Relaxem, em quatro anos muda

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Segundo a interpretação maximalista da realidade, a América Latina está se transformando num bloco furiosamente direitista, pronto a seguir os comandos do caudilho Donald Trump, destroçar conquistas sociais e espalhar outras maldades. Uma vitória da direita no Brasil completaria o “mapa latino-americano de Trump”, segundo o New York Times, que olha o mundo da seguinte ótica: se é bom para o presidente americano, é péssimo para todos os demais.

E qual o plano maligno da “doutrina Donroe”? Invadir vizinhos fracos e submetê-los a uma cruel dominação imperialista? O Times resume de má vontade: “O governo Trump transformou em prioridade máxima uma nova guerra contra drogas”. Quem pode ser contra isso? Quem pode condenar um enfrentamento às quadrilhas de narcotraficantes, que, elas sim, enfraquecem a soberania nacional ao minarem gravemente as instituições com o dinheiro fácil que compra tudo? Usamos a palavra “enfrentamento” porque o conceito de vitória inexiste nessa guerra: a droga está entranhada no estilo de vida dos que a consomem e nem a maior superpotência da história pode acabar com isso.

Mas pode evitar que se transmute numa força com capacidade de substituir o próprio Estado. Dá para ficar contra?

“O grande número de governos de direita na América Latina não é uma situação permanente” Isso sem contar que o grande número de governos de direita atualmente na América Latina não é uma situação permanente.

Desgastados pelo poder ou por seus próprios erros, muitos poderão perder nas urnas na próxima rodada. Poucos deles têm estruturas partidárias sólidas por trás e vários adotam atitudes que aumentam o folclore político latino-­americano.

Javier Milei contratou uma médium para se conectar com o cachorro morto. Nayib Bukele usa fortes camadas de maquiagem e, em grandes cerimônias, um jaquetão com galões dourados à la Eu o Supremo (título do formidável romance sobre um caudilho esclarecido e reformista, escrito pelo paraguaio Augusto Roa Bastos).

Alfredo de la Espriella achou que era um bom ato propagandístico aparecer numa cerimônia com vários corpos de guerrilheiros enfileirados no chão em sacos brancos, portando uma pistola na cintura. Continua após a publicidade

O caso que mais concentra atenções é o de Milei, tanto por seu estilo heterodoxo como pelo entusiasmo sem precedentes por princípios libertários. Irá ele perder na eleição presidencial de outubro do ano que vem para um candidato peronista, caso o partido-movimento consiga superar suas brigas internas? Atualmente, Milei está em posição pouco confortável.

Segundo uma pesquisa da consultoria CB Global Data, tem apenas 36,1% de aprovação (pior do que ele, nos últimos lugares de uma lista de dezoito governantes, só os esquerdistas: Daniel Ortega, na Nicarágua, com 35,7%; Yamandú Orsi, no Uruguai, com 35,2%; Delcy Rodríguez, na Venezuela, 32,2%; e Bernardo Arévalo, na Guatemala, 31%).

À esquerda ou à direita, a maioria passará pelo teste das urnas — a exceção é o enquistado Ortega. A garantia da alternância de poder é o melhor remédio para a enxaqueca da ressaca de urna.

E a certeza, embora ainda claudicante, de que a memória coletiva incorporou uma vital definição do paraguaio Roa Bastos: “Tirano, disse o rei sábio, é aquele que a pretexto do progresso, bem-estar e prosperidade de seus governados substitui o culto de seu povo pelo de sua própria pessoa”.

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018 Publicidade

Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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