelas com condições médicas preexistentes são particularmente vulneráveis — afirmou Mullington, durante a apresentação do estudo.
