Se o sentimento no mercado após o primeiro turno das eleições presidenciais era de que a fatura estava liquidada e o caminho, aberto para uma vitória da oposição, o clima mudou rapidamente nos últimos dias. Embora Flávio Bolsonaro (PL) continue sendo considerado favorito nas mesas de operação, a percepção é de que a disputa voltou a ficar aberta. O cenário impõe uma dificuldade prática aos investidores: diante de um desfecho que consideram binário, tornou-se inviável carregar a mesma quantidade de risco da semana passada. Não à toa, a semana foi marcada por uma forte redução nas posições dos agentes, especialmente no mercado de juros, em que parte relevante das apostas estava concentrada em posições direcionais. Nos mercados de bolsa e câmbio, por outro lado, uma parcela importante das apostas eleitorais foi construída por meio de opções, que permitem limitar as perdas ao prêmio pago quando se trata de posições compradas nesses instrumentos. Os juros futuros de cinco anos, que chegaram a ser negociados a 12,24% na semana passada, já operam a 12,76%, uma alta de 52 pontos-base. O movimento devolve parte importante do recuo de 180 pontos-base registrado desde o início de outubro até as mínimas recentes. Na avaliação dos agentes, há fatores que afastam a ideia de que o caminho até o segundo turno da eleição presidencial poderia ser “tranquilo” para a oposição. Para além das pesquisas de intenção de voto, que passaram a mostrar uma disputa bem mais parelha, as mobilizações populares organizadas pela esquerda e a força da campanha do governo nas redes sociais são interpretadas por investidores como sinais de uma recuperação da candidatura de Lula. A percepção contrasta com a leitura predominante logo após o primeiro turno, quando se esperava que a vantagem da oposição aumentasse ao longo da campanha. Por outro lado, a sequência de medidas anunciadas pelo governo — Pé-de-Meia para universitários; perdão de dívidas e a ampliação dos limites para MEIs; aprovação do fim da escala 6x1 pelo Congresso Nacional; e a recente isenção de tarifas de ônibus aos fins de semana — gera apreensão em duas frentes. A primeira é a possibilidade de que as iniciativas melhorem a aprovação do governo na reta final da disputa e aumentem as chances de reeleição. A segunda diz respeito aos custos fiscais, diretos ou indiretos, de parte das medidas, que podem tornar ainda mais difícil o ajuste das contas públicas em 2027. “O Lula está apertando todos os botões populistas e isso é ruim por dois motivos: dá algum medo no mercado do Lula conseguir virar e piora a situação fiscal para qualquer que seja o vencedor”, aponta um profissional da tesouraria de uma grande instituição local. Para esse interlocutor, com Lula de volta ao jogo, a capacidade dos investidores de carregar risco fica bastante comprometida. “Não acho que o técnico do mercado esteja ‘pesado’. O problema é: se o segundo turno não for apenas ‘pró-forma’, qualquer posição que se carrega é um risco enorme. Se der Lula, o ‘pré’ longo vai subir uns 300 pontos-base. Logo, se o Lula volta para o jogo, ninguém consegue carregar muita posição devido ao potencial de perdas caso ele vença”, aponta. A fonte afirma que as posições carregadas, neste momento, são bem menores. “E só vamos decidir o que fazer bem perto do segundo turno.” Outros profissionais de mesas de câmbio e juros de uma grande instituição local notam que a assimetria de preços após o rali do primeiro turno ficou menos interessante. “Achamos que o mercado já tinha incorporado bastante a potencial vitória do Flávio e a assimetria de preços não parece legal”, afirma um deles. Há, ainda, a avaliação de que muitos participantes do mercado acabaram montando posições após o rali do primeiro turno, quando os preços já não eram tão atraentes. Como a indústria, de modo geral, teve um desempenho fraco ao longo do ano e começou a se recuperar mais recentemente, aproveitando o rali eleitoral, a tolerância para as perdas também é menor. “Esses players acabaram sendo ‘stopados’ depois dessa correção dos últimos dias”, aponta o diretor de investimentos de uma casa local.
‘Renascimento’ da campanha de Lula recoloca mercado na defensiva
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