Rios que variam 18 metros, calor de 40°C e cabos submersos: a tecnologia

Rios que variam 18 metros, calor de 40°C e cabos submersos: a tecnologia 'à prova de Amazônia' que leva internet pela floresta

Fonte: Bandeira da fonte

Levar internet de alta capacidade para cidades da Amazônia envolve desafios que dificilmente aparecem em um projeto convencional de telecomunicações.
Há rios cujo nível varia até 18 metros entre os períodos de cheia e seca, temperaturas que passam dos 40 °C, umidade elevada, longas distâncias entre municípios e trechos em que cabos de fibra óptica precisam ser instalados no fundo dos rios.
Foi para lidar com esse cenário que uma infraestrutura praticamente desenhada em torno das particularidades da região começou a avançar pela Amazônia.
Desde 2021, cerca de 4 mil quilômetros de infovias foram implantados pela EAF (Entidade Administradora da Faixa), segundo Gina Marques, presidente da entidade.
A rede combina cabos de fibra óptica submersos com estruturas chamadas Centros Móveis de Alta Disponibilidade (CMADs), desenvolvidas para receber o sinal que percorre os rios e distribuí-lo nos municípios.
Os CMADs foram projetados para resistir às condições amazônicas.
Instalados em contêineres, contam com blindagem térmica para suportar temperaturas superiores a 40 °C, proteção contra a alta umidade e vedação reforçada para evitar a entrada e proliferação de insetos e outros organismos.
Também possuem monitoramento remoto, sistema de segurança, suporte de energia solar e baterias de lítio para manter a operação diante de falhas no fornecimento local de eletricidade.
A tecnologia faz parte do Norte Conectado, programa que utiliza recursos relacionados às obrigações estabelecidas no leilão do 5G para ampliar a infraestrutura de telecomunicações na Região Norte.
A implantação é acompanhada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), por meio do Gaispi.
Depois de concluídas, as infovias são entregues ao Ministério das Comunicações.
Mergulhador desce no rio para instalação de cabos
Divulgação
A lógica da infraestrutura começa muito antes de o cabo chegar à água.
Antes de cada lançamento, uma embarcação passa cerca de 60 dias percorrendo a rota planejada com profissionais responsáveis por estudar o melhor caminho.
São consideradas condições ambientais e obstáculos como áreas de garimpo, rochas e madeira no rio.
Há ainda um acordo com a Marinha para evitar que embarcações lancem âncoras sobre os cabos.
Definida a rota, a fibra é lançada e ancorada no fundo do rio.
Em determinados trechos, é necessário enterrá-la.
Segundo Marques, a EAF está utilizando uma máquina trazida da Inglaterra para esse tipo de operação.
Evitar danos ao cabo é também uma questão econômica.
De acordo com a executiva, fazer uma emenda depois de um rompimento custa centenas de milhares de reais.
Por isso, sensores estão sendo instalados ao longo da infraestrutura para permitir que a equipe identifique rapidamente o ponto de uma ruptura.
A velocidade da resposta é importante porque há dois cenários bastante diferentes.
Se o cabo rompido puder ser localizado e recuperado, é possível fazer a emenda.
Se ele for perdido no rio, pode ser necessário lançar um novo trecho.
O cabo submerso é apenas uma parte da operação.
Quando a fibra chega a uma cidade atendida pelo projeto, entra em cena o CMAD.
A estrutura recebe o sinal transportado pela infovia e o conecta à Rede Metropolitana Óptica (RMO) construída no município.
Em uma cidade como Manicoré, no Amazonas, por exemplo, essa rede local permite conectar pontos de utilidade pública definidos no projeto, como hospitais, escolas e delegacias.
A infraestrutura também serve de base para que provedores ofereçam conexão aos usuários finais.
Os operadores e provedores são selecionados em consórcios licitados pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP).
Eles ficam responsáveis por manter a infraestrutura e comercializar o acesso à internet na região.
Cada CMAD possui 20 canais de transmissão com capacidade de 200 Gbps cada.
Ao todo, o projeto prevê 43 unidades distribuídas pela Região Norte.
Até agora, 23 foram instaladas, em municípios do Pará, Amapá, Roraima e Amazonas.
Uma segunda etapa prevê outras 20.
Os equipamentos foram desenvolvidos com fornecedores locais, e os CMADs são produzidos na Zona Franca de Manaus.
Além das características de proteção contra calor e umidade, a instalação também considera as cheias sazonais dos rios.
A logística começa com a construção de uma base de concreto no local onde a unidade será instalada.
Os contêineres saem de Manaus em balsas e, ao chegarem às localidades, são descarregados e posicionados com o auxílio de caminhões Munck.
Uma obra determinada pelo calendário dos rios
As condições ambientais não influenciam apenas o desenho da tecnologia.
Elas determinam quando a própria obra pode acontecer.
Na Infovia 05, que liga Porto Velho a Autazes, no Amazonas, a EAF precisou programar o lançamento do cabo até julho.
O motivo era a chegada do período de seca: se a operação avançasse demais no calendário, havia o risco de a embarcação utilizada para lançar a fibra chegar ao final do trajeto e não conseguir retornar devido ao nível do rio.
Embarcações fazem instalação dos cabos de fibra ótica
Divulgação
Há obstáculos que surgem também conforme a rede avança.
Nas futuras infovias 06 e 08, por exemplo, existem trechos com mais de 500 quilômetros entre determinados pontos.
Segundo Marques, essa distância criou um problema técnico para a replicação do sinal, que precisou ser solucionado antes que o projeto pudesse avançar para a análise de viabilidade econômico-financeira.
Em outro trecho, na direção da Colômbia, a equipe encontrou uma área rochosa pela qual a embarcação não conseguia passar.
Foi necessário buscar uma rota alternativa.
Essa combinação de condições ambientais, distâncias e infraestrutura disponível faz com que parte das soluções seja desenvolvida conforme novos obstáculos aparecem.
Há ainda um desafio humano.
A EAF prevê treinar mil pessoas nas capitais da Região Norte para atuar na operação e manutenção da infraestrutura.
Segundo Marques, a capacitação deverá ocorrer após o período eleitoral.
Próximas infovias
A expansão atual tem origem em um projeto que começou antes da criação da EAF.
Duas infovias haviam sido implantadas no âmbito do PAC, incluindo trechos executados pelo Exército Brasileiro.
Depois do leilão do 5G e da criação da entidade, novos projetos foram definidos com recursos aportados a partir do leilão.
Para a presidente da EAF, isso passa pela atuação dos provedores e pela chegada de uma internet estável aos usuários.
A entidade também prevê ações de letramento digital e um marketplace voltado a pequenos produtores da região.
A expectativa é que a conectividade possa ampliar o acesso a educação, telemedicina e oportunidades comerciais para atividades como produção de açaí e artesanato.
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