Rio recebe 25% de visitantes hispânicos a mais este ano; argentinos são maioria
A mistura do espanhol com o português virou a linguagem oficial da celebração a Shakira no show do Todo Mundo no Rio, em Copacabana. Aos fãs nacionais juntaram-se verdadeiras caravanas de turistas latino-americanos entusiasmados com o baile da colombiana que coleciona hits nas paradas mundiais. Nessa efervescência cultural, há dias já havia ambulante que abordava os clientes com um “hola, que tal”. E nas conversas, a expressão “gracias” era quase tão comum quanto o brasileiríssimo “tudo bem”. Mas não é só nesta edição do megaevento de maio que o “portunhol” tem se integrado ao burburinho da cidade. “El bla bla bla”, assim, sem acento, como dizem os hispanofalantes, é resultado de uma busca cada vez maior dos latinos pelo turismo no Rio.
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Argentina, Chile e Uruguai ocupam, respectivamente, o primeiro, o segundo e o quarto lugar no ranking de maiores emissores de turistas ao estado. Em 2026, só os “hermanos” já são 40,25% do total de visitantes internacionais no Rio. De janeiro a março, passearam por aqui 355.990 argentinos, de um total de 884.535 estrangeiros de diversos países, segundo dados da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur).
Já os desembarques oriundos de toda a América Latina no primeiro trimestre de 2026 somaram 606,7 mil, um aumento de 25,5% em comparação aos primeiros três meses de 2025, quando foram 483.434. É o que ajuda a espalhar uma profusão de sotaques em espanhol em Copacabana, Leme, Ipanema, Lapa e outros bairros do Rio.
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Turista argentina Dianela Fernández. em frente ao Copacabana Palace, exibe leques com trechos de músicas de Shakira
Thayná Rodrigues
Eles adotaram até o Pix para fazer seus pagamentos
O jeitão de se espraiar pela cidade também chama atenção. Argentinos, colombianos, bolivianos, chilenos e uruguaios se sentem tão familiarizados por aqui que até o Pix foi incorporado ao dia a dia de seus passeios: eles usam o Prex, um aplicativo que permite que o pagamento instantâneo brasileiro seja efetuado.
— Eles carregam com saldo na moeda de cada país, e o app funciona com o Pix — diz o colombiano Juan Sebastian Vanegas, de 31 anos, que até pouco tempo era turista e agora busca se regularizar para viver em solo carioca, depois de conhecer o marido, seu conterrâneo, numa festa na Cidade Maravilhosa.
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Já no clima da identificação tanto com a bandeira latina quanto com a feminista, a professora de dança Dianela Fernández, de 20 anos, diz ter escolhido o Rio para passar as férias com o irmão, Thiago Fernández, atraída pelas paisagens. A empolgação ficou ainda maior quando percebeu que suas datas coincidiriam com as de Shakira no Todo Mundo no Rio. Nesta semana, ela era uma das dezenas de curiosos na calçada do Copacabana Palace à espera de uma aparição da Loba.
— Shakira e outras cantoras latinas não buscam mais copiar a maneira americana de fazer música. Ela leva com orgulho o nome da América Latina, com seu próprio ritmo, dança. Isso fortalece a cultura latino-americana no mundo. Além disso, a turnê Las Mujeres Ya No Lloran mostra que as mulheres não dependem de um relacionamento para se sentirem realizadas. Eu mesma foco nos meus projetos profissionais — diz a moradora de Buenos Aires, que também gosta de ouvir artistas brasileiras.
A identificação musical resvala na territorial e possibilita mais intercâmbios:
— Antes, cantores se modificavam para se inserir no mercado internacional, faziam músicas em inglês. Hoje, cantam mesmo em espanhol, em português. A primeira música da Anitta que conheci foi um funk, em português — frisa.
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Diárias de hotéis mais caras não afastam casal mexicano
A onda de latinos na cidade impulsionou uma série de adaptações em restaurantes da cidade. A delicatessen Empório Jardim, com unidades em Botafogo e em Ipanema, acelerou a impressão de cardápios em espanhol. Isso vai ajudar os turistas menos familiarizados com a língua portuguesa, como os irmãos Jorge e Paulina Argueta, do México. Embora ele tenha estudado por um período em Portugal, seu vocabulário ainda deixa a desejar. Mesmo assim, os jovens de 23 e 25 anos farão uma imersão prolongada no Rio.
— Viemos na segunda-feira e vamos embora na próxima quinta. E decidimos vir mesmo com os valores de hotéis mais caros por causa do show da Shakira. Alguns hotéis estavam até 35% mais caros — disse o jornalista.
O Observatório do Turismo Carioca, da Secretaria municipal de Turismo, divulgou que, além do aumento no número de visitantes latino-americanos, nos últimos anos o tempo de permanência desses turistas na cidade tem aumentado. “A frequência média de permanência subiu 10,3% de 2024 para 2025”, informou.
Os bailarinos de Shakira que o digam. Parte do corpo de baile chegou um ou dois dias antes da artista principal. Por Copacabana, foram a mercadinhos de frutas e a comércios populares. Uma ambulante que monta banca na Praça General Tibúrcio, em frente ao Pão de Açúcar, conta que as blusinhas nas cores brasileiras fazem bastante sucesso com mulheres que consomem cultura pop:
— Muitas jovens compram para tirar foto. Latinas, assim como gringas da Europa e dos Estados Unidos.
A busca por hospedagem também tem a mais alta demanda, entre as nacionalidades estrangeiras, por visitantes das capitais da América Latina. Segundo informações do Airbnb, após os brasileiros, se destacaram, para reservas no fim de semana do feriado de 1º de maio, turistas de Santiago (Chile), Buenos Aires (Argentina), Montevidéu (Uruguai), Lima (Peru) e Bogotá (Colômbia).
Há espaço ainda para clientes que não querem perder tempo procurando hospedagens; preferem pagar agências de turismo personalizado que indiquem casas confortáveis e compatíveis com seus interesses. Isis Grossi, CEO do Grossi Group, especializada em viagens privadas de alto padrão, conta ter notado peculiaridades nos clientes latinos que procuraram sua empresa para fazer as reservas.
— Os grupos são grandes. Parece que os argentinos, assim como os uruguaios, se juntam para viajar. Os que vieram desta vez eram em sua maioria homens de 25 a 45 anos para ficar em casas em Ipanema, Leblon e Copacabana — diz.
Para o outono deste ano, a prefeitura estima um crescimento de 10%, em comparação com o mesmo período — entre 20 de março e 21 de junho — do ano passado. A expectativa é que 3,5 milhões de turistas visitem a cidade nesse período.
— O crescimento do turismo no outono reforça o Rio como um destino desejado ao longo de todo o ano. Esse resultado é fruto da construção do calendário Rio o Ano Inteiro, que mantém a cidade ativa em todas as estações, movimenta diferentes setores e amplia as oportunidades — afirma Bernardo Fellows, presidente da Riotur.
Estimativas das secretarias municipais de Desenvolvimento Econômico e Turismo, além da Riotur, indicam que o potencial impacto econômico dos turistas em geral no outono deste ano será de R$ 7,6 bilhões.
Do Bondinho ao helicóptero radical, as experiências para conhecer o Rio
O casal de mexicanos José Orozco, de 32 anos, e Arcelia Cedillo, de 61, está no Brasil pela primeira vez.
— Já demos a volta ao mundo, praticamente, e agora viemos conhecer o Brasil e a Argentina — afirma a contadora.
Os dois, que estão hospedados em um hotel de luxo na orla, contrataram um guia particular para conhecer o Pão de Açúcar, na quarta-feira, e, nos dias seguintes, subiram a Favela da Rocinha e o Cristo Redentor. Também está nos planos um passeio radical de helicóptero doors off, com as portas abertas. O tour de 30 a 60 minutos custa de R$ 1.020 a R$ 1.500 por pessoa. Apesar dos altos investimentos, eles relatam surpresa por terem encontrado passagens baratas para o país:
— Pagamos, os dois, por volta de US$ 600 (cerca de R$ 3 mil) — diz Orozco, que trabalha como comerciante em seu país.
Já os argentinos Walter Burgos, de 56 anos, e Claudia Llanan, de 52, aproveitaram uma escala de seis horas na cidade para ir a um único ponto turístico, o Pão de Açúcar, e voltar para o Aeroporto do Galeão rumo a Buenos Aires. Ele trabalha como motorista de Uber, e ela, com enfermagem. Nas poucas horas na cidade, o casal desembolsou cerca de R$ 500, com os ingressos para o Bondinho e o transporte.
De acordo com um levantamento da Embratur em parceria com a Visa e a Ipsos, em 2025, o gasto médio diário de um turista dos Estados Unidos é de R$ 1.659. Já os vizinhos da América do Sul costumam gastar por volta de R$ 617.
O Visit Rio indica que os atrativos mais procurados pelos turistas latinos ainda têm no ranking Cristo Redentor, Pão de Açúcar, praias da Zona Sul e vivências culturais. “Os esforços do Visit Rio e parceiros têm priorizado mercados-chave da América Latina, especialmente Argentina, Chile, Colômbia e Peru, considerando volume de visitantes, conectividade e potencial de crescimento”, informou a fundação de promoção do turismo.
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