Renan Santos é o candidato que melhor ‘espelha’ métodos de Milei, Bukele e de la Espriella, dizem especialistas

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Renan Santos, candidato do Missão, é o postulante à presidência com mais similaridades com a cartilha dos líderes da extrema direita em ascensão na América Latina. Estudiosos ouvidos por O GLOBO apontam que o candidato possui diversas convergências com líderes como Javier Milei, da Argentina, Abelardo de la Espriella, da Colômbia e Nayib Bukele, de El Salvador. São elementos que vão do discurso à estética adotada pelo partido Missão, até o jeito de falar e as propostas elencadas como prioritárias para um eventual governo. Doutor em comunicação e semiótica, o professor Paolo Demuru conta que o primeiro elemento que chama atenção é o animal escolhido para ser símbolo do Missão. Os felinos A legenda recém-criada foi aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral em novembro do ano passado, a tempo das eleições presidenciais, e conta com uma paleta de cores preta e amarela, com a onça-pintada como símbolo. Na Colômbia, de la Espriella ficou conhecido como “El Tigre”. O animal foi adotado pelo político durante a campanha presidencial, presente na publicidade oficial, nas músicas, imagens gráficas e em diversos elementos ao longo das eleiçõas colombianas deste ano. Assim como nas roupas utilizadas pelos integrantes do partido Missão, que levam a onça, o tigre estava estampado nas vestimentas do candidato colombiano. O animal foi colado no centro da camisa amarela da seleção colombiana, utilizada em diversas ocasiões por de la Espriella. O clipe da música oficial da campanha, “El tigre de la patria”, mostra o animal rugindo e fala em um político que “caça os corruptos”.

— Essa imagem (do tigre) serviu como pilar para a construção dessa identidade de líder forte. E o Renan, e o Missão, a onça como símbolo, que é muito interessante do ponto de vista simbológico e mitológico, faz parte do imaginário brasileiro, portanto remete a uma fantasia de identidade nacional. São os bichos que estão no topo das cadeias alimentares, tem essa ideia de sucesso, de agressividade — diz Demuru. Milei, na Argentina, também fez uso de outro felino, o Leão. O candidato usou o animal em discursos diversos e em atos públicos, quando entoava trechos da canção Panic Show, da banda La Renga, que se inicia com os versos “olá a todos, eu sou o leão, a fera rugiu no meio da avenida”.

O leão também virou pelúcia e máscaras usadas pelos apoiadores de Milei, que usavam os acessórios nos atos de apoio ao presidente durante a campanha de 2023. Em 2024, o argentino foi presenteado com um quadro em que é retratado com a faixa presidencial e uma cabeça de leão. A escolha desse tipo de animal também pode ser relacionada a uma representação de “masculinidade potente”, diz Demuru, o que ajuda a chamar atenção dos eleitores com quem esses candidatos melhor dialogam, os homens jovens. Prosperidade Outro elemento em comum entre os líderes é a ideia de “prosperidade” e “hierarquia social”, explica o professor. Ele usa como exemplo o congresso do partido Missão, que foi realizado no início de agosto. O evento tinha diferentes setores, com ingressos que davam acesso a áreas comuns, mas também para setores “vip” e “open bar”, além do “pacote onça”, que prometia almoço com a direção do partido e fotos com Renan Santos. — Você tem que se dar bem na vida, todo mundo pode, mas não é para todos ao mesmo tempo. Quem consegue, consegue pelos méritos próprios. Ou seja, toda essa narrativa se liga a esse tipo de projeto, que é um projeto de uma comunidade do individualismo. O pertencimento para figuras como Bukele, Milei, é esse tipo de pertencimento comunitário neoliberal que preza o indivíduo como unidade suprema do corpo social. O indivíduo se reconhece dentro de um grupo pelas qualidades que ele tem e pelas qualidades que os outros têm. Você foi forte, conseguiu, ganhar seu primeiro milhão, se está bem nesse sistema, então você merece essa prosperidade — analisa Demuru. Do ponto de vista das propostas, Renan também é o que mais se aproxima dos líderes da extrema direita latino-americana, afirma Flavia Loss, professora de relações internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia, observando uma similaridade com Milei. — No que diz respeito à economia, as ideias do Renan me parecem muito próximas dessa ideia de anarcocapitalismo, que tem agradado muito aos jovens, ou seja, o Estado mínimo — diz Flavia. A mão dura em El Salvador Bukele, de El Salvador, virou o modelo da vez para os candidatos da direita no campo da segurança pública. O governo dele reduziu drasticamente os índices de violência no país da América Central, mas é alvo de críticas de organizações internacionais de direitos humanos, que apontam episódios de torturas e mortes dentro do sistema carcerário salvadorenho. — O Bukele se tornou um símbolo de algo que combateu a violência naquele momento e que pode ser copiado. O Renan, no programa de governo dele, faz uma menção explícita ao Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo, prisão de segurança máxima). Ele traz o bukelismo para dentro do plano — diz Flavia. Flávio Bolsonaro se encontrou com o ministro de Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, no fim de agosto. Para Flavia, no entanto, o candidato do Missão tem adotado melhor a “cartilha” dos líderes da extrema direita da região que o candidato do PL. — O Renan comunica essas ideias de extrema direita com muito mais eficácia que o Flávio. Ele tem uma vantagem porque é realmente um outsider, isso contrasta muito com a família Bolsonaro. Ele critica o Flávio também, mas não tenta ser um candidato da terceira via, ele quer pegar esses votos da direita mesmo. O Renan trouxe uma estética bem específica, que é aquela coisa bem mais incisiva, para não dizer às vezes até que parece um pouco agressiva. É a estética do MBL, eles falam para meninos, garotos principalmente, que jogam videogame online — finaliza a professora. Discurso antissistema Há duas semanas, Renan Santos teve o uso das redes sociais suspenso pelo ministro Dias Toffoli e também foi barrado de participar de sabatinas e debates. Em decisão monocrática no Tribunal Superior Eleitoral, Toffoli determinou que a campanha do candidato tinha usado perfis irregulares nas plataformas digitais para fazer campanha eleitoral. A restrição, no entanto, caiu em 1º de setembro. Foi tempo suficiente para que o candidato desse duas coletivas de imprensa, mobilizasse seguidores nas redes sociais a usarem como foto de perfil uma imagem dele com a tarja “censurado”. Ele relembrou ainda que participou de manifestações ao lado de membros do MBL após as revelações da proximidade do ministro com negócios do banqueiro Daniel Vorcaro.

Para Flávia, o episódio serviu como uma luva para que Renan fortalecesse o seu discurso como candidato outsider e “antissistema”. — Um dos principais pontos do discurso da extrema direita, e aqui eu estou generalizando, é essa ideia de que estamos sendo perseguidos porque somos antissistema, então isso acaba se reforçando, principalmente para quem já está dentro dessa campanha, quem já vai votar nele. O desafio agora é que ele consiga levar isso para um outro tipo de público, que ainda só está flertando com ele — diz Flávia. O episódio, no entanto, não teve força para movimentar as intenções de voto em Renan até o momento. Na pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira, o candidato do Missão marcou 4% das intenções de voto, oscilando dentro da margem de erro em relação aos dois levantamentos anteriores, quando marcou 3%. No Datafolha divulgado na última semana, o candidato marca também 3%. Renan foi ofuscado pelo crescimento do escritor Augusto Cury (Avante), que saiu de 2% para 8%, e depois para 6% no último Datafolha. Ele oscilou de 2% para 10%, e depois para 7% na pesquisa Quaest desta semana. Nas últimas entrevistas após compromissos de campanha, Renan tem demonstrado certa insatisfação com o crescimento de Cury, tendo chamado o candidato de “pastel de vento” pelo posicionamento neutro do adversário, que tem tentado se colocar como um candidato de centro. — Sobre Augusto Cury, a República está passando por momentos de crise. Ele é uma pessoa que nunca se posicionou em nenhum momento de crise. Ele é um pastel de vento. Só que uma parte importante da população quer comer um pastel de vento porque ela está cansada das brigas políticas — disse o candidato do Missão durante coletiva de imprensa. Questionado por O GLOBO sobre as críticas do adversário, Cury respondeu com bom humor. — Eu gosto muito de pastel. Eu acho uma delícia. E eu respeito o Renan, espero até que ele resolva essa equação para podermos debater o Brasil. Não vou ofendê-lo. [...] Eu só quero dizer que, reitero, os adversários têm que colocar suas propostas. E o povo brasileiro é quem decide — disse o escritor.

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