Repressão violenta do Talibã faz afegãos cancelarem protestos contrários à prisão de mulheres
A cidade de Herat, no oeste do Afeganistão, amanheceu nesta sexta-feira sob forte esquema de segurança após uma semana marcada por prisões, protestos e confrontos. Veículos militares foram posicionados em diferentes pontos da cidade, enquanto agentes patrulhavam a área onde uma nova manifestação havia sido convocada em resposta à detenção de dezenas de mulheres acusadas de descumprir as rigorosas regras de vestimenta impostas pelo Talibã. Diante dos esforços de repressão, o protesto acabou cancelado.
— As pessoas desistiram da manifestação hoje para evitar mais derramamento de sangue — disse uma professora de 34 anos, que não foi identificada por razões de segurança.
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A tensão mais recente teve início no sábado, quando a polícia da moralidade prendeu dezenas de mulheres por não usarem o chador ou a burca, vestimentas que cobrem todo o corpo. A Missão de Assistência da ONU no Afeganistão (UNAMA, na sigla em inglês) documentou a detenção de pelo menos 30 mulheres em Herat apenas no fim de semana. Em resposta, moradores foram às ruas para protestar contra as prisões.
Uma manifestação realizada por dezenas de homens na terça-feira, no distrito de Injil, foi dispersada com tiros de munição real, segundo duas testemunhas ouvidas pela AFP. A polícia local negou o uso de armas e acusou os manifestantes de tentarem perturbar a ordem pública. Segundo dez especialistas independentes nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, no entanto, ao menos dez pessoas, incluindo um menor de idade, foram mortas. Outras 20 ficaram feridas.
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Na quinta-feira, o grupo divulgou uma nota em que condenava tanto as detenções quanto a repressão das manifestações. O comunicado classificou as prisões por violação do código de vestimenta como potencialmente arbitrárias e ilegais, citando o exercício da liberdade de expressão e o direito de não discriminação baseada no gênero.
“Igualdade, reunião pacífica, liberdade de expressão e de circulação, além da proteção contra detenções arbitrárias, são direitos fundamentais”, diz o texto. Enquanto isso, a ONU Mulheres afirmou que o caso “aumentou o medo e apreensão entre mulheres e meninas” em todo o país.
Entre as mulheres detidas em Herat estava uma profissional de saúde empregada pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). Ela estava a caminho do trabalho na ala pediátrica do Hospital Regional de Herat no sábado quando foi abordada pela polícia da moralidade e acusada de descumprir o código de vestimenta. Segundo a MSF, ela ficou detida por dois dias e foi liberada após assinar, junto de seu marido e familiares, um compromisso por escrito de usar as roupas exigidas pelo Ministério para a Promoção da Virtude e a Prevenção do Vício (PVPV).
“Este incidente não é isolado. As mulheres no Afeganistão já enfrentam restrições extremamente severas à liberdade de circulação e ao acesso à vida pública”, escreveu a organização. O PVPV não comentou as detenções de mulheres em Herat por supostas violações do código de vestimenta, apesar dos pedidos de esclarecimento feitos pela imprensa.
Já na quarta-feira, o braço local do PVPV em Herat publicou uma lista de novas regulamentações que inclui a proibição do uso de maquiagem, a vedação à exposição de qualquer parte do cabelo e a obrigatoriedade do uso de meias e máscaras faciais. O aviso deixa explícito que o descumprimento das normas pode resultar em detenção e prisão.
Postos de controle nas ruas
Em todo o país, as mulheres devem estar quase totalmente cobertas quando saem de casa. Muitas usam a abaya, uma túnica longa, combinada com um véu islâmico e uma cobertura facial, em vez do chador ou da burca. O acesso a parques, academias e outros espaços públicos já é proibido às mulheres, enquanto a educação das meninas é interrompida aos 12 anos.
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Nesta sexta-feira, um jornalista da AFP observou veículos militares posicionados em diferentes áreas de Herat patrulhando a região onde a manifestação estava prevista para ocorrer. Policiais armados circulavam em motocicletas, enquanto novos postos de controle foram instalados com a presença de agentes de inteligência. Segundo moradores, a presença das forças de segurança na região aumentou significativamente desde quinta-feira.
— Havia muitas forças armadas circulando por toda parte. Foi horrível. Em cada rua há um carro particular suspeito com pessoas em roupas comuns sentadas observando os moradores — disse uma testemunha, acrescentando que agentes também passaram a verificar celulares da população, dificultando qualquer tentativa de mobilização. — Até mesmo o deslocamento de um pequeno grupo de pessoas de uma área para outra ficou difícil. O clima está muito ruim.
(Com AFP)
