Resenha: Em ‘Por que são tão lindos os cavalos?’, Julieta Correa conta as suas memórias da escuridão

 

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Sari gosta de tomar sorvete na Praça Vicente López, em Buenos Aires, acompanhada de Julieta, sua filha. Este momento de suspensão no tempo, quando as duas estão juntas, é um respiro durante os longos dias que seguem, entre noites insones e emergências.

Nesse limbo de incerteza, quando a dúvida acerca da saúde é tamanha, “não há passado, nem futuro, tudo flui de um eterno presente”, como escreveu James Joyce (1882-1941). A mãe não percebe, mas o tempo passa cada vez mais arrastado para Juli, encarregada de seus cuidados.

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Baseado em sua própria jornada ao lado da mãe, “Por que são tão lindos os cavalos?”, romance de estreia de Julieta Correa, com tradução de Mirella Carnicelli, mostra a brusca mudança na relação maternal após os sintomas de uma doença que não tem nome.

Aos poucos, Sari tem perdas significativas de memória, cognição e fica debilitada. O processo não é simples e os anos de angústia coincidem com a chegada da pandemia de Covid-19. Entre idas e vindas do hospital psiquiátrico, a senhora dá adeus a um mundo que estava prestes a se transformar para todos — e, sobretudo, para si.

“Como as palavras ousam nos dar as costas, a nós duas, que sempre nos sentimos as favoritas”, questiona a narradora, que vê o declínio físico e mental da mãe. Uma figura outrora histriônica, descrita como uma contadora de histórias irresistível.

Para dar conta de suprir os espaços vazios que as palavras já não preenchem, Correa faz com que a filha conte a biografia da mãe por meio de fragmentos dos diários mantidos por ela por mais de 40 anos. Em meio a tantos cadernos de diferentes formas, tamanhos, cores e temas, é no material íntimo que se revelam algumas respostas para lidar com o desconhecido.

O poder de lembrar

Aos 58 anos, Sari é diagnosticada com demência frontotemporal, mesma doença que aflige o ator Bruce Willis. Como várias doenças do sistema nervoso, o diagnóstico é uma espécie de caixa-preta e, também no livro, especialistas divergem, há sofrimento por conta das trocas de medicações, a fé se abala e surge um iminente medo do desconhecido.

Em determinado momento, a autora traz uma reflexão essencial que, cedo ou tarde, bate à porta do convalescente e das famílias. “Muitas vezes, dar a alguém uma palavra para nomear o sofrimento é o único tratamento possível”, já que “a demência é uma doença que não tem como contar-se a si mesma. Não há relato possível quando as palavras faltam, só é possível contá-lo de fora. Essa é a minha missão. Um testemunho. Um texto que vai ficando sem palavras.”

Quando escreve sobre a relação entre mãe e filha, a escritora e jornalista americana Vivian Gornick discorre sobre os hábitos criados em conjunto, as manias, obsessões e cismas hereditárias, tudo fruto de tradição familiar. Como a protagonista de “Afetos ferozes”, a personagem de Correa monta o quebra-cabeças da vida da mãe e percebe que não conhecia a personagem por completo.

Em um exercício para deixar registrado o legado da matriarca, a argentina escreve sobre as anotações deixadas e reflete sobre os episódios vividos durante o processo. Em dado momento, conclui que “volta a anotar cada frase porque cada uma é valiosa como um tesouro”.

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E entre os tesouros da memória, as lembranças da infância são as mais significativas e caras. Sari, cuja mãe “parecia uma atriz de Hollywood”, era ligada à terra e ao haras que a família possui em uma fazenda na província. O animal, símbolo de força e liberdade, é um signo onipresente na vida da mãe de Julieta desde a infância. Com tom confessional, chegando vez outra à comiseração, o romance assume uma forma meditativa, de aforismos, à medida que surgem apontamentos de Sari.

“Cuidar de alguém doente significa pensar na morte o tempo todo”, assume Julieta. Para ela, o assunto parece dominar a pauta do cotidiano. O processo de luto acontece antes da partida e, quando as palavras não bastam, a filha percebe como “Tudo nos parece insólito”. Ela busca respostas para sua dor: “Então alguém diz: ‘Mas um me diz uma coisa, você me diz outra, qual é a verdade?’. A verdade é que fingimos surpresa: o que sentimos é exaustão. A verdade é que não sabemos, mas às vezes é muito mais fácil achar que sim.”

Entre as muitas pílulas de sabedoria que encontra nas páginas amareladas dos diários, Correa conclui, em determinado momento, que para mitigar o sofrimento “às vezes, tem mais poder quem se lembra, e, às vezes, quem esquece”.

Cotação: Bom

Matheus Lopes Quirino é jornalista

Capa do livro ‘Por que são tão lindos os cavalos?’, de Julieta Correa

Reprodução

‘Por que são tão lindos os cavalos?’

Autora: Julieta Correa. Tradução: Mirella Carnicelli. Editora: 34. Páginas: 208. Preço: R$ 79.