247 – Um avanço científico de grandes proporções promete transformar o tratamento do tipo de tumor com maior índice de mortalidade no país. Dados de um estudo prolongado revelam que 55% dos pacientes com câncer de pulmão em estágio avançado submetidos ao uso diário de lorlatinibe permaneceram vivos e sem progressão da enfermidade após sete anos de acompanhamento.
A marca, inédita para um quadro grave da doença, representa uma evolução histórica no campo da oncologia, informa o G1. O mecanismo do lorlatinibe baseia-se na chamada terapia-alvo, estratégia focada em bloquear alterações genéticas específicas que impulsionam o crescimento tumoral.
Em vez de definir o tratamento apenas pelo órgão afetado, exames de sequenciamento genético identificam as mutações exatas de cada paciente. O medicamento em questão atua exclusivamente nos casos que apresentam o rearranjo no gene ALK, alteração identificada em 3% a 7% das ocorrências do tipo mais comum de câncer de pulmão.
Na presença dessa mutação, a célula passa a fabricar uma proteína defeituosa que envia comandos contínuos para a proliferação das células cancerígenas, atuando como um interruptor continuamente acionado. Ao se conectar ao alvo molecular, o lorlatinibe interrompe esse sinal biológico.
A medicação foi desenvolvida para superar dois entraves de tratamentos anteriores: a resistência adquirida pelo tumor e a dificuldade de ultrapassar a barreira hematoencefálica, estrutura de proteção natural do corpo que restringe a entrada de substâncias no cérebro. A ultrapassagem dessa barreira é fundamental, dado que metástases cerebrais afetam entre 25% e 40% dos pacientes dois anos após o diagnóstico.
A capacidade de manter a enfermidade sob controle por longos períodos altera a própria abordagem médica no momento do diagnóstico. De acordo com o oncologista Gustavo Schvartsman, do Hospital Sírio-Libanês, esse resultado reflete a evolução constante das abordagens terapêuticas:
“Nunca alguém passava de cinco anos sem a doença progredir quando só existia quimioterapia. Com os inibidores de primeira geração, foi para 5% ou 10% dos pacientes; com a segunda geração, 20% a 30%; agora chegamos a 55%.
O avanço é muito grande e vemos um passo enorme no dia a dia do paciente”, afirma. Os impactos dessa transformação refletem-se na rotina de Paula Piteri.
Diagnosticada em 2020 aos 38 anos, sem histórico de tabagismo e com hábitos saudáveis, ela passou por cirurgia sem realizar sequenciamento genético na época. Em 2025, recebeu a notícia da recidiva da doença.
“Foi um choque, eu sou mãe de três crianças e isso podia mudar minha vida completamente”, conta. Atualmente em uso do lorlatinibe há quase um ano, Paula destaca a recuperação de suas expectativas pessoais:
“É muito bom ter perspectiva, saber que eu tenho vida para viver. Eu quero fazer parte disso e viver por muitos anos ainda”, diz.
Embora o período de sete anos de monitoramento seja raro e expressivo na oncologia, a comunidade científica ressalta a existência de desafios pendentes. O estudo apontou que 45% dos pacientes não obtiveram resposta favorável, exigindo novas investigações.
Além disso, reações adversas graves (graus 3 ou 4) afetaram 77% dos participantes. No sistema nervoso central, 52% relataram efeitos secundários, incluindo oscilações cognitivas, mudanças de humor e distúrbios psiquiátricos mais severos.
O biomédico Matheus Henrique Dias, pesquisador de medicamentos contra o câncer na Holanda, reforça a importância de ponderar a qualidade de vida durante o tratamento: “Para quem tem essa mutação específica, vai ser de fato uma mudança grande”, diz.
“Vemos que ainda há alguns pontos que precisam ser considerados. É importante que as pessoas vivam, mas é muito importante que elas continuem sendo, em boa medida, elas mesmas”, diz Dias.
O oncologista Stephen Stefani pontua a relevância dos dados no contexto histórico das terapias: “A diferença de eficácia se torna muito gritante quando você vê essa análise de sete anos e é um resultado relevante para o paciente”, avalia.
Para além das questões científicas, o acesso à inovação enfrenta entraves econômicos e estruturais. O câncer de pulmão lidera as estatísticas de mortalidade por neoplasias entre homens e mulheres no Brasil, somando 31.237 óbitos anuais, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Contudo, a medicação custa cerca de R$ 37 mil por caixa com 30 comprimidos, conforme a tabela do Ministério da Saúde. O tratamento contínuo pelo período analisado na pesquisa ultrapassaria R$ 3,1 milhões por indivíduo.
O medicamento não integra a rede pública de saúde. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) indeferiu a inclusão do lorlatinibe no SUS em razão do elevado impacto financeiro.
“O Comitê de Medicamentos considerou que, apesar das evidências apresentadas e dos benefícios do tratamento, a relação de custo-efetividade não aponta eficiência para o SUS, tendo em vista que nenhuma das intervenções ficou abaixo do limite de custo-efetividade”, pontuou a comissão no relatório.
A falta de testes genéticos na rede pública representa outro obstáculo significativo, impedindo que a mutação no gene ALK seja identificada precocemente. O oncologista Gustavo Schvartsman sintetiza a interdependência entre diagnóstico e tratamento:
“Não adianta fazer o teste num sistema onde o remédio não vai estar disponível. E não adianta ter o remédio se o paciente não conseguiu o diagnóstico correto”, resume Schvartsman.
Atualmente, a utilização da droga é viabilizada por meio de planos de saúde privados — visto que o fármaco consta no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) —, por meio de ações judiciais contra o Estado ou via custeio próprio.
Brasil 247