Reunião trilateral entre EUA, Rússia e Ucrânia em Abu Dhabi tem garantias de segurança e cessão territorial em foco

 

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Representantes de Rússia, Estados Unidos e Ucrânia estão reunidos em Abu Dhabi nesta quarta-feira para uma segunda rodada de negociações trilaterais sobre a guerra no Leste Europeu, apenas um dia após um ataque massivo de Moscou contra a rede elétrica de Kiev, que atravessa uma crise em meio ao rigoroso inverno do Hemisfério Norte. Os principais pontos em negociação são as garantias de segurança exigidas pelos ucranianos em caso de novo ataque russo e o destino do território do leste do país, reivindicado pelo Kremlin — um ponto de discórdia que a parte ucraniana parece começar a fazer concessões diante do cenário no campo de batalha.

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As delegações foram recebidas pelo presidente dos Emirados Árabes Unidos, o xeque Mohamed bin Zayed al-Nahyan. A equipe ucraniana é liderada pelo chefe do Conselho de Segurança Rustem Umerov, enquanto os russos são representados pelo diretor de inteligência militar Igor Kostiukov, um oficial da Marinha alvo de sanções dos países ocidentais por seu papel na invasão da Ucrânia. O enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e o genro de Donald Trump, Jared Kushner, participam das negociações.

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O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que Kiev e Washington chegaram a um acordo sobre as garantias de segurança para o pós-guerra, uma demanda chave para o país, que sofreu com ataques russos em 2014 e 2022. Os termos não foram divulgados publicamente, mas fontes com acesso às negociações ouvidas pelo Financial Times discutiram o suposto formato pré-acordado.

O plano teria três fases, em caso de descumprimento do cessar-fogo pela Rússia. Após a agressão, haveria um aviso diplomático e qualquer ação necessária do Exército ucraniano nas primeiras 24 horas. Em caso de continuidade, seriam acionadas as forças da chamada "Coalizão dos Dispostos", que inclui países da UE, Reino Unido, Noruega, Islândia e Turquia. Por fim, em caso de uma ação mais prolongada, excedendo 72 horas da violação inicial, uma resposta militar coordenada por uma força envolvendo militares dos EUA entraria em ação.

Uma unidade de artilharia do Exército Ucraniano se prepara para disparar contra posições russas em direção à linha de frente perto de Pokrovsk, Ucrânia, em 21 de dezembro de 2025. A Europa está ameaçada por uma Rússia cada vez mais agressiva e um presidente americano beligerante

Tyler Hicks/The New York Times

Minúcias do plano, como a quantidade de militares mobilizados em cada fase (e por quais países), os equipamentos bélicos a serem utilizados e custos financeiros de um possível acionamento, não foram detalhados. Também não se sabe se nas discussões bilaterais entre EUA e Ucrânia, havia qualquer tipo de acerto sobre a presença de tropas internacionais em solo ucraniano — algo que Moscou rejeita de forma reiterada e veemente.

Ex-presidente da Rússia e atual vice-presidente do Conselho de Segurança, Dmitry Medvedev afirmou a agência de notícias Tass no começo da semana que as garantias de segurança de um eventual acordo não poderiam ser "para a Ucrânia", e voltou a contrapor qualquer envio de tropas,

— São garantias para ambos os lados: Rússia e Ucrânia. Caso contrário, as garantias não funcionam — disse Medvedev, citado pela agência.

Donetsk e territórios ocupados

O esforço diplomático ocorre em meio a novos ataques russos contra o território ucraniano. Enquanto um bombardeio com 450 drones e 71 mísseis foi disparado por Moscou na terça-feira — o que levou a um novo apelo de Trump para que um acordo de paz fosse assinado, embora tenha dito que o presidente russo, Vladimir Putin, cumpriu sua palavra ao não atacar Kiev até o domingo anterior —, novos ataques aéreos provocaram mortes nesta quarta.

Ao menos seis pessoas morreram e uma ficou ferida durante um bombardeio que atingiu um mercado na região de Donetsk. Em uma coletiva no Kremlin, o porta-voz Dmitry Peskov afirmou que as forças da Rússia irão continuar a ofensiva até que Kiev concorde com os termos de Moscou para um acordo.

A principal demanda russa que segue como um entrave ao acerto diz respeito aos territórios do Leste da Ucrânia — incluindo Donetsk, alvo do último ataque —, de onde Moscou exige uma retirada total de tropas ucranianas e o reconhecimento internacional de que as terras tomadas na invasão pertencem à Rússia.

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A Ucrânia insiste que o conflito deveria ser congelado nas atuais linhas da frente de batalha — os russos ocupam quase 20% do país e ameaçam tomar o restante da região de Donetsk em caso de fracasso do diálogo — e rejeita que apenas as suas forças se retirem da região.

A cessão territorial foi considerada por todos os anos de conflito como a linha vermelha para o povo e o governo ucraniano. Estudos indicam que essa realidade pode estar mudando com o desgaste da guerra. Um estudo do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev publicado na segunda-feira mostrou que 40% dos entrevistados disseram que apoiariam a cessão do Donbas em troca de garantias de segurança. O percentual é considerável quando comparado aos 82% que em maio de 2022 disseram crer que o país não deveria ceder território sob nenhuma circunstância.

Embora os dados não sejam diretamente comparáveis, pois as pesquisas anteriores não vinculavam garantias de segurança à questão da cessão de território, é um indicativo de que alguma flexibilidade pode ser desejada. (Com NYT e AFP)