Relatório da PF avança em elo entre senador Weverton Rocha e Careca do INSS
Mensagens de WhatsApp, planilhas e uma anotação são utilizadas como evidências num relatório da Polícia Federal (PF) que reforçam o elo entre o senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo, e o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, peça central no esquema de desvios de aposentadorias e pensões.
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O documento a que O GLOBO teve acesso afirma que “elementos reunidos indicam forte conexão entre interesses empresariais e políticos” envolvendo o senador e seus assessores com o grupo empresarial de Antonio Carlos Camilo Antunes e “sugerem a existência de uma estrutura voltada à movimentação de recursos, lavagem de dinheiro e corrupção”, aponta a PF.
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A conexão política entre o lobista e o senador Weverton aparece em uma mensagem de novembro de 2023 em que Rubens Costa, funcionário de Antunes, diz a uma interlocutora que o “senador Weverton é parceiro do Antonio”, em referência ao Careca do INSS. Na ocasião, os dois tratavam de ingressos para um show que ocorreria no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, onde Antunes mantinha um camarote que usava para estreitar relações com o meio político e integrantes da cúpula do INSS.
‘Grupo senador’
De acordo com a investigação, uma planilha enviada pelo contador das empresas do Careca do INSS continha nomes de empresas e a anotação “Grupo Senador Weverton”. Na galeria do celular do funcionário do lobista foi encontrado um registro feito à mão que traz uma lista de firmas, prestadores de serviço e “parceiros/facilitadores”. Ao lado dessa relação de entidades suspeitas de envolvimento nas fraudes em aposentadorias e pensões, está escrito “senador”, o que, diante do contexto das provas analisadas, a PF entende que se trata de “possível vínculo político” com o parlamentar.
Procurado, o Weverton afirmou, em nota, que “inexiste qualquer ligação dele” com “atividades do grupo de Antonio Antunes”. “Infelizmente o relatório da Polícia Federal tenta estabelecer uma conexão com base em ilações e em relações de terceiros, pelas quais não posso me responsabilizar”, diz o parlamentar.
“É importante deixar claro que não existe nenhuma planilha que demonstre transferência de valores ou beneficiamento para mim, assim como depois de todas as quebras de sigilo e investigações da Polícia Federal nunca apareceu nenhuma transação financeira minha com Antônio Carlos Camilo Antunes. Há setores a quem interessa me envolver nessa investigação, mas o que apresentam não são provas, mas tão somente convicção”, acrescenta Weverton.
Desde que o escândalo do INSS veio à tona, Weverton Rocha dizia que nunca teve uma relação de proximidade com Antunes. Ele, no entanto, reconheceu ao GLOBO que os dois já se reuniram no Senado para tratar de remédios à base de cannabis e estiveram juntos em um “costelão” (churrasco de costela), evento que o parlamentar costuma organizar em sua residência, em Brasília. “Na ocasião, ele se apresentou como empresário do setor farmacêutico”, disse o parlamentar.
A PF fez uma radiografia no gabinete de Weverton, traçando o histórico de quatro ex-assessores e um assessor do senador, apontando que alguns deles saíram do Congresso para serem nomeados no Ministério da Previdência, feudo de influência política do PDT, partido do parlamentar.
Um deles é o ex-secretário executivo do Ministério da Previdência Adroaldo da Cunha Portal, que atuou como assessor de Weverton no Congresso e foi demitido após ser alvo da PF. Ele nega qualquer irregularidade.
O senador também é apontado como uma das principais figuras influentes no INSS e padrinho responsável pela indicação do ex-diretor de benefícios do instituto André Fidelis, investigado pelo esquema de fraudes no órgão. O parlamentar, no entanto, nega que tenha pedido qualquer coisa irregular a Fidelis, que também rebate os indícios coletados pelos investigadores.
Após analisar mensagens, documentos e dados dos assessores do gabinete de Weverton, a PF aponta que Gustavo Gaspar, ex-assessor do senador, ainda atuava como braço direito do parlamentar. A suspeita dos investigadores é de que Gaspar agia em nome do seu ex-chefe, tratando de pagamentos com um funcionário do Careca do INSS.
Em uma mensagem enviada em junho de 2024, o ex-assessor de Weverton pergunta se o “Antônio (Careca do INSS) acertou as coisas com vc?”. O funcionário do lobista, então, responde: “Bom dia mestre. Ele acertou 5 meses. Faltaram outros 3”. Já em outro diálogo, o ex-assessor do parlamentar é cobrado por Costa: “kd o faz-me rir? kkkk”. Nos dias seguintes, Gaspar repassou R$ 6 mil ao funcionário do lobista, que estava cuidando para ele do registro de uma empresa.
Referência a dinheiro vivo
Como mostrou o jornal O Estado de S. Paulo, diálogos entre o Careca do INSS e Weverton Costa tratam de entrega de “encomendas” e de “impressões” para Gaspar, o que para a PF são referências a repasses de dinheiro vivo. Outra planilha apreendida indica que ele recebeu R$ 100 mil no esquema, sob a alcunha “Gasparzinho”.
A defesa de Gaspar nega “veementemente” qualquer tipo de acusação e diz que sua prisão preventiva “não encontra respaldo legal”. Afirma ainda que dará os esclarecimentos à PF.
A defesa de Rubens Costa, funcionário do Careca do INSS, afirmou que ainda não teve acesso ao inteiro teor das mensagens, “o que impede a correta compreensão de seu contexto”. Acrescenta ainda ter se colocado à disposição da investigação. Já os advogados do lobista afirmaram “desconhecer a razão pela qual as tabelas relacionariam suas empresas ao senador”. “Até o momento, não foi disponibilizado à Defesa o acesso aos aparelhos celulares analisados, necessário à compreensão do contexto que inclui os documentos citados”.
