Rio ganha nesta quarta-feira centro cultural dedicado à memória e à arte negra, com exposição de artista da Rocinha
Com uma exposição na qual o artista plástico Geleia da Rocinha faz uma releitura de oito retratos de africanos escravizados feitos originalmente em 1869 pelo fotógrafo alemão Alberto Henschel, em Recife, será inaugurada nesta quarta-feira, às 17h, o Centro Cultural Pretos Novos, na Gamboa. O novo espaço dedicado à memória e à arte negra e que se integra ao circuito da herança africana naquela região da cidade, será aberto numa data que tem uma dupla simbologia: 0s 21 anos da fundação do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), inaugurado em 2005, e os 138 anos da assinatura da Lei Áurea, em 1888.
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O novo centro cultural vai funcionar num sobrado de dois andares, na rua do Livramento, 119. Na parte de baixo, num espaço com 160m², funcionará uma galeria de arte que receberá prioritariamente trabalhos de artistas negros e periféricos, além de espaço para saraus e um clube de leitura. Na parte de cima, distribuídos numa área de 200 m² estarão as salas de aulas, onde serão ministrados cursos sobre a história e a cultura negra, além de auditório, estúdio de podcast e um espaço para palestras.
O local é uma extensão do Museu Memorial do Instituto Pretos Novos, onde já eram realizadas exposições e os cursos. A diferença é que o novo espaço agora é muito maior e poderá receber um público mais amplo. No antigo endereço, na Rua Pedro Ernesto, permanecem a curadoria da arqueologia, os laboratórios, reserva técnica e a biblioteca.
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— Vamos ampliar o memorial. Vai ser uma divisão de tarefas. Quem visita aqui (IPN) visita lá (centro cultural) e vice-versa. Infelizmente, a gente não conseguiu nada aqui do nosso lado para ampliar o imóvel, então teve de ir para o outro lado da rua. Mas é bom porque a gente faz uma pequena caminhada até lá — brinca Merced Guimarães, presidente do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN).
O prédio foi obtido em regime de comodato e as obras para deixá-lo em condições de receber o público a partir desta quarta-feira foram realizadas com a ajuda de doações. Merced diz que ainda espera por parcerias, algumas já prometidas, para fazer algumas melhorias.
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Geleia da Rocinha é um nome reconhecido internacionalmente
Fabio Guimaraes 02/06/2018
Artista de renome internacional
Nascido e criado na Rocinha, José Jaime Costa já foi auxiliar de pedreiro, porteiro e vigilante. Mas foi a paixão pela pintura, nutrida desde a infância, que o fez se tornar internacionalmente reconhecido. Sem nunca ter tido uma aula de pintura, o artista plástico, que atende pelo apelido de Geleia da Rocinha, já teve trabalhos expostos nos Estados Unidos, na Alemanha, na Suíça, na Dinamarca, em Portugal e até no Japão. A parceria dele com o Instituto Pretos Novos vem de longa data. Ele foi um dos primeiros a expor no local.
A nova exposição “Memória à Flor da Tela”, com as oito obras inéditas de Geleia da Rocinha, terá a curadoria de Marco Antonio Teobaldo. Em seu trabalho — pinturas em acrílica sobre MDF —, os personagens são retratados em figuras divinas, adornadas com símbolos e cores ligados aos orixás do Candomblé. A mostra deverá permanecer em cartaz pelos próximos três meses, com visitação gratuita entre 10h e 18h.
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Trabalho de Geleia que faz parte da exposição "Memória à Flor da Tela"
Reprodução/Domingos Peixoto
—Ele (Geleia) faz essa releitura e coloca esses escravizados anônimos numa situação sagrada. Ele forma, digamos assim, esse panteão com esses personagens que cria e traz uma certa dignidade a essas pessoas que se foram no anonimato — explica o curador Marco Antônio Teobaldo. — Geleia tem essa característica, é um autodidata, cria da Rocinha e traz essa tradição que não passa muito pelo convencionalismo dos museus nem de academias. É um artista que tem seu trabalho forjado na rua, nos terreiros, nas festas e nessas memórias coletivas — conclui.
O Instituto Pretos Novos (IPN) funciona num imóvel do século XVIII na Rua Pedro sob o qual foi descoberto um sítio arqueológico com mais de 40 mil ossadas, onde antes funcionou um cemitério de escravizados. O achado arqueológico aconteceu em 1996 seis anos depois de Merced ter comprado a casa e resolver reformar o imóvel. Foi então que encontrou fragmentos de ossos humanos misturados a vestígios de cerâmica, vidro, ferro e outros materiais. Veio daí a ideia de transformar aquele espaço num centro de memória dos povos negros que vieram escravizados para o Brasil.
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