Restrições da China e possível controle do Brasil acendem alerta no setor da carne no Pará

 

Fonte:


Novos impasses do setor produtivo podem gerar impactos sobre as exportações da carne bovina produzida no Pará, em especial, sobre os produtos enviados à China, após restrições e impostos alocados na produção do estado. O país asiático impôs uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas para a carne brasileira, que recebe a tarifa tradicional de 12%; o que ultrapassar esse limite estará sujeito a uma sobretaxa de 55%. Localmente, representantes do setor temem os rumos desse cenário, especialmente após o governo brasileiro sinalizar interesse em limitar a exportação brasileira por empresa para o cliente asiático.


(Foto: Adriano Nascimento | Especial para O Liberal)


No acumulado do ano passado, a exportação de animais vivos e produtos do reino animal do Pará registrou uma arrecadação de US$ 916.889.257 na relação comercial com a China, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). 


Para o zootecnista e diretor na Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), Guilherme Minssen, o cenário segue preocupante. “Qualquer interferência no livre mercado tem sempre prejuízos tanto para os produtores como para a indústria do país”, avalia. A sua atenção também é quanto ao desenvolvimento da produção local, que, segundo ele, precisa de investimentos para avançar por si só.


(Foto: Adriano Nascimento | Especial para O Liberal)


“No Brasil, temos aumentado a produção, mesmo reduzindo a área física de produção rural. Nos últimos 10 anos, duplicamos praticamente a criação em confinamentos. O Pará tem o segundo maior rebanho bovino e o primeiro bubalino, mas estamos cada vez mais longe do mercado dos resultados encontrados por produtores de Mato Grosso, São Paulo e Goiás principalmente”, explica.


Nas últimas movimentações, o Ministério da Agricultura sugeriu oficialmente a criação de um sistema de controle em um ofício encaminhado à secretaria-executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex). A ideia consiste basicamente em limitar o volume exportado por empresa. A medida ainda não é uma realidade e os países tratam do assunto, mas, enquanto novos rumos não se consolidam, as limitações impostas pela China seguem com a validade de três anos, iniciando a contagem no dia 1º de janeiro deste ano.


(Foto: Adriano Nascimento | Especial para O Liberal)


Possibilidades


Apesar de a China ainda ser o principal parceiro comercial nesse segmento para o Pará, os dados do último ano revelam boas exportações para o Egito, que ficou em segundo lugar na lista de parceiros, com US$ 157.533.393. Seguido pelo Iraque (US$ 129.955.352), Marrocos (US$ 117.569.155) e Líbano (US$ 89.784.498), respectivamente.


(Foto: Adriano Nascimento | Especial para O Liberal)


Fora das planilhas, o representante do setor ainda menciona a proximidade entre o mercado brasileiro e de países vizinhos, a exemplo do Uruguai e Argentina. Minssen aponta esses parceiros como boas opções de novos mercados, caso os efeitos desse impasse de tributações e restrições afetem as relações comerciais. 


“O Brasil tem exportado volumes significativos de carne para o Uruguai e a Argentina, destinados ao consumo interno nesses países. Essas exportações alcançam valores consideráveis, provenientes, em grande parte, de frigoríficos localizados em Santa Maria, Uruguaiana e na região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul”, estima o zootecnista.


(Foto: Adriano Nascimento | Especial para O Liberal)


 


 


Preço deve subir, avalia comerciante


Para o empresário Toni Alves, proprietário de um açougue na Avenida Rômulo Maiorana, em Belém, a tendência é de alta nos preços nos próximos meses.


“A tendência para os próximos meses no preço da carne é infelizmente de aumento. É por causa do mercado. O mercado externo acaba levando muito da nossa carne”, afirma.


Segundo ele, além das exportações, fatores ligados à própria produção também influenciam. “Tem também a questão de produção mesmo nas fazendas. A exportação tem sido um problema pro mercado local. Porque os fazendeiros estão querendo vender pra fora porque o preço é mais alto. Aí sobra menos carne pra gente", disse. 


Toni Alves. (Foto: Adriano Nascimento | Especial para O Liberal)


O impacto, de acordo com o comerciante, é imediato no bolso do consumidor. “A gente tem uma demanda maior de compra e acaba afetando o preço. Eleva o preço. O preço médio da carne hoje em Belém, no mês de fevereiro, de forma geral, tá R$ 40. Em janeiro, tava custando um pouco menos porque tá vindo de um aumento desde outubro", explicou.


Toni avalia, no entanto, que uma eventual limitação das exportações para a China pode trazer alívio ao mercado interno.


“Recentemente, o governo federal começou a avaliar limitar a exportação para a China, nosso principal comprador. Isso pode melhorar o preço no mercado interno. Porque vai ter mais carne disponível pra compra interna”, pontua.


Consumidores divergem sobre valores


Entre os consumidores, a percepção sobre os preços não é unânime. A dona de casa Rita de Cássia avalia que, atualmente, os valores estão acessíveis em Belém.


Rita de Cássia. (Foto: Adriano Nascimento | Especial para O Liberal)


“Eu acho a carne muito mais barata em Belém atualmente. O preço tá top. Eu tô pagando em média pelo quilo da carne hoje R$ 30, R$ 40 e assim por diante. Tem carne de R$ 60, de R$ 70”, disse.


Ela conta que costuma comprar cortes como chã, agulha e pá e considera que, na comparação com outras regiões do país, o cenário local é mais favorável. “Na minha opinião, estão mais baratas, muito mais em conta. Em outros lugares do país, o preço da carne tá caro, mas aqui em Belém o preço tá ótimo. Tá tudo top aqui”, contou.


Já a professora Denise Silva percebe movimento contrário e relata aumento recente nos valores.


Denise Silva. (Foto: Adriano Nascimento | Especial para O Liberal)


“Neste mês de fevereiro, a carne tá mais cara. Eu tô pagando em média R$ 30, R$ 35 pelo quilo da carne. Antes eu pagava em média R$ 26, R$ 27 por aí”, revelou. 


Consumidora de cortes como contra-filé e peito bovino, Denise afirma que mantém o hábito de consumo, mesmo diante da alta.“Eu não tenho estratégia pra economizar. Eu não tô trocando a carne por peixe, frango ou outra coisa. Como a gente economiza se tá tudo muito caro? Tá tudo muito caro. Eu mantenho meu consumo mesmo com a carestia”, disse. 


O consumidor Eloy Gregório costuma pesquisar antes de comprar a carne e diz que a escolha varia conforme o preço (Foto: Claudio Pinheiro/O Liberal)


O auxiliar de almoxarifado Eloy Gregório, de 58 anos e morador do bairro do Marco, em Belém, diz que o preço da carne está “um absurdo” e “muito caro”, com cortes de segunda com osso chegando a cerca de R$30 o quilo. Ele conta que costuma pesquisar antes de comprar e que a escolha varia conforme o preço, mas afirma que a fraldinha, usada principalmente para churrasco, tem pesado no bolso. “Aqui está saindo por cerca de R$40 o quilo, muito caro. Em outras cidades a gente encontra por R$ 25 ou R$ 29”, compara.


Economista aponta risco de instabilidade e pressão sobre preços no Pará


Na avaliação do economista paraense e membro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon-PA/AP), Nélio Bordalo, as novas cotas e sobretaxas impostas pela China às exportações brasileiras de carne bovina devem provocar reflexos diretos no mercado interno do estado.


O economista Nélio Bordalo (Cláudio Pinheiro / Arquivo O Liberal)


Segundo ele, como o Brasil poderá exportar até 1,1 milhão de toneladas com a tarifa regular de 12%, enquanto o volume excedente ficará sujeito a uma sobretaxa de 55%, parte da produção que ultrapassar esse limite poderá perder competitividade no principal destino da carne bovina brasileira.


“Caso isso ocorra, há possibilidade de redirecionamento de volumes ao mercado interno, elevando a oferta local e pressionando os preços pagos ao produtor paraense, especialmente na arroba do boi gordo”, afirma Bordalo.


O economista explica que, além desse possível aumento da oferta interna, pode haver também um movimento antecipado das exportações, com frigoríficos tentando ocupar rapidamente a cota disponível.


“Movimentos antecipados de exportação para ocupação da cota podem gerar oscilações momentâneas na oferta doméstica, provocando volatilidade de preços no curto prazo”, destaca.


Para ele, o cenário mais provável é de maior instabilidade no mercado estadual. “O efeito mais provável é aumento da instabilidade no mercado estadual, com potencial redução de margens para pecuaristas e frigoríficos, dependendo da capacidade de diversificação de mercados e da coordenação interna na gestão da cota”, conclui.