Revelações da MPB, Pelados e Tori mostram ao vivo seus discos no Festival De Novo
Uma geração muito interligada, colaborativa, e shows de dois bons discos lançados no ano passado: eis o que o público vai encontrar esta sexta-feira, no Circo Voador (Rio de Janeiro), no Festival De Novo. Montado a partir de mais de 1,6 mil inscrições de artistas da cena independente de todo o Brasil, o evento leva para o palco os espetáculos da banda paulistana Pelados (com o álbum “Contato”) e a cantora sergipana Tori (com “Areia e voz”), além da banda baiana Tangolo Mangos e a cantora Gracinha (que vem do punk rock, do grupo Demonia).
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As conexões são muitas. O Pelados tem Vicente Tassara (guitarra, neto do cartunista e escritor Ziraldo) e Theo Ceccato (bateria), que fazem parte do grupo Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo, destaque da cena do indie rock paulistano (e a líder, Sophia, tem músicas e um show conjunto com Felipe Vaqueiro, dos Tangolo Mangos). Já Helena Cruz, baixista dos Pelados, além de tocar com vários artistas da cena de SP, recentemente foi a diretora musical de show em que Sophia Chablau e outras musicistas lembraram os 50 anos do lendário disco “Fruto proibido”, de Rita Lee & Tutti Frutti.
Fundado há 10 anos, quando seus integrantes ainda estavam no colégio (e só queriam soltar músicas na plataforma SoundCloud), o Pelados já lançou três álbuns. E cada um teve um processo diferente. O primeiro “Sozinhos”, reuniu canções que a banda compôs entre 2016 e 2017. “Foi mal” (2022) foi produzido pelos próprios Pelados, sem pretensões, durante a pandemia (“a gente passou uma, duas semanas morando juntos, juntando material e acabou nascendo um disco”, resume Vicente), já “Contato”, nasceu de um esforço mais deliberado de fazer um álbum a partir do zero, mais uma vez produzindo-se sem ajuda externa.
— A gente estava num momento um pouco mais pobre de ideias musicais, o que acabou sendo uma das graças do disco. São bem menos canções acabadas, com caras individuais, e mais uma de colcha de retalhos, de colaborações inesperadas. Ele tem essa coisa meio caleidoscópica, esquizofrênica. Mas foi um disco que deu trabalho, não é coisa que cai da árvore — admite o guitarrista, de 28 anos.
Ali, nasceram canções como “modrić” (livremente inspirada em Luka Modrić, o carrasco de quando a seleção brasileira de futebol foi derrotada pela da Croácia e deu adeus à Copa do Mundo de 2022) e “instruções para descongelar o gilberto gil no espaço”.
— O Lauiz (Martins tecladista) e o Vicente tinham esse título e tentaram fazer várias vezes alguma música que batesse com ele, mas, na maioria das vezes, o título veio depois”, entrega Helena Cruz, de 28.
Já “os pelados sabem demais” abre “Contato” com a bombástica frase “vamos acabar com a MPB”.
— Isso também é um certo acidente, a música não nasceu sendo da primeira do disco, mas a gente achou muito divertido começar assim. É uma certa pista falsa, porque ela é muito contemporânea, irônica, afiada... é mais um jeito de chamar a atenção — tenta explicar Vicente, um apreciador do procedimento de se “puxar temas que não costumam ser falados nas músicas”. — Tanta gente é tida como nova MPB, uma geração de tantos músicos diferentes, de tantas bandas diferentes... apesar de entender o que significa esse rótulo, a vontade é de mandar esse rótulo à merda.
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Mas ele acredita que “Contato” tem, no fundo, toda uma reflexão séria sobre música.
— O disco é atravessado por uma certa crise existencial, pela dificuldade de botar músicas no mundo e de se ter ideias pertinentes. Acho que, apesar de querer demolir a MPB no começo, no final, ele tem uma coisa um pouco mais esperançosa, de reconhecer que existe uma influência intempestiva do Gil e da música popular brasileira o tempo todo e que isso é isso não é triste.
O problema, depois de gravar o disco, foi descobrir a ordem das músicas e, a partir daí, elaborar as transições entre elas.
— A gente pensou muito nesse disco como “ah, essas canções elas são mais terrenas, essas aqui são mais espaciais”... enfim, foi meio maluco nesse sentido — diz a baixista, para quem persiste hoje a dificuldade de se tentar rotular os Pelados. — Quando vai lançar música, a gente sempre zoa: “Ai, se entrar numa playlist de algoritmo do Spotify, vai ser Indie BR, vai ser alternativo. O que a gente acaba ocupando é essa cena que emergente de bandas, pelo menos do Sudeste.
Os Pelados têm quase hit, “foda que era linda”, música de “Foi mal”.
— O algoritmo decide que essa música é a que vai circular e ela circula, acho que a gente deu muita sorte nisso. Hoje tem muita gente disputando por atenção e a gente encontrou um respiro com ela — arrisca Vicente Tassara.
O Festival De Novo será a primeira vez em que Tori apresenta no Rio — cidade onde vive desde 2022 — o show de seu novo disco, “Areia e voz” (lançado pelo Guano, nova gravadora carioca), com uma banda completa: Pedro Fonte (bateria, no lugar de Domenico Lancellotti, que produziu o disco junto com ela), Karina Neves (flauta), Paulo Emmery (guitarra) Júlia Guedes (neta de Beto Guedes, nos teclados), Toro (baixo) e ela própria ao violão. Nele, estão canções delicadas e cinematográficas como “Ilha úmida”, “Rios áereos” e “O som de quem dorme bem”.
— Esse é um disco que fala muito de ar, um disco cujo elemento é o ar. Então, tem muita coisa voando e a flauta traz isso — diz a cantora, cujo nome de batismo é Vitória Nogueira Silva Dantas. — Quando eu quando eu faço a canção, ela normalmente nasce só voz ou voz violão. Eu não penso em nada, assim, mirando numa referência. Mas aí, no processo de produzir, me vêm algumas atmosferas. Nesse disco, quando fui direcionar os músicos, eu falava, tipo, “ah, você conhece o ‘Via Láctea’, do Lô Borges?” Ou o “Nelson Angelo e Joyce”. Ou o “Cinco sentidos”, do Alceu Valença. Não era exatamente isso, mas o sentimento era esse.
Aos 26 anos de idade, Tori tem 10 de carreira, iniciada ainda em Aracaju.
— Não existia uma intenção uma ambição de sair dali, porque é porque quando você está fora do eixo, o centro é uma coisa muito surreal, muito distante — conta ela, que se formou em Ciências Sociais (“eu pensava em ser professora”, confessa) enquanto se dedicava à música. — Na pandemia, eu fiquei apaixonada pelo primeiro disco da Mãeana e fui pesquisar quem tinha produzido ele. Era o Bem (Gil), aí fui atrás dele, que foi super aberto e acabou produzindo meu primeiro disco solo (“Descese”, de 2023) com o Bruno Di Lullo e o Domenico. Voltei para Aracaju, me formei e aí pensei: “Bom, agora que eu já movi mundos e fundos para fazer esse disco, acho que vou para o Rio tentar fazer as coisas na minha área!”
