'Revolta em preto e branco': livro mostra como artistas usaram a pintura para se manifestar em 1954

'Revolta em preto e branco': livro mostra como artistas usaram a pintura para se manifestar em 1954 - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O III Salão Nacional de Arte Moderna foi sui generis. Ao abrir para o público, em 15 de maio de 1954, o evento paulistano contava com 323 trabalhos de artistas plásticos do quilate de Candido Portinari, Roberto Burle Marx, Lygia Pape, Lygia Clark e muitos outros que deixariam seu nome na história da arte brasileira. O surpreendente foi que — entre temas, estilos e formatos os mais variados — todas as obras eram em preto e branco. Não porque fosse a modinha da temporada, mas por decisão política dos próprios artistas, configurando um protesto conjunto contra mudanças no sistema cambial brasileiro que dificultavam, naquele momento, a compra de tintas, pigmentos, telas e outros insumos, em grande parte importados, que ficavam cada vez mais caros e difíceis se serem obtidos legalmente. ‘Peixe’ (1954), de Tomás Santa Rosa Júnior Divulgação/Pinakotheke Capitaneado sobretudo por Iberê Camargo, Djanira e Milton Dacosta, esse protesto deveras criativo gerou aquele que ficaria conhecido como o Salão Preto e Branco ou, ainda, o Salão do Protesto. Com o apoio de mais de 600 criadores (centenas deles, não participantes da exposição), no fim deu tudo certo: o governo voltou atrás antes mesmo do encerramento da mostra, deixando de tratar tais produtos como supérfluos. Legado Todo esse caso, com a ampla repercussão na imprensa da época e o legado que deixaria para gerações seguintes, está no recém-lançado “Revolta em preto e branco” (Editora Pinakotheke, R$ 120). ‘Lugares sobre a cidade negra’ (1954), de Antonio Bandeira Divulgação/Pinakotheke Obra sem título de Alfredo Volpi, de 1957 Jaime Acioli/Divulgação Os ensaios do livro mostram como o salão influenciou não somente a própria criação artística, como o seu entorno. Diz Shannon Botelho, por exemplo, que “foi instigante observar o esforço para traduzir, em uma paleta reduzida, obras habitualmente concebidas em cores”. Além disso, segundo Luiza Interlenghi, o salão foi “possivelmente a primeira mostra oficial no Brasil em que artistas se organizaram e assumiram sua curadoria, embora essa atividade só viesse a ser definida no país na década de 1980”. Nesta página, temos algumas das obras que fizeram parte desse evento que ficou na História tanto por seu valor artístico quanto por seu significado político — ou, como comenta Max Perlingeiro na apresentação do livro, uma vitória “obtida por uma categoria que raramente conseguia agir em conjunto”.

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