Todos os dias, antes de começar os atendimentos, o cônego Luiz Carlos Pereira, de 60 anos, abre a maleta preta que o acompanha há três décadas e confere itens indispensáveis para sua missão: um pote de sal grosso, um terço, um rosário, um aspersório com água benta e o cordão de São Francisco, usado, segundo a tradição católica, para “amarrar o mal”.
O objeto mais precioso da lista é um livro gasto pelo manuseio, de capa dura vermelha, com anotações e trechos em latim, intitulado “Ritual de exorcismos e outras súplicas”.
Pereira é um dos 17 padres exorcistas da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.
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Com a maleta, percorre residências e igrejas, onde atende de 30 a 40 pessoas por mês.
Muitas enfrentam questões relacionadas a luto, depressão, vício e conflitos familiares e atribuem o que sentem a fenômenos sobrenaturais.
— A possessão é a manifestação visível do maligno.
Mas não é só a pessoa chegar dizendo que precisa de um exorcismo.
Primeiro conversamos, buscamos a origem do sofrimento, orientamos na oração e fazemos um discernimento para perceber até onde realmente existe necessidade do rito — explica Luiz Carlos, exorcista do Vicariato Episcopal de Campo Grande.
Detalhes da Igreja Matriz Nossa Senhora das Graças, em Campo Grande.
Funcionários do local contam que o cônego Luiz Carlos Pereira, exorcista pelo Vicariato Episcopal de Campo Grande, benzeu as paredes com água benta e óleo há aproximadamente um ano e, ainda assim, a cruz permanece visível.
Luiz costuma atender fiéis em busca de orientação espiritual nessa
Marina Calderon
A Arquidiocese de São Sebastião concentra hoje o maior número de sacerdotes exorcistas entre as capitais brasileiras.
Eles são distribuídos por 13 vicariatos episcopais, que abrangem as 299 paróquias da cidade.
O Vaticano, sede da Igreja Católica, estabelece critérios rigorosos para a sua prática.
O chamado “exorcismo maior” só pode ser realizado por sacerdote autorizado.
Luiz Carlos Pereira é pároco da Igreja Nossa Senhora das Graças, em Campo Grande.
Por lá, pequenas cruzes que ele afirma ter feito com água benta, nas paredes e nas imagens de santos, permanecem visíveis há meses.
O líquido é aspergido como sinal de purificação.
No papel de padre exorcista, o cônego pode precisar de outros itens da maleta.
— Há pessoas que passam mal, falam em línguas desconhecidas, apresentam força incomum ou a voz fica mais grave.
Mas levitar, subir pelas paredes, quebrar o próprio corpo são fantasias dos filmes de terror — observa o religioso.
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De fato, o ritual que se propõe a expulsar demônios, maus espíritos, ganhou outra proporção quando virou roteiro de cinema, a partir do clássico “O exorcista”, de 1973.
Longe das telas, a Igreja, antes de autorizar o chamado “rito solene”, orienta que a pessoa passe por avaliações clínicas, psicológicas e psiquiátricas.
Na maioria dos casos, a explicação está em transtornos bem terrenos.
Força incomum
O testemunho da aposentada Antônia Martins Melo, de 84 anos, moradora do Catete, é outro.
Católica, devota de Nossa Senhora da Glória, ela e o marido deram aos quatro filhos nomes de santos.
Um deles, Domingos, que hoje tem 62 anos, é empresário e mora em Nova York, causou muita preocupação.
Desde os 3 anos, tinha crises de agressividade, falava palavras incompreensíveis e demonstrava força incomum.
— Eu sempre achei que ele tivesse alguma coisa maligna.
Não era um comportamento normal.
Para fazê-lo dormir, eu rezava a oração de São Miguel Arcanjo e fazia o sinal da cruz nas costas dele — lembra Antônia.
Detalhes da Igreja Matriz Nossa Senhora das Graças, em Campo Grande.
Funcionários do local contam que o cônego Luiz Carlos Pereira, exorcista pelo Vicariato Episcopal de Campo Grande, benzeu as paredes com água benta e óleo há aproximadamente um ano e, ainda assim, a cruz permanece visível nos mármores e paredes.
Luiz costuma atender fiéis em busca de orientação espiritual nessa Igreja.
Foto: Marina Calderon / Agência O Globo.
Marina Calderon
Depois de passar por psicólogos e psiquiatras, a família procurou um padre exorcista.
O sacerdote já conhecia o caso e, após uma missa de libertação, chamou a família para a sacristia.
Como a situação já havia sido avaliada, realizou um exorcismo simples, apenas com orações.
Domingos conta que se debatia, gritava, chorava e tentou cuspir e atacar o padre.
O sacerdote colocou um terço sobre sua testa e começou a rezar.
Aos poucos, ele se acalmou até adormecer.
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Ana Branco
O padre Luiz Carlos Pereira se lembra do atendimento realizado em 2024, em uma mansão no Recreio dos Bandeirantes.
Os proprietários disseram que móveis mudavam de lugar, luzes acendiam e apagavam sozinhas e as brigas familiares haviam se tornado constantes.
A família chegou a deixar a casa e se hospedar em um hotel.
— Eles acreditavam que havia uma presença na casa e queriam vender o imóvel, mas antes desejavam purificar o ambiente — conta ele.
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‘Fumaça saindo do chão’
Logo na entrada, o religioso diz ter sentido uma presença incomum.
Com a estola e o rosário nas mãos, percorreu os cômodos por duas horas, espalhando sal grosso e água benta enquanto rezava as orações de São Miguel Arcanjo, acompanhado do exemplar do seu livro sagrado.
— Houve um momento em que, ao lançar o sal grosso, vimos uma fumaça saindo do chão.
Foi algo que marcou todos os presentes — conta ele, antes de afirmar que, naquela mesma noite, a família conseguiu voltar a dormir na casa e, meses depois, o imóvel foi vendido.
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Geovane Ferreira Silva, pároco da Igreja Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, é responsável pela formação de novos sacerdotes e exorcistas do Vicariato Episcopal Sul.
Ele explica que há formação específica para padres interessados no tema, ligada à Associação Internacional dos Exorcistas, em Roma.
No Rio, três cursos reuniram cerca de 260 sacerdotes.
— Isso não significa que todos tenham se tornado exorcistas.
O curso oferece conhecimento, mas a designação depende exclusivamente do bispo.
O objetivo não é caçar demônios, e sim prestar um serviço pastoral responsável e realizar um discernimento cuidadoso de cada situação — afirma.
O cônego Luiz Carlos Pereira, exorcista pelo Vicariato Episcopal de Campo Grande, mostra uma pequena maleta com objetos utilizados no ritual de exorcismo, como um ponte de arroz , um terço, um rosário, o livro "Ritual de Exorcismos e outras Súplicas" entre outros, na Igreja Matriz Nossa Senhora das Graças, em Campo Grande.
Foto: Marina Calderon / Agência O Globo.
Marina Calderon
Em nota, a Arquidiocese do Rio afirma que “os sacerdotes exercem a função de acordo com as normas da Igreja, com zelo e dedicação, como parte do trabalho pastoral de acompanhamento dos fiéis”.
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