Em comícios realizados este ano, candidatos democratas lançaram novos ataques contra Donald Trump e os republicanos, acusando-os de fazer parte de uma “classe Epstein” – uma elite que não presta contas a ninguém e que mantinha laços com o falecido criminoso sexual. Mas, a poucos dias das eleições de meio de mandato (que, segundo as pesquisas, poderão custar aos republicanos suas maiorias tanto na Câmara dos Deputados como no Senado), alguns democratas passaram a ser alvos de críticas por suas ligações com Jeffrey Epstein, por meio do bilionário Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn e um dos principais financiadores de causas progressistas.
“Ele dormiu na ilha de Epstein, ficou em sua casa em Manhattan”, disse este mês o republicano Mike Collins, exigindo que seu adversário na disputa por uma vaga no Senado pela Geórgia, o democrata Jon Ossoff, um dos primeiros a atacar a “classe Epstein”, em fevereiro, pedisse desculpas por sua “hipocrisia”.
A indignação com Epstein e com a decisão do Departamento de Justiça dos Estados Unidos de não divulgar todos os documentos relacionados ao falecido criminoso sexual é generalizada nos dois lados do espectro político americano. Uma pesquisa realizada no terceiro trimestre pela empresa GBAO revelou que mais de 80% dos republicanos e democratas querem a divulgação dos arquivos.
Várias figuras públicas tiveram seus vínculos estreitos com Epstein revelados, entre elas Trump e seu secretário do Comércio, Howard Lutnick, o ex-presidente Bill Clinton e os bilionários Bill Gates e Leon Black. Todos negaram ter conhecimento dos crimes cometidos pelo falecido financista.
Mas as doações de Hoffman aos democratas, que ultrapassaram US$ 24 milhões em todo o país, tornaram-se um ponto de atrito em lugares como o Texas, onde os republicanos tentam desgastar a imagem do candidato ao Senado James Talarico pelo fato de um comitê de ação política (PAC) que apoia sua campanha ter recebido milhões de dólares do bilionário do Vale do Silício.
Em Ohio, o republicano Jon Husted vem veiculando anúncios afirmando que seu adversário, Sherrod Brown, recebeu “mais de US$ 100.000 de pelo menos uma dúzia de pessoas ligadas a Epstein”, enquanto Zach Dembo, candidato à Câmara dos Deputados pelo Kentucky, foi chamado de “repugnante” por aceitar dinheiro de Hoffman.
No Alasca, a candidata ao Senado Mary Peltola também foi acusada por seu adversário de receber “dinheiro de Epstein”. Hoffman disse que se arrepende “profundamente” de seus encontros com Epstein, organizados por meio de uma “relação de captação de recursos com o MIT”.
Ele pediu que seja feita justiça às vítimas de Epstein e que todas as informações sobre seus crimes sejam divulgadas. “Os republicanos estão perdendo e se agarrando a qualquer coisa, e essa é uma péssima coisa a que se agarrar”, disse uma fonte próxima de Hoffman.
Ela acrescentou que o bilionário financiou o anúncio no qual sobreviventes pedem a divulgação dos arquivos de Epstein. “É repugnante que os republicanos, que têm o poder de garantir justiça às vítimas e divulgar os arquivos, optem por fazer ataques políticos em vez disso.
Reid continuará lutando pela divulgação de todos os arquivos e apoiando os sobreviventes. Os republicanos, ao que prece, não farão o mesmo.”
Uma fonte próxima à campanha de Peltola disse que as doações de Hoffman foram feitas antes de os arquivos de Epstein se tornarem públicos e se destinavam a uma campanha anterior para a Câmara dos Deputados. Um porta-voz da campanha disse que, se eleita, Peltola “lutará para garantir que todos os arquivos sejam finalmente divulgados e que seja feita justiça aos sobreviventes”.
O chefe de campanha de Dembo disse que o candidato “não pede dinheiro a interesses empresariais suspeitos para se eleger”. Sua campanha acrescentou que as doações de Hoffman foram feitas a um PAC independente, com o qual Dembo não tem qualquer envolvimento.
A campanha de Talarico disse à imprensa americana que não tem controle sobre quem faz doações a PACs independentes. As campanhas de Ossoff e Brown não responderam a pedidos para comentar.
Os democratas esperam que a amizade amplamente documentada entre Trump e Epstein tenha um impacto mais prejudicial do que a associação de Hoffman com o financista desacreditado. “É meio absurdo os republicanos acharem que esse é um ataque que vale a pena fazer”, disse um importante estrategista democrata.
“Jon Ossoff vai vencer com enorme facilidade. Talarico está prestes a, potencialmente, virar o Texas para o lado democrata.
Não parece que os eleitores estejam particularmente interessados em ter de descobrir quem é Reid Hoffman.” A motivação por trás dos atraques parece estar ligada a Elon Musk, que este ano trocou críticas publicamente com Hoffman por causa de sua menção nos arquivos de Epstein, afirmou uma fonte.
O chefe da SpaceX que, segundo os arquivos de Epstein, também trocou correspondência com o falecido pedófilo, destinou mais de US$ 300 milhões a causas republicanas neste ano, tornando-se, de longe, o maior doador político conhecido dos EUA. Musk não respondeu a um pedido para comentar.
O Departamento e Justiça dos EUA, sob Trump, também voltou suas atenções para Hoffman, antigo doador dos democratas. Em maio, abriu uma investigação sobre uma organização sem fins lucrativos ligada a Hoffman que ajudou a financiar as ações civis movidas pela escritora E.
Jean Carroll contra Trump. Em um desses processos, um júri considerou o presidente responsável por abuso sexual e difamação.
Nas últimas semanas, os democratas vêm tentando direcionar para os republicanos a indignação dos eleitores com o caso Epstein. Em estados como Alasca, Maine, Iowa e Geórgia, o principal veículo de arrecadação de recursos democratas para as disputas ao Senado gastou mais de US$ 20 milhões em anúncios relacionados a Epstein, segundo uma fonte a par do assunto.
O valor foi divulgado inicialmente pelo “Politico”. Outros milhões de dólares foram gastos em anúncios de televisão sobre Epstein nas disputas para a Câmara dos Deputados, de acordo com registros públicos.
Um relatório de 53 páginas divulgado por democratas da Câmara dos Deputados na segunda-feira afirmou que “um conjunto crescente de evidências demonstra que Donald Trump participou ativamente dos abusos sexuais de jovens mulheres cometidos por Jeffrey Epstein entre meados e o fim da década de 90” e pediu a abertura de uma investigação criminal.
A Casa Branca disse que as acusações são falsas e classificou o relatório como “uma tentativa desesperada de democratas desvairados de desviar a atenção dos americanos do crescente impulso dos republicanos, graças às conquistas históricas do presidente Trump”. “O presidente expulsou Jeffrey Epstein de seu clube em Mar-a-Lago porque ele era um sujeito repulsivo, e foi plenamente inocentado de qualquer envolvimento relacionado a Epstein”, acrescentou um porta-voz da Casa Branca.
Alguns progressistas acreditam que enfatizar as ligações com Epstein – de integrantes de qualquer um dos partidos – acabará alimentando uma reação mais ampla contra o poder político dos bilionários. “Acho que não é possível entrar na política e não esbarrar em alguém que, em termos gerais, faça parte da ‘classe Epstein’”, afirmou Erica Payne, fundadora da Patriotic Millionaires, organização que defende medidas para reduzir a concentração de riqueza.
“Todo esse barulho dá mais visibilidade pública a esse fato incômodo e, acredito, aumenta a possibilidade de que ele seja enfrentado”, acrescentou ela.
Valor