A crescente visibilidade da culinária paraense tem provocado mudanças nas cozinhas de Belém.
Restaurantes de perfis variados, que não são originalmente especializados em comida típica, passaram a incorporar produtos regionais aos cardápios, combinando ingredientes amazônicos a receitas contemporâneas e de diferentes tradições gastronômicas.
O movimento acompanha o interesse crescente de turistas e do público local pelos sabores da região.
Essa adaptação ocorre por meio da inclusão de peixes, frutas, temperos e outros ingredientes amazônicos em preparações que fogem da culinária tradicional paraense.
Em um restaurante de hotel localizado no bairro do Umarizal, por exemplo, a base gastronômica internacional, com influência portuguesa, passou a incorporar elementos da culinária regional.
"Com a nossa rica gastronomia, nós não poderíamos deixar de fora os nossos insumos, como as frutas e os peixes", afirma Ariane Mathne, gerente geral.
Ariane Mathne, gerente geral de um hotel localizado no Umarizal (Igor Mota / O Liberal)
Fusão de sabores
Os ajustes no cardápio abrangem diferentes momentos do dia, do café da manhã ao jantar.
Opções como filhote, pirarucu fresco e camarão passaram a ser combinadas com jambu e tucupi.
Aos sábados, a tradicional feijoada ganhou a companhia de açaí com farinha d'água, farinha de tapioca e camarão seco.
Na confeitaria e no desjejum, foram incorporadas opções como mousse de bacuri com castanha-do-pará, tapiocas feitas na hora e geleias de produção própria.
A base europeia de pratos clássicos também recebeu temperos da região, como pimentas de cheiro, pimenta amarela e coentro.
"A regionalidade é muito forte, mesmo nos parâmetros da linha de receitas portuguesas.
O que nós temos de risoto, por exemplo, podemos modificar com o nosso tempero", destaca Mauro Moraes, chef de cozinha.
Mauro Moraes, chef de cozinha do restaurante do hotel (Igor Mota / O Liberal)
Atração de clientes
A estratégia também impacta a atração de clientes, especialmente na modalidade ‘day use’, em que os visitantes pagam um valor fixo para usufruir da área de lazer, incluindo café da manhã e descontos em outras refeições.
Para a gestão, a presença de elementos regionais pode ser um fator de escolha para quem busca uma experiência gastronômica ligada à identidade local.
"O cliente se sente atraído pela culinária paraense, principalmente no ‘day use’, aos sábados e domingos.
A gastronomia tem um peso grande", ressalta Ariane Mathne.
Para aproveitar o interesse dos hóspedes e clientes, o estabelecimento também criou uma degustação às sextas-feiras que harmoniza vinhos de produção própria, vindos do Alentejo e do Douro, regiões vitivinícolas de Portugal, com ingredientes paraenses.
"A gente coloca geleias de bacuri, taperebá e muruci.
Fazem o maior sucesso", diz a gerente.
O movimento de valorização e incorporação dos sabores locais também aparece em outros estabelecimentos comerciais da cidade.
Em um restaurante instalado em um shopping no bairro do Reduto, ingredientes como tucupi e jambu passaram a aparecer em mais preparações, enquanto peixes como filhote e tambaqui ganharam maior destaque no cardápio.
“Reforçamos a presença de pratos regionais e ampliamos o uso de tucupi e jambu.
Também demos mais destaque ao filhote e ao tambaqui, que já eram pontos fortes do cardápio”, afirma Mateus Ribeiro, gerente do estabelecimento.
Turistas buscam sabores locais
A procura pelos sabores regionais também parte dos próprios consumidores, especialmente visitantes de outras partes do Brasil e do exterior.
Segundo Ribeiro, turistas chegam ao restaurante já interessados em experimentar preparações com ingredientes característicos da culinária paraense.
“Os estrangeiros e os turistas de outras regiões do Brasil são os que mais procuram a culinária paraense.
Muitos já chegam ao restaurante interessados em pratos com tucupi, jambu e outros ingredientes regionais”, afirma.
Mateus Ribeiro, gerente do Engenho Cozinha Brasileira (Thiago Gomes / Arquivo O Liberal)
No cardápio, essa demanda se traduz em opções que levam tucupi e jambu, além de pratos com filhote, tambaqui e arroz paraense.
O jambu também aparece em bebidas, incluindo preparações com cachaça produzida com o ingrediente.
“Hoje temos drinks com jambu e cachaça de jambu, além de pratos com filhote, tambaqui e arroz paraense.
O tucupi é outro ingrediente que não pode faltar”, explica o gerente.
O aumento da procura também aparece nas vendas.
Segundo Ribeiro, houve crescimento médio entre 15% e 20% no consumo de produtos regionais.
“Registramos um crescimento médio de 15% a 20% no consumo de produtos regionais, com aumento nas vendas de pratos que utilizam esses ingredientes”, conclui.
