Relembre como a Copa de 1978 ajudou a expor ao mundo a ditadura da Argentina
Quase meio século antes de a seleção argentina entrar em campo neste sábado (27) contra a Jordânia na Copa do Mundo de 2026, o mundial de 1978 já havia feito história no país ao servir de vitrine para as denúncias das Mães e Avós da Praça de Maio sobre o desaparecimento de milhares de jovens sob a ditadura.
A Argentina viveu um regime militar entre 1976 e 1983, que teria resultado no desaparecimento de mais de 30 mil pessoas, segundo estimativas da Secretaria de Direitos Humanos do país.
Na época, com a Copa do Mundo programada para acontecer no país desde antes do golpe, o objetivo do governo do então presidente, o general Jorge Rafael Videla, era usar o torneio para fortalecer a sua própria imagem e desacreditar denúncias de expatriados contra o regime.
A resistência das mulheres
Durante os anos de repressão, a oposição era violentamente reprimida, com relatos de sequestro e tortura de pessoas contrária ao regime de exceção em centros clandestinos.
Isso gerou o movimento que hoje é conhecido como as “Mães e Avós da Praça de Maio” e que, com seus lenços brancos na cabeça, se tornaram símbolo de resistência ao regime e tiveram um papel fundamental ao expor os abusos para o mundo durante a Copa.
Durante o campeonato, em frente à Casa Rosada, sede do poder executivo nacional, o grupo de mulheres permaneceu realizando as suas marchas semanais em busca de informações dos seus filhos e netos desaparecidos.
Isso fez com que diversos jornalistas internacionais fossem à praça para entrevistar essas mães, que se atreveram a denunciar a opressão do regime. Um vídeo produzido pelo Monumento às Vítimas do Terrorismo do Estado argentino sobre o mundial de 1978 mostra trechos de uma reportagem feita por jornalistas holandeses nos quais um grupo de mães expõe suas queixas.
Nele, é possível observar diversas mulheres relatando que o governo argentino dizia que o país estava em paz durante a Copa do Mundo e questionando o paradeiro de seus filhos e netos. Elas também afirmaram que haviam enviado cartas aos jogadores de futebol argentinos para informá-los sobre o desaparecimento de jovens e crianças, mas que não sabiam se eles as receberam.
A repercussão dessas entrevistas no cenário internacional criou um escândalo de direitos humanos para o governo ditatorial. Segundo relatos, a seleção da Holanda, que foi vice-campeã da Copa do Mundo em 1978, se recusou a receber as medalhas e a cumprimentar general Jorge Rafael Videla.
Fim da ditadura
Apesar das manifestações internas, foi a deterioração da economia argentina que abalou as estruturas da ditadura no país. Em 1982, o então ditador Leopoldo Galtieri invadiu as Ilhas Malvinas, território controlado pelo Reino Unido, para tentar recuperar o apoio popular. A Argentina foi derrotada, o que prejudicou ainda mais a manutenção do regime de exceção, o que obrigou os militares a convocarem eleições livres. Em dezembro de 1983, Raúl Alfonsín assumiu a presidência.
A busca por justiça na Argentina condenou mais de 1,2 mil repressores em cerca de 300 ações civis, segundo a Secretaria de Direitos Humanos do país. Já as Mães e Avós da Praça de Maio conseguiram, até hoje, identificar 140 netos apropriados ilegalmente durante a ditadura militar.
