Repressão à imigração derruba ritmo de crescimento dos EUA sob Trump, e avanço populacional é o menor desde a pandemia

 

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A repressão à imigração promovida pelo presidente Donald Trump contribuiu para a desaceleração do crescimento populacional dos Estados Unidos em 2025, ano em que o país alcançou quase 342 milhões de habitantes. As estimativas foram divulgadas nesta terça-feira pelo Escritório do Censo dos EUA.

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A taxa de crescimento populacional foi de 0,5% em 2025, uma queda acentuada em relação a 2024, quando o avanço foi de quase 1% — o mais alto desde 2001. O crescimento mais robusto do ano anterior havia sido impulsionado pela imigração, e as estimativas daquele período indicavam uma população total de 340 milhões de pessoas.

Em 2025, a imigração aumentou em 1,3 milhão de pessoas, bem abaixo do salto de 2,8 milhões registrado em 2024. O relatório do Censo não faz distinção entre imigração legal e irregular. Também no ano passado, o número de nascimentos superou o de mortes em 519 mil pessoas, segundo os dados divulgados.

Nos últimos 125 anos, a menor taxa de crescimento populacional foi observada em 2021, no auge da pandemia. Naquele ano, a população dos EUA cresceu apenas 0,16%, ou 522 mil pessoas, enquanto a imigração avançou em apenas 376 mil, impactada pelas restrições de viagem ao país. Antes disso, o crescimento mais baixo havia sido registrado em 1919, durante a gripe espanhola, quando ficou pouco abaixo de 0,5%.

Crescimento populacional

A redução da imigração teve impacto direto sobre o crescimento populacional de vários estados tradicionalmente conhecidos por atrair imigrantes.

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A Califórnia registrou uma perda líquida de 9,5 mil habitantes em 2025, uma reversão significativa em relação ao ano anterior, quando o estado havia ganhado 232 mil residentes. Em ambos os anos, aproximadamente o mesmo número de californianos que já viviam no estado se mudou para fora. A diferença esteve na imigração: o saldo líquido de imigrantes caiu de 361 mil pessoas em 2024 para 109 mil em 2025.

A Flórida também apresentou quedas tanto no número de imigrantes quanto no de pessoas vindas de outros estados. O chamado Sunshine State, que se tornou mais caro nos últimos anos devido à valorização imobiliária e ao aumento dos custos de seguro residencial, recebeu apenas 22 mil migrantes internos em 2025, frente a 64 mil no ano anterior. O saldo líquido de imigrantes caiu de mais de 411 mil para 178 mil pessoas.

Nova York teve um crescimento populacional mínimo em 2025, com a adição de apenas 1.008 habitantes. O desempenho foi influenciado principalmente pela queda no saldo migratório de imigrantes, que recuou de 207 mil pessoas em 2024 para 95,6 mil no ano passado.

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Efeitos da repressão

A divulgação dos dados ocorre em meio a esforços de pesquisadores para avaliar os efeitos da repressão à imigração adotada no segundo governo Trump, após o retorno do republicano à Casa Branca em janeiro passado. Durante a campanha presidencial de 2024, Trump transformou o aumento do número de migrantes em um dos principais temas de sua plataforma eleitoral.

Os números divulgados nesta terça-feira refletem o período entre julho de 2024 e julho de 2025, abrangendo os meses finais do governo democrata do presidente Joe Biden (2021-2025) e a primeira metade do primeiro ano de Trump de volta ao cargo.

As estimativas capturam o início das operações intensificadas de fiscalização migratória em cidades como Los Angeles e Portland, no Oregon, mas ainda não incluem os efeitos das ações lançadas posteriormente pelo governo Trump em Chicago, Nova Orleans, Memphis, no Tennessee, e Minneapolis, em Minnesota.

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Os dados de 2025 contrastam fortemente com os de 2024, quando a migração internacional líquida respondeu por 84% do aumento de 3,3 milhões de pessoas na população do país em relação ao ano anterior. O salto da imigração naquele período foi atribuído, em parte, a um novo método de contagem que passou a incluir pessoas admitidas nos EUA por razões humanitárias.

A divulgação das estimativas de 2025 foi adiada pela paralisação do governo federal no ano passado e ocorre em um momento delicado para o Escritório do Censo e outras agências estatísticas do país. O órgão, maior agência estatística dos EUA, perdeu cerca de 15% de sua força de trabalho no ano passado, em razão de programas de desligamento voluntário e demissões associados a medidas de contenção de gastos conduzidas pela administração Trump.

Outras decisões recentes do governo republicano, como a demissão de Erika McEntarfer do cargo de comissária do Escritório de Estatísticas do Trabalho, levantaram preocupações sobre possível interferência política em agências estatísticas. Ainda assim, o demógrafo William Frey, da Brookings Institution, avaliou à Associated Press que o trabalho técnico do Censo segue preservado.

— Portanto, não tenho motivos para duvidar dos números divulgados — afirmou.