Rentosertib, remédio desenvolvido com apoio de inteligência artificial pela Insilico Medicine, é testado contra fibrose pulmonar e mostra reflexos na idade biológica de pacientes Yuichiro Chino/Getty Images Um remédio cuja estrutura molecular foi desenhada com apoio de inteligência artificial mostrou, em um ensaio clínico, sinais de reduzir marcadores biológicos de envelhecimento. O composto, batizado de rentosertib, foi desenvolvido originalmente para tratar fibrose pulmonar idiopática, doença crônica que cicatriza o tecido dos pulmões e reduz a capacidade de oxigenar o sangue. O resultado está em um estudo publicado na segunda-feira na revista Nature Biotechnology pela Insilico Medicine, empresa de biotecnologia que usa inteligência artificial para acelerar a descoberta de medicamentos. A análise usa dados do mesmo ensaio clínico que, no ano passado, já havia indicado ganhos na função pulmonar de pacientes com a doença. Como o remédio foi desenhado O rentosertib nasceu da plataforma de inteligência artificial da Insilico chamada Pharma.AI, criada para identificar alvos biológicos ligados a doenças e depois desenhar moléculas capazes de atuar sobre eles. No caso do rentosertib, o alvo identificado foi uma proteína chamada TNIK, associada ao avanço da fibrose pulmonar. "É como escanear uma fechadura e gerar uma chave que se encaixa nela", descreveu Alex Zhavoronkov, fundador e presidente-executivo da Insilico Medicine, em entrevista ao New York Times sobre o método de desenho de moléculas. A empresa foi fundada em 2014 e está entre as pioneiras a aplicar redes neurais, a mesma tecnologia por trás de sistemas como o ChatGPT, ao processo de descoberta de fármacos. O que são os relógios de envelhecimento Para medir o efeito do remédio sobre o envelhecimento, os pesquisadores recorreram a seis "relógios de envelhecimento", modelos matemáticos treinados para estimar a idade biológica de uma pessoa a partir do perfil de proteínas presentes no sangue. Entre os modelos usados no estudo estão o ProtAge, o OrganAge e o PAC, desenvolvidos por grupos independentes ligados a universidades como Harvard, Oxford e Pequim, além da própria Insilico. Cada relógio calcula a idade prevista de um jeito diferente, com bases de dados e métodos de treinamento próprios. Por não compartilharem código nem os mesmos dados, a concordância entre eles é o que chama atenção dos cientistas: os seis modelos, de forma independente, apontaram redução na idade biológica prevista dos pacientes tratados com o remédio. O estudo analisou dados de 42 pacientes com fibrose pulmonar idiopática ao longo de 12 semanas de tratamento. Segundo o comunicado da Nature Biotechnology sobre a pesquisa, o efeito mais forte apareceu no grupo que recebeu 30 miligramas do remédio duas vezes ao dia, com queda de três a quatro anos na idade biológica prevista pela maioria dos modelos já na quarta semana de tratamento, chegando a até seis anos em um dos relógios. Além da idade biológica, o estudo também acompanhou a capacidade vital forçada dos pacientes, medida usada para avaliar a função pulmonar, e observou melhora proporcional à dose administrada, na mesma direção indicada pelos relógios de envelhecimento. Cientistas ouvidos pelo New York Times destacam que o estudo é promissor, mas não conclusivo. Eric Topol, cardiologista e autor do livro "Super Agers", disse que o remédio "parece promissor, mas ainda não há um ensaio definitivo para conclusões finais". Vadim Gladyshev, professor da Harvard Medical School que ajudou a desenvolver um dos relógios usados no estudo, ponderou que a amostra é pequena e que esses modelos nem sempre são confiáveis. Ainda assim, ele considera o resultado relevante: "é o primeiro estudo que mostra, com clareza, que a idade biológica prevista pode ser reduzida". O ensaio foi conduzido exclusivamente com pacientes de fibrose pulmonar, o que significa que os resultados podem estar ligados à melhora da doença em si e não a um efeito geral sobre o envelhecimento. A Insilico ainda não testou o remédio em pessoas saudáveis, e o rentosertib segue em fase de testes, sem data prevista para eventual aprovação regulatória. Michael Levitt, laureado com o Nobel de Química em 2013, avaliou o achado a partir da concordância entre os modelos, e não do tamanho do efeito medido, segundo declaração à imprensa reproduzida pelo site The Decoder: "o que me convence não é o tamanho do efeito, mas a concordância entre eles". Próximos passos da pesquisa Para outros especialistas em longevidade, o desenho do estudo pode servir de modelo para pesquisas futuras que combinem tratamentos de doenças específicas com o acompanhamento de marcadores de envelhecimento. Evelyne Bischof, professora de medicina da Universidade de Tel Aviv especializada em longevidade, afirmou ao New York Times que "esses são métodos que usaremos em ensaios futuros". A Insilico Medicine planeja apresentar os resultados completos do estudo nesta semana durante conferência da Nature Biotechnology em Paris, com Zhavoronkov como autor principal da pesquisa.
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Remédio desenvolvido com IA reduz marcadores de envelhecimento, mostra estudo
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