Reimaginar o minhocão não é um luxo, é uma necessidade, diz diretor de icônico parque suspenso em NY
O diretor de um dos parques mais inusitados do planeta, o High Line, em Nova York — inaugurado em 2009 sobre uma antiga linha férrea suspensa — afirma que São Paulo poderia, e deveria, dar destino semelhante a estruturas que serão desativadas, como o Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão. Em visita à capital paulista e a Campinas para o seminário Arq.Futuro, Alan Van Capelle disse que “reimaginar parques não é um luxo, é uma necessidade urbana”. À frente da Friends of the High Line, ONG gestora do parque suspenso, ele defende que imaginar novos usos para o espaço público é essencial.
Bernardo Mello Franco: São Paulo desfigura Lei Cidade Limpa em pastiche da Times Square
Resposta: Concessionária do Vale do Anhangabaú contesta caducidade e pede negociação com a Prefeitura
O Plano Diretor da maior metrópole da América Latina prevê a desativação do elevado até 2029, mas ainda não há definição sobre sua demolição ou transformação.
Em entrevista ao GLOBO, Van Capelle sustenta que cidades não precisam de orçamentos bilionários para apostar em projetos urbanos ousados e aponta as metrópoles brasileiras como possíveis laboratórios dessa transformação.
A 9 metros do solo, High Line, em Manhattan, tem 2,4 quilômetros de extensão, com jardim botânico linear e exposição de obras de arte de grande escala
Gabby Jones/The New York Times
Procuradas, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) e a SP Urbanismo informam que o Plano Diretor Estratégico prevê a desativação gradual do Minhocão para o tráfego de veículos até 2029.
"Para viabilizar essa ação, a Prefeitura avança no projeto do Boulevard Marquês de São Vicente, alternativa sustentável à Marginal Tietê, com prioridade para pedestres, ciclistas e transporte coletivo. Recentemente, foi homologada a licitação para a contratação dos Projetos Básicos e do Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA), documentos que fundamentarão a futura contratação das obras. A previsão é que a execução tenha início até 2028, conforme estabelecido no Programa de Metas 2025–2028", diz a nota.
Desde a inauguração do High Line, em Nova York, muitos paulistanos sonham com esse destino para o Minhocão. É viável?
O Minhocão é muito parecido com a linha de trem elevada do High Line. Quero descobrir como os projetos no Brasil podem se integrar à Rede High Line, que criamos para formar uma comunidade global. A Rede vai realizar encontros de políticas públicas, para nos aprofundarmos em um tema específico por vez, como receita ou governança. E fará também simpósios, um dos quais pode acontecer em São Paulo. Os problemas que enfrentamos em Nova York são os mesmos enfrentados no Brasil.
O modelo do High Line pode ser aplicado em outras cidades?
Certamente. Há 47 projetos da Rede High Line em cidades diferentes. Todos buscam repensar o reaproveitamento de infraestrutura desativada para o bem público. Nenhum projeto é igual a outro. Entre eles, estão o do Presídio, em São Francisco, e o Riverfront Conservancy, de Detroit, nos EUA. O La Mexicana, na Cidade do México, por exemplo, era uma mina que foi coberta e virou área de uso misto, com parque. Seria empolgante ver São Paulo seguir um caminho como o do High Line e abrir concorrência pública para imaginar o novo Minhocão. É importante sonhar. Vinte e cinco anos atrás, quando a Friends of the High Line foi criada, ela se abriu a propostas. Uma delas era uma piscina elevada de 2,4 km de comprimento. Outra era construir uma montanha-russa. A que venceu foi o jardim, prático e necessário em um parque. Reimaginar parques não é um luxo, é uma necessidade urbana.
Quais foram os obstáculos para o High Line sair do papel?
O primeiro foi a própria cidade. O prefeito na época, Rudy Giuliani, do Partido Republicano, queria demolir o local. O setor imobiliário desejava construir prédios. Lutamos para preservá-lo e impedir a demolição, com um processo judicial. Depois, convencemos a cidade de que aquilo poderia ser um parque. Parques eram lugares pensados como pontos de destino, não foram concebidos como algo que pudesse levar as pessoas a outros bairros. E não eram lineares, mas pensados como algo central. Mesmo hoje, ainda discutimos: o High Line é um parque? Um museu ao ar livre? Um laboratório a céu aberto? Para cada pessoa, é algo diferente, dependendo de quando ela o visita e do motivo para fazê-lo.
Uma cidade precisa ter tantos recursos quanto Nova York para construir um parque como o High Line?
Acredito que isso também pode ser feito em São Paulo, mas é indispensável um modelo trissetorial: governo, filantropia — com a participação de fundações e instituições semelhantes — e apoiadores individuais que abracem a causa. Os fundadores do High Line e seus primeiros apoiadores simplesmente não aceitavam não como resposta. A primeira reação de todos será dizer que isso não pode ser feito; vão listartodos os motivos para isso. Deixe-os falando e siga em frente.
Há quem culpe o High Line pela gentrificação de seu entorno, o aumento dos aluguéis na parte oeste de Manhattan e o deslocamento de moradores de classes mais baixas. Foi um efeito colateral?
Não. A gentrificação e o aumento dos preços e do custo de vida não são fenômenos exclusivos do lado oeste de Manhattan. Isso aconteceu em toda a cidade, em todos os EUA, inclusive em lugares que não têm um High Line para chamar de seu. Os aluguéis também estão subindo no Brooklyn e no Bronx, por exemplo. Efeitos colaterais não intencionais podem ter ocorrido, mas os benefícios de se ter um jardim botânico linear de 2,4 km de extensão, um museu de arte (o Whitney Museum) e um centro educacional superam em muito qualquer eventual sequela.
Como vocês administram o parque?
Ele pertence à cidade de Nova York, mas é o único parque municipal quase 100% financiado por iniciativa privada. A Friends of the High Line é contratada para administrá-lo e operá-lo. Somos responsáveis por arrecadar US$ 24 milhões/ano (R$ 120 milhões), nosso orçamento operacional. E somos responsáveis pela manutenção dos jardins, pelo programa de arte pública, pela limpeza e pela segurança. Fazemos isso tudo com a aprovação da prefeitura, mas sem dinheiro público.
Como é o seu relacionamento com os prefeitos que sucederam Giuliani?
O prefeito atual (Zohran Mamdani, do Partido Democrata) acredita profundamente na acessibilidade. E o High Line recebe pessoas que moram tanto em habitações populares quanto em apartamentos de US$ 14 milhões (R$ 69 milhões). Ambos os estratos têm acesso a obras de arte de nível internacional e a um jardim botânico de excelência.
Quantos visitantes do High Line são turistas? Os nova-iorquinos ainda o visitam com frequência agora que não é mais novidade?
Um terço dos nossos visitantes mora em Nova York e nas comunidades vizinhas, outro terço vem de outras partes dos EUA e o restante, de outros países. O turismo em Nova York caiu 18% desde a posse de Donald Trump, em janeiro do ano passado, mas ainda recebemos muitos visitantes do Brasil e da América do Sul. Conseguimos identificar a origem das pessoas porque podemos ver os CEPs quando elas se registram em nosso site.
O quanto o parque foi modificado ao longo de mais de uma década e meia de funcionamento?
Quando o High Line foi inaugurado, não havia prédios dos dois lados. Agora, em alguns pontos, há edifícios que dão a sensação de estarmos cercados por eles. Isso afetou a quantidade de luz que os jardins recebem e a maneira com que as plantas reagem a essas condições. Ajustamos o que plantamos e consideramos por quanto tempo cada espécie sobrevive, levando em conta a localização dos prédios. Em determinado local, um pédio de vidro que reflita a luz pode queimar uma planta. Em outro, uma planta que precisa de oito horas e meia de sol no auge do seu crescimento agora pode estar recebendo apenas cinco horas. Mas, além de jogar na defensiva, estamos vendo a vida selvagem retornar à região. Manhattan não tinha muitos morcegos, por exemplo, e agora há uma população vivendo lá. Também temos abelhas, borboletas em flores asclepias que crescem lá. E também gambás. Quando os colonizadores holandeses chegaram e os indígenas viviam na ilha, eles relataram que havia gambás. Pois eles voltaram ao High Line.
O que é preciso para manter esse ecossistema vários metros acima do solo?
Tudo é mais difícil a nove metros de altura. Lá em cima venta mais, e tudo cresce em 45 centímetros de solo. Então, as plantas precisam se adaptar. Para isso, contamos com uma equipe excepcional de horticultores. No setor cultural, temos uma equipe de curadoria que entende como produzir e instalar obras de grande escala. O artista colombiano Iván Argote levou ao parque um pombo gigante, a escultura “Dinossauro”, fabricada no México e pintada em Nova Jersey. Tivemos que içá-la por guindaste durante a madrugada, e foi um esforço hercúleo fechar a Décima Avenida para isso. Nas próximas semanas, o vietnamita Tuan instalará sua obra “Toda a luz que brilha através”, um enorme Buda sem rosto, uma referência à destruição promovida pelo Talibã no Afeganistão. As mãos douradas da escultura são feitas de cartuchos de armas usadas na Guerra do Vietnã, descartados e derretidos. A obra, composta por várias partes, levará quatro noites para ser içada até o High Line.
E como vocês selecionam as obras de arte?
O critério inicial é que todas fiquem ao ar livre. Investimos cerca de US$ 2,5 milhões por ano (R$ 12,5 milhões) em arte, mas não incorporamos ao acervo. Pagamos o artista pela ideia e por uma miniatura da peça, depois pela fabricação, instalação e remoção. Após um ano no High Line, a obra é devolvida. Nesse momento, já ganhou visibilidade e pode ser vendida por um valor significativo. Assim, rompemos também com o estereótipo do artista faminto.
Além da arte, o que os visitantes mais valorizam no parque?
Há quem passe por lá no trajeto entre casa e trabalho. Quem vem de trem de Long Island chega a Manhattan pelo Moynihan Train Hall, atravessa a avenida e encontra uma ponte de ligação. Dali, é possível caminhar de Midtown ao West Village por cima das ruas da cidade. Algumas pessoas vão ao High Line só pelo jardim ou por um lugar para conversar e relaxar. Outras participam de atividades específicas. Oferecemos programas matinais de bem-estar para idosos, tai chi chuan e ioga. Também organizamos todo ano o maior baile de salsa ao ar livre de Nova York: 1.100 pessoas aprendem passos por uma hora e depois dançam juntas por três horas, ao som de uma banda formada só por mulheres. Neste ano, convidamos uma só com mulheres trans.
Quantas dessas atividades vocês conseguem manter gratuitas?
Tudo é de graça. Ninguém paga nada, exceto se quiser comprar comida nas nossas concessões. A inclusão é o valor mais importante para o High Line.
