Renner recolhe camisetas com a frase 'regret nothing', usada por acusado de estupro

 

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A Renner suspendeu a venda e retirou de suas lojas camisetas com a frase “regret nothing” (“nĂŁo se arrependa de nada”, em portuguĂȘs), expressĂŁo frequentemente associada a fĂłruns da chamada “machosfera”, universo de comunidades online que reĂșnem grupos masculinistas e propagam discursos de Ăłdio contra mulheres.

Apesar da postura da varejista, O GLOBO encontrou camisetas com frases relacionadas ao movimento masculinista em marketplaces como Mercado Livre e Amazon, incluindo referĂȘncias aos red pills e Ă  sigla MGTOW (Men Going Their Own Way), que prega o afastamento de relacionamentos com mulheres.

A expressĂŁo “regret nothing” ganhou repercussĂŁo recentemente depois que Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, usou essa mesma blusa ao se entregar Ă  polĂ­cia. Ele Ă© rĂ©u por estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos em Copacabana, no Rio de Janeiro.

A frase aparece com frequĂȘncia em conteĂșdos ligados ao influenciador americano Andrew Tate, que reĂșne milhĂ”es de seguidores nas redes sociais e Ă© declaradamente misĂłgino. O coach responde na Justiça a acusaçÔes de estupro, trĂĄfico humano e exploração sexual.

Procurada, a Renner disse repudiar qualquer forma de violĂȘncia ou conduta ofensiva e que o processo criativo da peça nĂŁo tem relação com o movimento red pill. “Toda a base conceitual e estĂ©tica foi pautada em manifestaçÔes culturais contemporĂąneas, como poesias e composiçÔes musicais”, disse em nota.

Na Amazon, a busca do GLOBO encontrou alguns produtos de cunho masculinista. Foram encontrados anĂșncios de camisetas com a estampa “MGTOW”.

Em outra camiseta encontrada na plataforma, aparece a frase “Facts Don't Care About Your Feelings” (Fatos nĂŁo se importam com os seus sentimentos, em portuguĂȘs), atribuĂ­da ao comentarista americano Ben Shapiro, mas frequentemente usada em fĂłruns da machosfera. A empresa nĂŁo retornou atĂ© o fechamento da reportagem.

No Mercado Livre, a pesquisa tambĂ©m mapeou camisetas com a estampa “MGTOW”. Inclusive, em um dos anĂșncios, um consumidor avaliou o produto com a seguinte frase: “Bendito seja o homem que segue seu prĂłprio caminho”, enquanto outros agradeceram em nome da “causa”.

Foi encontrada tambĂ©m uma camiseta com referĂȘncia mais direta ao movimento red pill, com os dizeres: “Don’t be a beta, take a red pill” ("NĂŁo seja um beta, tome a pĂ­lula vermelha"). Em comunidades online masculinistas, “beta” Ă© usado de forma pejorativa para descrever homens submissos ou fracos.

Segundo as polĂ­ticas de cadastro de anĂșncios do Mercado Livre, os usuĂĄrios devem manter uma comunicação “respeitosa e cordial” em todas as ĂĄreas da plataforma — incluindo anĂșncios, conteĂșdos patrocinados, mensagens, perguntas e respostas e avaliaçÔes.

As regras tambĂ©m proĂ­bem o uso de linguagem ofensiva ou de “siglas que possam ser interpretadas como insultos”, alĂ©m da publicação de conteĂșdos violentos ou discriminatĂłrios, seja por motivo de gĂȘnero, religiĂŁo, idade ou outros.

Procurado, o Mercado Livre disse repudiar de qualquer forma de incitação Ă  violĂȘncia, discriminação ou discurso de Ăłdio contra pessoas ou grupos, e os itens mencionados estĂŁo sendo removidos da plataforma. “A empresa mantĂ©m diretrizes e polĂ­ticas que estabelecem critĂ©rios claros para a comercialização de produtos e disponibiliza canais de denĂșncia para reportar conteĂșdos que violem essas regras”, continua a nota.

Em todos os anĂșncios da plataforma hĂĄ a opção “denunciar”, por meio da qual qualquer usuĂĄrio pode sinalizar a venda de produtos ilegais ou em desacordo com as polĂ­ticas do site. AnĂșncios que nĂŁo atendem a essas diretrizes sĂŁo removidos, e os vendedores responsĂĄveis ficam sujeitos Ă s medidas previstas nas polĂ­ticas do marketplace, disse a empresa.

JĂĄ de acordo com as regras das pĂĄginas de produtos da Amazon para itens vendidos no Brasil, nĂŁo Ă© permitido incluir, em tĂ­tulos, descriçÔes, listas com marcadores ou imagens das pĂĄginas de detalhes dos produtos, conteĂșdos que incentivem Ăłdio ou discriminação racial, nem materiais ofensivos.

O que pode e o que nĂŁo pode?

As advogadas Mariana Borges e Stephanie Eschiapati, do escritĂłrio Lopes Muniz, explicam que nĂŁo hĂĄ uma lei que proĂ­ba a venda de produtos associados ao movimento “red pill” ou a outras vertentes masculinistas. Esses movimentos estĂŁo amparados pelo princĂ­pio constitucional da liberdade de expressĂŁo, que, no entanto, nĂŁo Ă© absoluto.

— Quando um produto contĂ©m mensagem que ultrapassa o campo da opiniĂŁo e passa a estimular discriminação, hostilidade ou violĂȘncia, pode ser interpretado como incitação de discurso de Ăłdio e/ou violĂȘncia de gĂȘnero e acarretar consequĂȘncias administrativas ou jurĂ­dicas — diz Mariana.

Ela lembra que as plataformas tĂȘm polĂ­ticas internas sobre conteĂșdos e itens permitidos e podem remover anĂșncios apĂłs denĂșncias pelos consumidores.

— A retirada deverĂĄ ser determinada por ordem judicial, desde que demonstrado que a expressĂŁo, ainda que aparentemente neutra, esteja inserida em um contexto de discurso discriminatĂłrio ou de incitação Ă  violĂȘncia, como se discutiu recentemente no caso da camiseta com a frase “regret nothing”.

Universo masculinista

Entre os grupos mais conhecidos desse universo masculinista online estĂŁo os chamados red pills, que dizem incentivar os homens a “despertar para a realidade”. A expressĂŁo faz referĂȘncia ao filme The Matrix, no qual a pĂ­lula vermelha revela a verdade, conta Thayz Athayde, do Grupo de Estudos em GĂȘnero, Sexualidade e Interseccionalidades (Geni) da Uerj.

Nos fĂłruns ligados ao movimento, “tomar a red pill” significa passar a enxergar as relaçÔes de gĂȘnero a partir da ideia de que a sociedade favorece as mulheres e de que os homens estariam sendo enganados por discursos feministas.

— O movimento masculinista jĂĄ existe hĂĄ anos. HĂĄ quinze anos, jĂĄ era possĂ­vel ver isso. O movimento red pill Ă© mais recente e surge a partir do movimento masculinista. É mais centrado na internet e sabemos que muitos adolescentes sĂŁo adeptos a ele. Olha sĂł onde essa informação estĂĄ chegando e o problema que temos em relação Ă s mĂ­dias — diz a pesquisadora.

Thayz acrescenta que, apesar de ser comumente apresentado como uma novidade, o movimento red pill nĂŁo sai dos mesmos moldes do masculinismo tradicional:

— O que Ă© um homem sem sentimentos ou arrependimentos? Esses fĂłruns falam bastante sobre como as mulheres nĂŁo os querem, como elas sĂŁo livres. Parece que Ă© novo, mas, na verdade, Ă© velho.

Jå Giane Silvestre, pesquisadora do NEV, diz que o crescimento dos masculinistas acontece por meio de duas frentes, sendo o primeiro deles o avanço da internet. Esses discursos tendem a ganhar força em canais de menor visibilidade, como o Discord, e também em um contexto de desregulação das redes sociais.

— ManifestaçÔes de machismo e misoginia sempre existiram, mas a internet potencializa nĂŁo sĂł as manifestaçÔes, mas o agrupamento das pessoas com esse pensamento. Tanto o agrupamento, como o recrutamento de outras pessoas que compartilham dessas ideias.