Rendimentos de Exportação Remetidos ao Exterior, por Fernando Nogueira da Costa
Rendimentos de Exportação Remetidos ao Exterior
por Fernando Nogueira da Costa
A alta rentabilidade de exportadoras de commodities não se traduz automaticamente em enriquecimento estrutural do país porque o efeito macroeconômico dessas rendas depende de como elas se propagam pelo sistema econômico. Em muitas economias exportadoras de recursos naturais, inclusive a brasileira, essa propagação é limitada por alguns mecanismos estruturais.
Podemos compreender isso em cinco dimensões sistêmicas.
A primeira é a renda de recursos naturais é concentrada. Grande parte do excedente gerado em setores como mineração, petróleo e agronegócio fica concentrada em poucas empresas de grande escala, como Vale S.A. e Petrobras
Essas atividades têm cadeias produtivas relativamente curtas quando comparadas à indústria de transformação. Como consequência, há menor multiplicador de emprego, menor difusão tecnológica e menor espalhamento regional da renda.
Uma fábrica de automóveis, por exemplo, cria uma cadeia extensa de fornecedores. Uma mina de ferro ou uma fazenda altamente mecanizada cria muito menos.
Outra dimensão é a baixa densidade industrial. Economistas estruturalistas como Raúl Prebisch e Celso Furtado enfatizaram o desenvolvimento depender da densidade da estrutura produtiva.
Indústrias complexas geram aprendizado tecnológico, estimulam inovação e criam encadeamentos intersetoriais. Exportações primárias geram renda, mas não necessariamente ampliam a complexidade econômica.
Ciclos internacionais de commodities ocorrem porque seus preços são altamente voláteis. Eles dependem da demanda global, especialmente de grandes economias industriais, como a China.
Assim, o país exportador enfrenta períodos de boom (altos preços), seguidos de períodos de queda abrupta. Isso produz ciclos macroeconômicos instáveis, dificultando planejamento de longo prazo.
A apreciação cambial incentiva importação e provoca desindustrialização. Durante booms de commodities, ocorre entrada de divisas e valorização da moeda local. Esse fenômeno é conhecido como “doença holandesa”.
O termo “doença holandesa” é associado à experiência dos Países Baixos (Holanda), na década de 1960, porque nesse período o país viveu uma crise econômica paradoxal após a descoberta de grandes jazidas de gás natural em Groningen. Embora a descoberta tenha gerado uma enorme riqueza, ela provocou efeitos colaterais negativos na estrutura econômica do país.
A moeda valorizada barateia importações e reduz competitividade da indústria doméstica. O resultado é a perda de participação da indústria no PIB e maior dependência de commodities. Mas possibilita também menor inflação importada.
A renda gerada pelas exportações pode seguir três caminhos principais: consumo imediato, distribuição de dividendos ou investimento produtivo. Quando predominam os dois primeiros, a renda não se transforma em capacidade produtiva adicional.
Alguns países resolveram esse problema criando fundos soberanos, como o da Noruega. Transforma renda do petróleo em investimento financeiro de longo prazo.
Se a rentabilidade das commodities permanece superior à de outros setores, ocorre um efeito de realocação do capital: investidores migram para atividades primárias e setores industriais perdem dinamismo. No longo prazo, essa especialização regressiva reduz a diversificação produtiva.
Portanto, a elevada rentabilidade das exportadoras não garante desenvolvimento porque a renda é concentrada, os encadeamentos produtivos são limitados, os preços internacionais são voláteis, o câmbio pode prejudicar a indústria e parte do excedente não se transforma em investimento produtivo. Assim, o país pode gerar grande riqueza privada em setores específicos, mas ainda apresentar crescimento estrutural instável.
Um paradoxo importante do caso brasileiro foi, apesar dessas limitações estruturais, o Brasil conseguiu acumular uma das maiores massas de riqueza financeira doméstica do mundo emergente. Isso ocorreu embora grande parte da apropriação dos lucros das grandes empresas instaladas no Brasil, inclusive de origem nacional, seja feita por participações acionárias de estrangeiros e, por isso, há remessa de lucros provocadoras de déficit no balanço de transações correntes brasileiro.
Esse aparente paradoxo — grande massa de riqueza financeira doméstica coexistindo com substantivas remessas de lucros ao exterior — decorre da forma particular como o sistema financeiro brasileiro se estruturou desde a reforma financeira da ditadura militar. O ponto central é distinguir três circuitos distintos de renda e riqueza: 1. lucros corporativos das empresas; 2. poupança financeira doméstica; 3. fluxos internacionais de renda (lucros e dividendos). Esses circuitos se cruzam, mas não são idênticos.
A reforma financeira iniciada após o golpe militar de 1964 reorganizou profundamente o sistema monetário e bancário brasileiro. Entre os marcos institucionais estão a criação do Banco Central do Brasil e do Conselho Monetário Nacional, a institucionalização da indexação financeira e a expansão do mercado de títulos públicos.
Essa estruturação permitiu algo raro entre economias emergentes: a formação de poupança financeira em moeda nacional. Mesmo em períodos de inflação elevada, os ativos financeiros eram protegidos por mecanismos de correção monetária.
O resultado foi as famílias de renda média e alta mantiveram riqueza em ativos financeiros domésticos e os bancos, os fundos de pensão e os de investimentos acumularam grande volume de ativos por serem os maiores detentores de títulos de dívida pública.
A partir dos anos 1970, o Tesouro passou a emitir grande volume de títulos. Esses títulos tornaram-se o ativo central do sistema financeiro, adquiridos além das instituições financeiras citadas por não residentes, governos, seguradoras e investidores individuais por meio do Tesouro Direto.
Hoje, uma parcela significativa da riqueza financeira brasileira está lastreada em títulos públicos. Isso cria um fenômeno particular: a dívida pública funciona como o principal instrumento de poupança privada.
O mercado financeiro doméstico é grande mesmo com baixa poupança externa (déficit do balanço de transações correntes). O Brasil possui uma das maiores bases de investidores institucionais entre emergentes. Entre eles, destacam-se fundos de pensão como a PREVI e fundos de investimento como administração de recursos de terceiros por grandes bancos. Essas instituições concentram enorme volume de ativos.
Assim, mesmo grandes empresas de origem brasileira tenham expressivas participações acionárias de investidores estrangeiros, os ativos financeiros domésticos continuam muito volumosos.
Muitas empresas de destaque, como Petrobras, Vale e Itaú, têm capital disperso globalmente. Além de listarem ações na bolsa de valores de Nova York, as ações negociadas na B3 têm investidores institucionais estrangeiros com participação em cerca de 60% a 62% do volume total em 2025/2026.
Isso significa parte dos lucros gerados no país pertence a acionistas estrangeiros e, por isso, seus dividendos são remetidos ao exterior. Essas remessas aparecem na conta de rendas primárias do balanço de pagamentos.
O déficit em transações correntes ocorre porque lucros e dividendos, enviados ao exterior, superam rendas recebidas de investimentos brasileiros no exterior. Em termos contábeis: o superávit comercial (exportações > importações) é menor diante o déficit em serviços e rendas de investimento. Quando essa conta é negativa, as rendas de investimento pressionam o saldo externo.
Mas isso não impede acumulação financeira doméstica. Ela continua porque a riqueza financeira doméstica se forma principalmente a partir de dívida pública, crédito bancário, fundos de investimento e poupança institucional. Esses ativos são majoritariamente denominados em reais e mantidos por residentes.
Assim, coexistem dois fenômenos: grande massa de ativos financeiros domésticos e remessa significativa de lucros ao exterior.
O Brasil combina características raras entre emergentes: sistema financeiro grande e sofisticado, mercado de dívida pública profundo e presença notável de capital estrangeiro em empresas. Isso cria uma economia com elevada riqueza financeira doméstica e dependência parcial de capital externo corporativo.
No país se acumulou grande riqueza financeira porque se construiu um sistema de poupança indexada, desde os anos 1960, se expandiu massivamente o mercado de dívida pública e se formou grandes investidores institucionais domésticos. Mas parte dos lucros corporativos pertence a investidores estrangeiros, gerando remessas de dividendos e continuamente levando a déficit no balanço de transações correntes.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
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