Rio teve ao menos três ações policiais contra suspeitos de violência sexual em menos de 24h; 'Exposição de abusadores encoraja outras vítimas', diz delegada

 

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Na terça-feira, a Vara da Infância e da Juventude da capital fluminense manteve a internação do menor apontado como o mentor de um estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos em Copacabana, em janeiro. A informação pode até trazer alívio para meninas e mulheres que se sentem vulneráveis todos os dias. Porém, logo a realidade assombrosa para elas se impõe, com novos casos de violência sexual vindo à tona em sequência. No mesmo dia, um advogado foi preso suspeito de se aproveitar de um projeto social para abusar sexualmente de menores no Rio.

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E não para por aí. Ainda na terça, três adultos foram presos e um adolescente de 17 anos foi apreendido por suspeita de estupro coletivo de duas adolescentes de 13 anos em Valença, no Sul Fluminense. E, pela manhã, em Duque de Caxias, uma mulher de 33 anos foi detida suspeita de abusar sexualmente das próprias filhas e compartilhar registros dos crimes na internet. No mês passado, uma adolescente de 13 anos denunciou ter sido vítima de estupro coletivo por traficantes em São João de Meriti.

A sucessão de episódios do gênero causa preocupação e gera questionamentos. Por que tantos casos têm ocorrido em curto espaço de tempo? O que o cenário atual representa? Para a delegada assistente da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV), Maria Luiza Machado, o que está acontecendo é um processo de encorajamento de outras vítimas a partir de episódios que se tornaram públicos.

— Quanto mais vítimas aparecem, quanto mais abusadores são expostos, quanto mais casos vêm à tona, mais outras vítimas percebem que elas passaram pela mesma situação e se encorajam a denunciar. Depois do do estupro coletivo em Copacabana, por exemplo, recebi uma denúncia na delegacia de uma pessoa que viu o caso na televisão e entendeu que também tinha sido vítima de um abuso sexual. Então, quanto mais se fala sobre isso, mais as pessoas passam a ter conhecimento do que se trata e que não é algo que acontece só com o outro. Todos, especialmente as mulheres, estão suscetíveis a isso — explica a delegada.

Maria Luiza Machado, portanto, rejeita a tese de que esteja ocorrendo uma epidemia de violência sexual:

— Infelizmente, eu não acredito que, anteriormente, os casos não aconteciam. Acredito que eles só não eram comunicados à polícia no mesmo nível que é hoje. A criança, o adolescente e a mulher são um público vulnerável desde sempre.

Como denunciar

Um dos caminhos para denunciar casos de violência sexual é comunicá-lo à delegacia mais próxima, onde será feito o registro de ocorrência e solicitação de exame de corpo de delito.

— Todas as delegacias do Rio de Janeiro são abertas para o recebimento de qualquer tipo de denúncia. Em relação à violência contra a mulher e à violência contra a criança, contamos com delegacias especializadas, que são as DEAMs (Delegacias de Atendimento à Mulher), e a DCAV (Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima). Então, tendo ciência de qualquer caso nesse sentido, eu recomendo que as pessoas procurem a delegacia para que o caso seja regularmente apurado e se, for o caso, seja solicitada uma medida protetiva contra o agressor, que pode resultar no afastamento efetivo — orienta a delegada.

Canais oficiais de denúncia e atendimento:

180: Central de Atendimento à Mulher

190: para acionar a Polícia Militar em caso de emergência

Disque Denúncia: (21) 2253-1177 (telefone e Whatsapp)

Ações policiais contra violência sexual

1 - Advogado preso

Maria Luiza é responsável pelas investigações que levaram à prisão do advogado. Ele é suspeito de ter abusado sexualmente de quatro menores de idade, e de ter produzido e armazenado vídeos e fotografias dos abusos. Segundo a DCAV, o homem chegava até as crianças e adolescentes através de um projeto de assistência jurídica do qual ele fazia parte. Ele foi detido dentro de casa, no bairro do Grajaú, na Zona Norte do Rio, após ação de inteligência.

Advogado é preso suspeito de estuprar quatro menores no Grajaú

Reprodução/TV Globo

A investigação teve início a partir da troca de informações com organismos internacionais, que apontavam a produção e o armazenamento de imagens de pornografia infantil em aparelhos eletrônicos vinculados ao homem. A partir de um trabalho investigativo, cruzamento de dados e análise de inteligência, os agentes da DCAV identificaram duas vítimas, de 10 e 14 anos, ambas moradoras de comunidade do Rio, com indícios ainda da existência de outras vítimas.

— De acordo com o conteúdo que já temos, sabemos que foram quatro vítimas. Só que, até o momento, só identificamos duas. A partir de agora, vamos submeter o aparelho celular dele e uma câmera fotográfica com um cartão de memória que foram apreendidos à perícia. Vamos entender se existem outras vítimas e ouvir as já identificadas, para ver se elas também trazem relatos e se conhecem algumas outras vítimas — diz a delegada Maria Luíza Machado.

Segundo a DCAV, o criminoso explorava a carência financeira de famílias em vulnerabilidade social, apoiadas por um projeto de assistência jurídica do qual ele fazia parte. Ele usava da relação de confiança da sua posição como advogado para aliciar crianças e adolescentes.

O acusado também atua como professor universitário de Direito Penal e exerce atividades no Núcleo de Prática Jurídica numa universidade privada, cujo nome não foi divulgado. Com esse trabalho, ele mantinha contato direto com famílias em situação de vulnerabilidade social e econômica atendidas pelo grupo. Como forma de atrair e manter a proximidade com as vítimas, ele oferecia pequenos benefícios, especialmente lanches e alimentos, criando um ambiente de aparente informalidade e confiança.

As vítimas frequentavam a residência do criminoso, local onde os abusos sexuais eram praticados e registrados em vídeo e fotos. Nos materiais produzidos, o próprio homem aparece de forma evidente interagindo com as crianças e adolescentes durante os atos.

Na ação desta terça-feira, os agentes apreenderam substâncias entorpecentes, que estão sendo analisadas, e cumpriram o mandado de prisão temporária por estupro de vulnerável e produção e posse de pornografia infantil.

2 - Estupro coletivo em Valença

Em Valença, no Sul Fluminense, três adultos foram presos e um adolescente de 17 anos foi apreendido por suspeita de estupro coletivo de duas adolescentes de 13 anos. Segundo a Polícia Civil, os suspeitos foram levados para a 91ª DP (Valença) por policiais militares. As vítimas foram atendidas e passaram por exames que comprovaram o crime.

Segundo a PM, policiais do comando do 10º BPM (Barra do Piraí) foram acionados para verificar uma denúncia de violência sexual contra uma adolescente, na última segunda-feira. As equipes conseguiram localizar quatro suspeitos, que foram encaminhados à delegacia. Com um deles, foram apreendidas drogas. Outro possível participante do crime ainda não foi localizado.

Os três suspeitos maiores de idade foram autuados em flagrante por estupro de vulnerável e exploração sexual de criança, adolescente ou vulnerável. Já o adolescente foi autuado por fato análogo aos crimes de estupro de vulnerável e tráfico de drogas.

Em trabalhos de inteligência, os agentes colheram depoimentos e fizeram exames que comprovaram a materialidade do fato. Diligências estão em andamento para localizar um quinto envolvido, já identificado.

3 - Mãe apontada como abusadora

Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, uma mulher de 33 anos foi presa pela Polícia Federal na manhã desta terça-feira, suspeita de abusar sexualmente das próprias filhas e compartilhar registros dos crimes na internet. A ação faz parte da Operação Guardiões, deflagrada para reprimir crimes de estupro de vulnerável e a produção, armazenamento e disseminação de mídias contendo cenas de abuso sexual infantil online.

Policiais da Delegacia de Polícia Federal em Nova Iguaçu cumpriram um mandado de prisão preventiva e dois mandados de busca e apreensão em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Durante a operação, o celular da investigada foi apreendido e será submetido à perícia técnica criminal.

Segundo a PF, as vítimas são as duas filhas da própria investigada, de 4 e 9 anos de idade. As crianças foram identificadas durante a investigação e encaminhadas para acompanhamento junto ao Conselho Tutelar.

As investigações tiveram início em 2025, quando levantamentos de dados e informações de inteligência apontaram a publicação de arquivos contendo cenas de abuso sexual infantil em fóruns da chamada "dark web", uma parte da internet que exige ferramentas específicas de acesso e costuma ser utilizada para atividades ilícitas.

A partir da análise desses materiais, os investigadores identificaram indícios de que a própria mãe das crianças produzia os vídeos e os compartilhava tanto nesses fóruns quanto em aplicativos de mensagens. Com as provas reunidas ao longo da investigação, a Justiça autorizou a prisão preventiva da suspeita e as buscas realizadas nesta terça-feira.

A mulher responderá pelo crime de estupro de vulnerável, além dos crimes de produção, armazenamento e compartilhamento de mídias contendo cenas de abuso sexual infantil.

Alerta

A PF também reforça a importância de monitorar e orientar crianças e adolescentes no ambiente digital e fora dele, como forma de prevenir crimes desse tipo. Entre as recomendações estão conversar abertamente sobre os perigos do ambiente virtual, orientar sobre o uso seguro de redes sociais, jogos e aplicativos e acompanhar de perto as atividades online dos jovens.

Segundo a corporação, mudanças repentinas de comportamento — como isolamento ou segredo em relação ao uso do celular e do computador — podem ser sinais de alerta.

A orientação é que crianças e adolescentes sejam incentivados a procurar ajuda sempre que enfrentarem contatos inadequados, reforçando que a informação e o diálogo são instrumentos essenciais para garantir a segurança e o bem-estar dos jovens.