O Reino Unido reafirmou nesta sexta-feira que as Ilhas Malvinas "são britânicas", em resposta às declarações do presidente argentino, Javier Milei, de que há "ventos de mudança" favoráveis à reivindicação de Buenos Aires sobre o arquipélago após o presidente americano, Donald Trump, dizer que não descarta revisar a tradicional posição de neutralidade dos Estados Unidos sobre a disputa. — No mundo, sopram ventos de mudança favoráveis à nossa reivindicação — afirmou Milei em pronunciamento transmitido em cadeia nacional, caracterizando a declaração de Trump como uma advertência a Londres: — Essa ameaça não é inofensiva. Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no Whatsapp Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Reino Unido e Argentina travaram, em 1982, uma guerra de dez semanas pelo arquipélago do Atlântico Sul, um território britânico ultramarino localizado a 600 quilômetros da costa argentina. Os argentinos se referem às ilhas como Malvinas, enquanto os britânicos as chamam de Falkland. O chefe da diplomacia britânica, Ed Miliband, afirmou nesta sexta-feira no X que "as ilhas são britânicas e continuarão sendo, porque essa é a vontade esmagadora de seus habitantes". Ele ainda reforçou que a posição do Reino Unido em relação às Ilhas Malvinas é "inabalável". Na mesma plataforma, o ministro britânico da Defesa, Wes Streeting, afirmou que as ilhas "são britânicas porque seus habitantes escolhem ser britânicos". Além da declaração de Trump, o destino das ilhas voltou a ser discutido após causar indignação na Argentina a revelação do projeto petrolífero Sea Lion, conduzido pela empresa britânica Rockhopper e pela israelense Navitas, a 220 quilômetros ao norte das ilhas.
Milei disse que vai "endurecer as sanções e penas contra as empresas envolvidas em operações não autorizadas" e anunciou a criação de uma base naval na província patagônica de Tierra del Fuego, no sul do país. Em meio ao cruzamento de declarações, as ações da Rockhopper caíram 7% na Bolsa de Londres, embora tenham posteriormente reduzido as perdas. Opinião do GLOBO: Argentina avançará se Senado apoiar projeto que disciplina missão do BC Em seu discurso após as declarações de Trump, o presidente argentino acrescentou que os habitantes das ilhas, por constituírem "uma população implantada em um território usurpado", não têm direito legítimo à autodeterminação. 'Se houver um conflito, Trump entra' A disputa pela soberania das ilhas é oficialmente reconhecida por uma resolução da ONU de 1965, que insta as duas nações a resolvê-la por via diplomática e a não adotar decisões unilaterais. — O Reino Unido ignorou sistematicamente esse apelo — criticou Milei, acrescentando que a Argentina deve agir "com firmeza" diante dos projetos que "representam uma ameaça aos interesses estratégicos do país". Guga Chacra: Como foi a Guerra das Malvinas/Falklands Até agora, os Estados Unidos, assim como a maioria dos países ocidentais, reconhecem que o Reino Unido administra de fato o arquipélago, mas não se posicionam estritamente sobre sua soberania, reivindicada pela Argentina. Na quinta-feira, em entrevista à emissora britânica GB News, Trump voltou a criticar a falta de apoio militar de Londres em sua guerra contra o Irã e se recusou a confirmar se apoiaria o Reino Unido em caso de um novo conflito com a Argentina. 'Instabilidade geopolítica': Holanda transfere 86 toneladas de ouro dos EUA para o Reino Unido — A questão das Malvinas serve a Trump para pressionar o Reino Unido, para que cumpra com suas demandas em relação ao financiamento da Otan, com a colaboração na guerra no Irã — disse Tomás Mugica, cientista político e diretor do Centro de Estudos Internacionais da Universidade Católica Argentina. — Muitas vezes, as posições retóricas de Trump, que são muito fortes, não correspondem às iniciativas diplomáticas e militares que as seguem. Já Juan Battaleme, cientista político e ex-secretário de Assuntos Internacionais para a Defesa do governo Milei até dezembro de 2025, foi categórico: — Se houver um conflito, Trump entra. Causa nacional Argentina e Reino Unido disputam a soberania do arquipélago austral pelo qual travaram uma guerra em 1982. O conflito terminou com a rendição do governo ditatorial argentino, após 74 dias de conflito, nos quais morreram 649 argentinos e 255 britânicos. Mais de quatro décadas depois, o tema continua sendo altamente sensível para os argentinos e também esteve presente durante a Copa do Mundo de 2026, quando jogadores da seleção argentina exibiram uma faixa com a frase "As Malvinas são argentinas" após vencerem a Inglaterra por 2 a 1 na semifinal. Milei aborda o tema em um momento de queda na aprovação de seu governo, a pouco mais de um ano das eleições nas quais buscará um segundo mandato. — Existe um amplo consenso entre a população em geral, e também entre as elites políticas, sobre a legitimidade da reivindicação de soberania da Argentina — destacou Mugica.
O Globo