A inclusão de casarões históricos em novos projetos imobiliários criou uma frente de trabalho para profissionais especializados em restauração de patrimônio tombado. Antes de qualquer intervenção, eles investigam a história do imóvel, documentam suas características e identificam materiais, técnicas construtivas e elementos artísticos que devem ser preservados. O trabalho pode envolver escaneamento 3D, prospecções de pinturas e revestimentos e estudos para adaptar a edificação a diferentes usos. O desafio é dar nova função a construções centenárias sem apagar as marcas que ajudam a contar a história do Rio. Especializado em restauração de patrimônio público tombado desde 2006, Vinícius Santos, dono da Reviva Restauro, viu crescer a demanda por esse trabalho no mercado imobiliário. Entre 2023 e 2024, ele foi responsável pela restauração do casarão integrado à Casa Gabizo, da Tao Empreendimentos, na Tijuca. O imóvel, que pertenceu a uma família de origem germânica no início do século passado, foi transformado em área de lazer com academia, brinquedoteca e sala de jogos, entre outros espaços. “Durante a prospecção na Casa Gabizo, encontramos uma pintura mural decorativa na parte alta das paredes de um cômodo. Consultamos o órgão de patrimônio e decidimos restaurar a pintura em uma das paredes e deixá-la à mostra para que as pessoas soubessem que ali havia esses elementos artísticos”, conta o restaurador. Parte do piso hidráulico foi substituída por peças de mesmo modelo e desenho. A fachada teve as características do passado recuperadas com argamassa à base de cal e a ornamentação preservada. Os azulejos da varanda em alto-relevo, originários da Inglaterra, e os gradis de ferro batido foram reintegrados ao imóvel. Para Santos, preservar essas construções e integrá-las a novos projetos é também uma forma de manter viva a memória da cidade — além de agregar valor ao empreendimento. A fachada do casarão junto à calçada foi preservada e integrada ao Soul Rio Gago, que terá dois novos blocos ligando o antigo e o moderno FOTOS DE RJDI/DIVULGAÇÃO “Diferentemente de um prédio moderno, pensado pela eficiência, pelo aproveitamento do espaço e pelo conforto térmico, o casarão estabelece outra relação com quem o ocupa. As pessoas passam a conviver com a história e com uma arquitetura feita em outra época”, reflete. No Soul Rio Gago, em Laranjeiras, a fachada de um casarão junto à calçada foi preservada e será integrada ao novo empreendimento da RJDI já em construção. O imóvel abrigará a entrada principal, quatro unidades residenciais — isentas de IPTU — e um espaço de “coworking”. Ao fundo, dois novos blocos farão a ligação entre o antigo e o moderno. Para o arquiteto e CEO da A+ Arquitetura, Manuel Fiaschi, a ideia é preservar aquilo que dá identidade à casa, como a fachada, os acabamentos, as janelas históricas e a volumetria do telhado. “São elementos que revelam uma tecnologia construtiva e uma mão de obra que já não existem da mesma forma. Para quem vai morar ali, abrir uma janela de mais de cem anos cria uma relação muito diferente com o imóvel e com a história daquele lugar”, pontua. Jorge Astorga, dono da Astorga Arquitetura e Restauração, que participou do projeto do Soul Rio Gago e de outros imóveis na cidade, explica que o processo começa com uma pesquisa histórica, seguida pelo cadastro arquitetônico, que registra o estado atual do imóvel com técnicas em 3D. Depois vêm as medições, as prospecções estratigráficas — para identificar camadas antigas sob revestimentos e pinturas — e o diagnóstico de conservação. Ele destaca que é preciso compatibilizar o projeto de restauro com as demais necessidades da edificação. Acessibilidade, por exemplo, pode exigir rampas ou plataformas elevatórias, e o novo uso pode demandar instalações elétricas, climatização ou sonorização. “Tudo isso precisa ser pensado em conjunto, sem comprometer as características artísticas do bem e sempre respeitando as aprovações dos órgãos de patrimônio”, ressalta Astorga.
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Restauração dá novos usos a antigos casarões do Rio
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