Renato Scarpin volta a encher teatro e almeja retorno às novelas:

Renato Scarpin volta a encher teatro e almeja retorno às novelas: 'Fazer TV é mais concorrido que vestibular'

Fonte: Bandeira da fonte

Após desabafar nas redes sociais sobre a apresentação da peça 7 a 1 - Uma Comédia Boa pra Cachorro para apenas quatro espectadores, o ator Renato Scarpin, de 55 anos, não esconde a satisfação ao ver a plateia cheia no Teatro Bibi Ferreira, em São Paulo.
"Quando você encena uma comédia para um pequeno público, a reação da plateia é mais contida.
Quando o público é maior, a tendência é que as pessoas se soltem.
É uma outra energia", afirma ele, que reduziu o preço do ingresso e tem preenchido boa parte dos 300 lugares.
Com trabalhos em novelas como Avenida Brasil (Globo, 2012) e Esmeralda (SBT, 2004), Scarpin faz questão de ir ao saguão e conversar com o público após o espetáculo solo, em que interpreta sete personagens.
Quem esteve em uma sessão e observou o ator interagindo com o público.
Além de posar para selfies, ele conversou e escutou as diferentes opiniões sobre os momentos preferidos da peça.
O papel de um idoso esquecido pelo família é o que mais comove em meio às risadas.
Ao interpretar o velhinho Nicanor na peça '7 a 1 - Uma Comédia Boa pra Cachorro', Renato Scarpin promove reflexão com humor sobre o tratamento aos idosos na sociedade atual
Divulgação
Sozinho no palco, o ator também é o autor do espetáculo, em que também vive uma criança dependente de telas, um CEO de banco, um político oportunista, um jogado de futebol, uma grávida e um cachorro de pedigree.
"Não queria fazer nada partidário", explica o ator, que conta com o auxílio da esposa, a professora e diretora pedagógica Sylvia Conte, na produção.
"Meu atual casamento não tem ligação com esse meio.
Já basta eu como ator ferrado (risos)", diz, com humor.
Formado em Engenharia Civil, Renato Scarpin chegou a trabalhar como caminhoneiro, fazendo fretes, para pagar a faculdade.
"Acho que era o único cara da história da PUC que ia para a faculdade de caminhão.
A galera ia de carro zero; eu, de caminhãozinho velho", afirma ele, que chegou a trabalhar como engenheiro de obras na Alemanha.
Na volta ao Brasil, na década de 1990, decidiu investir na carreira de ator.
"Em início de carreira, dei muita sorte.
Fiz comerciais numa época em que a publicidade pagava muito bem.
Hoje, os cachês são ridículos, sem roteiros legais como eram", afirma o ator, que tem conciliado o teatro com oportunidades de trabalho em novelas verticais, como Olho por Olho - A Vingança da Herdeira, disponível em plataformas digitais, enquanto ainda não realiza a vontade de voltar às novelas convencionais.
"Adoraria ter a possibilidade de fazer uma novela na TV.
O Brasil é um país que tem uma TV aberta forte."
Quem: Você viralizou após relatar que apresentou a peça 7 a 1 - Uma Comédia Boa pra Cachorro para um público de apenas quatro pessoas em um teatro de 300 lugares.
Como tem sido a repercussão depois disso?
Renato Scarpin: Sempre que a gente começa um novo espetáculo, sem grandes meios de divulgação e sem patrocínio, sabemos que há um tempo para emplacar.
A divulgação boca a boca acaba sendo, efetivamente, a melhor divulgação.
Sempre dizia que faltava fazer uma apresentação de 7 a 1 - Uma Comédia Boa pra Cachorro para um grande público.
Quando você encena uma comédia para um pequeno público, a reação da plateia é mais contida, o riso é mais comedido.
Quando o público é maior, a tendência é que as pessoas se soltem.
É uma outra energia.
Tenho ficado muito feliz com os comentários após o espetáculo.

Não deixa desânimo bater?
Em 2009, quando estreei o espetáculo Engolindo sapo para um dia comer perereca, estreei com a casa cheia, amigos prestigiaram e tudo mais.
No segundo dia, só quatro pessoas.
No terceiro dia, seis.
Na semana seguinte, dez pessoas.
Depois, voltou a cair.
Do terceiro mês em diante, passei a ter casa cheia às sextas, sábados e domingos, chegando a fazer sessões extra no sábado.
A peça aconteceu.
Na época, eu tinha contrato com a TV Globo.
Fiquei em cartaz com essa peça por dez anos, conciliando com outros projetos, em novelas e no teatro.
Por mais de um ano, conciliei o Engolindo sapo, às 19h, e na sequência, fazia o espetáculo Trair e coçar é só começar, às 21h.
No pós-pandemia, escrevi Engolindo sapo e resolvendo os B.O.
Neste ano, quis fazer outro espetáculo, refletir um pouco sobre o que está acontecendo no Brasil.

A peça é uma comédia, mas o tom crítico sobre as relações familiares está presente.
A receptividade do público com o espetáculo é muito legal.
Escuto comentários como “amanhã vou visitar a minha mãe”, “saindo do teatro, vou telefonar para o meu pai” -- reflexo de que o personagem do velhinho toca de um jeito especial.
Também tem mães que repensam a necessidade da atenção aos filhos pequenos.
Hoje em dia, as crianças ficam muito nas telas.
Fico muito preocupado com essas crianças sem contato olho no olho, sem o ralar joelhos.
Quis interpretar uma criança por isso – é um menino que tem de tudo, afinal é uma criança rica, mas não tem o que mais queria, que é o afeto.

Renato Scarpin interpreta criança viciada em telas na peça' 7 a 1 - Uma Comédia Boa pra Cachorro'
Wellington Santos/Peixe Amarelo Estúdio
E você se sentiu motivado em abordar questões socioeconômicas.
Teve algum receio?
Entra governo, sai governo e ficamos sempre na sensação de “o país do futuro”.
Quando interpreto o CEO do banco, penso que minha função como artista foi atingida com sucesso.
Levei esse personagem para algumas apresentações em CEUs, na periferia de São Paulo.
Entre as pessoas da plateia, cerca de 30 mulheres que trabalhavam como domésticas.
Elas me chamaram para conversar depois do espetáculo e comentaram que nunca tinham parado para pensar no quanto jogavam dinheiro fora ao fazer carnês.
O brasileiro pouco poupa dinheiro, falta educação financeira.
Falta a preocupação de pagar o quanto vai custar no fim do carnê.
Muita gente pensa “se consigo pagar o carnê, está bom”.
Resolvi escrever um personagem abordando isso.
Dá muito certo!
Você é um criador de personagens.
Como surgiu esse seu lado como autor? Foi uma vontade, uma necessidade?
Quando eu viajava pelo país com a peça Motel Paradiso, do Juca de Oliveira, o stand-up explodiu.
A gente passou a ter dificuldade de levar a peça aos teatros porque as agendas deles já estavam pautadas por espetáculos de stand-up.
Não sou um ator de stand-up, sou um ator que me meto a fazer comédia.
Decidi escrever.
Nicanor, o personagem velhinho, foi criado em 2009, surgiu nessa época, ele não sabia ligar o computador, mandar um email… O personagem surgiu a partir da observação da dificuldade dos idosos com a tecnologia.
Era muito comum o idoso precisar de ajuda em um caixa eletrônico.

O título “7 a 1” logo nos remete ao placar da Copa 2014, quando o Brasil tomou uma goleada da Alemanha.
Você também traz o universo do futebol ao interpretar um jogador.

Eles estão muito mais preocupados com a imagem do que com o jogar bola.
Quando estava em processo de criação, ainda não tinha rolado a Copa 2026.
Via os amistosos e pensava: “Olha o jeito que estão jogando, só falta tomar um 7 a 1 de novo”...
Gosto muito de futebol.
Foi daí que decidi pensar na proposta de 7 a 1 para a peça.
Sete personagens, um ator.
Comecei a pirar ao imaginar os personagens.
Um dos personagens foi justamente um jogador de futebol.
O cachorro foi o último que escrevi, um personagem que critica o ser humano de maneira geral.
O ser humano acha que é o dono do universo.

Renato Scarpin caracterizado como jogador de futebol na peça 7 a 1 - Uma Comédia Boa pra Cachorro
Wellington Santos/Peixe Amarelo Estúdio
Como foi o processo de criação da peça?
A escrita do texto foi em uma semana.
Sou movido à paixão.
Quando começo a escrever, flui.
E vem uma ideia atrás da outra.
Não queria fazer nada partidário.
Na minha opinião, o artista deve ter posição política, mas não deve ter posição partidária.
Tem atores que assumem sua posição partidária e ok; eu, não.
Quando o vídeo explodiu, eu descobri comentários ocultos na minha publicação.
Teve quem me chamasse de “bolsolixo” e quem dissesse “ele fez o L”.
Estamos em ano de Copa e de Eleição, dois temas que o Brasil vive intensamente em 2026.
Para o ano que vem, quero fazer uma turnê.
Por mais que sua carreira tenha um trajetória ininterrupta no teatro, ainda muita gente te reconhece pelo audiovisual? Você gostaria de ter mais oportunidades na TV?
Brinco dizendo que sou “o quase famoso”.
Chego a um lugar, como um posto de gasolina, e falam que me conhecem de algum lugar, mas não lembram ao certo de onde.
Por incrível que pareça, a novela que mais recordam é Esmeralda, do SBT.
Fiz essa novela logo depois de ter feito Um Só Coração, minissérie da Globo em que eu fazia par da Maria Fernanda Cândido.
Esse trabalho me projetou para o Brasil inteiro.
Era um produto de primeiríssima qualidade.
Eu amo fazer televisão e amo estudar.
Quando fiz a minissérie, meu personagem era um padeiro português.
Criei apostilas para estudar o universo do personagem.
Cheguei a fazer uma cópia e presenteei o Paulo Goulart, meu tio na minissérie.
Acabei me tornando amigo dele e cheguei a fazer duas peças com ele e a Nicette [Bruno].
Me tornei amigo da família.
A Nicette me chamava de filho porque interpretei filho dela em uma das peças (emociona-se).
Só tenho a agradecer a Deus por essas oportunidades.
Memórias lindas.
Paulo Goulart e Renato Scarpin interpretaram pai e filho na minissérie 'Um Só Coração' (Globo, 2004)
Globoplay
Recentemente, sua participação em Avenida Brasil foi reexibida.
Perguntam: ‘Por que você não volta para novelas, por que não volta para a Globo?’.
Como se eu não quisesse… Fazer televisão é mais concorrido que o vestibular mais disputado do mundo.
Para um papel na televisão, são uns mil atores capacitados.
Depende do ator, do diretor,do produtor de elenco… Quando fiz Avenida Brasil, o produtor de elenco foi extremamente querido, mas não saberia se o personagem permaneceria ou se seria apenas uma participação.
Eu topo lindamente um papel pequeno.
Participação, não necessariamente.
A gente vai escalonando na carreira.
Avenida Brasil foi uma chance legal, numa novela que bombava.
Avenida Brasil 2 vem aí.
Você faria?
Ô, quero fazer! É só me chamar! (risos)
Heloisa Périssé e Renato Scarpin, como Monalisa e Jean Miguel, em 'Avenida Brasil' (Globo, 2012)
TV Globo
Sabemos que o meio artístico é instável.
Como lida com isso?
Sou formado em engenharia civil.
Abandonei a engenharia para fazer teatro.
Em início de carreira, dei muita sorte.
Comecei a fazer publicidade numa época em que se pagava muito bem nessa área.
Fiz comerciais famosos, um comercial ganhou Cannes.
Com o tempo, a publicidade foi deteriorando e, hoje, não está nem perto do que já foi.
Os cachês são ridículos, sem roteiros legais como eram.
Hoje, os comerciais estão pasteurizados, com dancinhas, numa linguagem de rede social.
Com o tempo de carreira, a gente percebe que a tal da estabilidade é difícil.
Quando eu dava aula, eu dizia aos alunos: é importante talento e vocação.

Sem vocação, é difícil se manter?
Sem talento e com vocação, é possível manter uma carreira.
Agora, com talento e sem vocação, a pessoa não fica.
Nos momentos de baixa, você se vê sem grana.
Aí, vai operar luz, ajuda um amigo a montar cenário para ganhar uma graninha.
Passei por essas fases diversas vezes.
Por exemplo, decidi fazer uma peça linda, mas foi fracasso de público.
Precisei vender o carro para pagar as dívidas.
Quando montei Engolindo Sapo, investi cerca de 300 reais.
Usei material de casa.
Após seis meses, consegui comprar um carro.
Passados alguns anos, comprei apartamento.
Veio a pandemia, vendi tudo novamente.
Foram dois anos sem pisar no teatro.
Confesso que vender o apartamento não me doeu tanto quanto vender a minha moto, uma Harley.
Passei anos, muitos anos, para ter a minha Harley-Davidson.
Meu coração espreme quando lembro que tive que me desfazer dela.
Era meu sonho de vida ter uma Harley-Davidson.
Foram anos economizando.
Viajava para Curitiba para visitar meu pai e meus sobrinhos com a moto.

A pandemia te afetou consideravelmente?
Estava feliz da vida realizando sonhos e veio a pandemia.
A pandemia quebrou todo mundo.
Gastava dinheiro e não entrava nada.
Precisei recomeçar tudo de novo.
Renato Scarpin interpreta sete personagens na peça '7 a 1 - Uma Comédia Boa pra Cachorro'
Divulgação
Ao longo desses altos e baixos, quem estava ao seu lado?
Meus dois primeiros casamentos foram com atrizes (Ana Paula Vieira e Maritta Cury).
Meu atual casamento não tem ligação com esse meio.
A Sylvia é professora e diretora escolar, fora do universo do teatro.
Já basta eu como ator ferrado (risos).
Na época de vacas magras, nunca pedi ajuda a alguém.
Na época de vacas gordas, quis presentear meu pai com um carro.
Sinto falta do meu pai.
É difícil falar nele sem embargar a voz.
Foi meu melhor amigo e o cara mais sensacional deste planeta.
Quando faleceu, mais de 700 pessoas passaram pelo velório dele, gerações e gerações de escoteiros.
Ele era um exemplo de retidão e seriedade.
Minha relação familiar é muito tranquila.
Como são de Curitiba, não participaram tanto da minha profissional.
Das minhas peças, só viram Engolindo Sapo, que foi o espetáculo que levei a Curitiba.

Quando decidiu deixar Curitiba?
Saí de Curitiba para morar no Rio em 1996.
Nessa época, fui chamado para fazer a Oficina de Atores da Globo.
Paralelamente, iria assinar uma companhia de Curitiba para fazer uma trilogia de peças por lá.
Falei com o diretor e ele disse que eu tinha cara de televisão e me incentivou a fazer a Oficina.
Fui substituído no projeto teatral.
Um dia depois, recebi a ligação de que a Oficina estava temporariamente cancelada, ou seja, fiquei sem o teatro e sem a TV.
O produtor que tinha me chamado para a Oficina ficou sem graça e disse que poderia me ajudar me indicando para testes, caso estivesse no Rio.
Comecei a fazer a mala, meu pai perguntou quando eu voltaria.
“Não sei.
Estou indo para morar”, respondi.
Viajei à noite e cheguei no Rio às 6h da manhã.
Parei em uma banca de jornal, vi classificados de quartos para alugar, visitei alguns e fechei no terceiro.

Você foi na cara e na coragem!
Fui na intempestividade.
E, nessa fase, vieram as participações em Torre de Babel, Malhação, Andando nas Nuvens.
Fiquei no Rio até o fim de 1999 e voltei para Curitiba.
Depois, em 2000, vim para São Paulo, e aqui estou desde então.
Eu me sinto bem paulistano.
A única coisa que mantenho de Curitiba é a minha torcida pelo Coxa (risos).
Gosta de fazer planos para a carreira?
Na profissão, aprendi que não dá para fazer planos.
Quero continuar essa peça.
É uma peça simples, despretensiosa, mas sempre escuto coisas que me preenchem de combustível para continuar.
Se eu puder escolher, adoraria ter a possibilidade de assinar um contrato para fazer uma novela na TV.
O Brasil é um país que tem uma TV aberta forte.
Adoraria atuar em uma série de longa duração, como Carga Pesada, adorava aquele universo dos caminhoneiros.
Renato Scarpin
Wellington Santos/Peixe Amarelo Estúdio
Você já chegou a trabalhar como caminhoneiro, não? Como foi?
Foi na época da faculdade.
Estudava de manhã em Curitiba, carregava o caminhão à tarde, pegava a estrada, ia para Londrina, onde descarregava à noite.
No dia seguinte, a mesma rotina.
Nunca perdi aulas, nunca perdi um período.
Ainda mantenho contato com a galera que se formou comigo.
Outro dia, no grupo de WhatsApp, eles brincaram: “Acho que você é o único cara da história da PUC que ia para a faculdade de caminhão”.
A galera ia de carro zero; eu, de caminhãozinho velho.
Recentemente, você experimentou as novelas verticais.
Como avalia a experiência?
Nas novelinhas verticais, você grava tudo em uma semana normalmente.
Os capítulos são curtinhos, com menos de dois minutos.
Fiz novelinhas com textos coreanos e chineses, apenas traduzidos.
Ainda bem que as equipes têm conseguido mudar um pouco porque há alguns absurdos.
Já fiz o pai aristrocrata ferrado de grana.
Ele tem que casar uma das filhas com o cara rico.
O pai bate na filha no meio da rua.
Os roteiristas têm que argumentar com os chineses e coreanos.
Não tem cabimento um homem de 50 anos surrar a filha, uma mulher, de 25, no meio da rua.
Essas novelinhas vão para plataformas como Kwai, TikTok, Youtube… Há algumas desses novelinhas com estruturas melhores, com mais grana de produção, outras não.
É um mercado novo.
Dizem que virou uma febre nos Estados Unidos e na China.
A longo prazo, não sei como vai ser a aceitação no Brasil.
Vejo muitos colegas de teatro, que nunca tiveram oportunidade no audiovisual, fazendo novelinhas como uma chance de ter portfólio.
Renato Scarpin
Wellington Santos/Peixe Amarelo Estúdio