Uma paciente nos Estados Unidos completou 285 dias vivendo com um rim de porco transplantado sem precisar de diálise, o maior período já registrado para esse tipo de procedimento. A cirurgia foi feita em 22 de novembro do ano passado no Massachusetts General Hospital, em Boston, segundo a Wired. O órgão foi desenvolvido pela eGenesis, biotech de Cambridge, Massachusetts, que usa a ferramenta de edição genética Crispr para adaptar rins de porco ao corpo humano. Segundo a empresa, o resultado supera o recorde anterior, de 271 dias, estabelecido por Tim Andrews, outro paciente que recebeu um rim geneticamente editado em janeiro do ano passado. Como funciona a edição genética Rins de porco têm tamanho e função semelhantes aos humanos, o que os torna candidatos ao chamado xenotransplante, o transplante entre espécies diferentes. Para reduzir o risco de rejeição imediata e de transmissão de vírus suínos ao receptor, cientistas retiram determinados genes do animal doador e inserem genes humanos no seu lugar. A maioria dos pacientes que aguarda um rim nos Estados Unidos espera entre três e cinco anos por um doador humano, período em que costuma depender de diálise, procedimento que remove impurezas do sangue em sessões de cerca de quatro horas, três vezes por semana, e que pode danificar os vasos sanguíneos ao longo do tempo. Para o CEO da eGenesis, Mike Curtis, em entrevista à revista WIRED, as chances de um transplante humano não crescem tão rápido quanto a saúde piora. A paciente que ultrapassou os nove meses é a quinta pessoa a receber um rim da eGenesis pela chamada via de acesso expandido, mecanismo pelo qual a agência regulatória americana (FDA) permite o uso de tratamentos experimentais em pacientes com quadros graves e sem boas alternativas disponíveis. O caso de Tim Andrews mostra que o procedimento ainda pode falhar. Ele recebeu o rim de porco em janeiro do ano passado e teve o órgão removido em outubro, após um período de queda na função renal. Andrews voltou à diálise e, em janeiro deste ano, recebeu um transplante de rim humano. Um segundo paciente também passou por transição semelhante, após oito meses com o órgão suíno. Um artigo publicado na quinta-feira na revista científica The Lancet, assinado pela equipe cirúrgica responsável pelos procedimentos, atribui a falha do rim de Andrews a uma microangiopatia trombótica, quadro em que pequenos coágulos se formam dentro do órgão transplantado. A eGenesis afirma estar usando esses dados para ajustar as doses e a frequência dos medicamentos imunossupressores administrados aos pacientes seguintes. A FDA já autorizou a eGenesis a conduzir um ensaio clínico mais formal, com até 33 pacientes com insuficiência renal entre 50 e 70 anos, todos na fila de espera por um rim humano. O início está previsto para 2027. Até lá, a empresa pretende realizar novos transplantes pela via de acesso expandido. A meta seguinte é manter um rim de porco funcionando por um ano. Nos Estados Unidos, mais de 95 mil pessoas aguardam um rim na fila de transplantes, mas menos de 28 mil transplantes desse órgão foram realizados no país em 2025. A escassez de doadores também é um obstáculo no Brasil. Segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos citados pelo Jornal da USP, cerca de 38 mil pessoas aguardavam por um transplante renal no Brasil no início deste ano.
O Sistema Único de Saúde bateu recorde de transplantes de órgãos em 2024, com mais de 6 mil apenas de rim, mas o número ainda fica abaixo da demanda: somente entre janeiro e junho de 2025, 1.303 pacientes na fila renal morreram sem receber o órgão.
Epoca Negócios